Sunday, November 1, 2009

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Sunday, November 23, 2008

A infausta doutrina do pecado original

No seu texto de sábado no DN, Anselmo Borges aborda a questão do pecado original e nas consequências desta doutrina ao longo dos séculos, na cultura social e no interior do cristianismo.

A impressão geral que me ficava da religião nos tempos da catequese não era luminosa. Pelo contrário, tudo aquilo transmitia um mundo bastante tenebroso, a ideia de um Deus castigador e de nós sujeitos a um destino de submissão trágica. Os primeiros pais tinham pecado, Deus andava irado com a gente e Jesus sofria na cruz para ver se nos libertava. A alegria era um roubo e a palavra Evangelho, que quer dizer “notícia boa”, não pousava sobre nós nem nos aquecia.

O que infectava o cristianismo era a doutrina infausta do pecado original. Escreveu o célebre historiador católico Jean Delumeau: “Não é exagerado afirmar que o debate sobre o pecado original, com os seus subprodutos - problemas da graça, do servo ou livre arbítrio, da predestinação -, se converteu (no período central do nosso estudo, isto é, do século XV ao século XVII) numa das principais preocupações da civilização ocidental, acabando por afectar toda a gente, desde os teólogos aos mais modestos aldeões. Chegou a afectar inclusivamente os índios americanos, que eram baptizados à pressa para que, ao morrerem, não se encontrassem com os seus antepassados no inferno. É muito difícil, hoje, compreender o lugar tão importante que o pecado original ocupou nos espíritos e em todos os níveis sociais. É um facto que o pecado original e as suas consequências ocuparam nos inícios da modernidade europeia o centro da cena mundial, sem dúvida muito atribulado.”

No entanto, a doutrina do pecado original, no sentido estrito de um pecado transmitido e herdado, não se encontra na Bíblia. Jesus nunca se referiu a um pecado original.

Na sua base, encontra-se fundamentalmente Santo Agostinho, a partir de um passo célebre da Carta de
São Paulo aos Romanos
, capítulo 5, versículo 12. Mas ele seguiu a tradução latina: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz: “porque” todos pecaram. Ora, uma coisa é dizer que todos são pecadores e outra afirmar que todos pecaram em Adão, como a árvore fica infectada na raiz, de tal modo que todos nascem em pecado do qual só o baptismo os pode libertar. Santo Agostinho deixava cair no inferno, mesmo que menos terrível, as crianças sem baptismo. Durante séculos, houve mães tragicamente abaladas, porque os filhos morreram sem baptismo.

A Santo Agostinho serviu esta doutrina sobretudo para, convertido do maniqueísmo ao cristianismo, “explicar” o mal no mundo, que não podia vir do Deus criador bom.

De facto, baseou-se numa exegese errada. E quem não sabe hoje que o que diz respeito a Adão e Eva e à queda é da ordem do mito? Adão e Eva não são personagens históricas. Depois, se eles ainda não sabiam, como diz o texto do Génesis, do bem e do mal, como podiam pecar? O que o texto diz é outra coisa, e fundamental: o que caracteriza o Homem frente ao animal é a liberdade. O Homem já não é um animal como os outros: tem auto-consciência, sabe de si como único – a nudez metafísica – e que é mortal.

Mas os estragos desta doutrina infausta foram e são incalculáveis, sobretudo a partir do acrescento de Santo Anselmo e a sua doutrina da retribuição: os primeiros pais cometeram uma ofensa contra Deus infinito e, assim, era necessária uma reparação infinita para uma dívida infinita que só o Deus-homem Jesus podia pagar na cruz.

Ficou então a ideia de um Deus por vezes monstruoso, que precisou da morte do Filho para reconciliar-se com a Humanidade. Mas como era isso compatível com o Deus amor? Porque o pecado se transmitia pelo acto sexual, a sexualidade, o corpo e a mulher ficaram envenenados, numa situação dramática: era preciso continuar a gerar filhos – no limite, a actividade sexual só se legitimava para a procriação –, mas eles eram gerados em pecado e a mulher trazia o pecado dentro dela.

Porque é que o primeiro acto humano da História havia de ser o pecado? Hoje, com a teoria da evolução, a contradição torna-se maior. E, afinal, o que São Paulo diz no passo célebre da Carta aos Romanos é uma mensagem de esperança: todos os seres humanos pecam, o pecado do Homem é grande, mas o amor de Deus é maior. Infinito.

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Sunday, November 16, 2008

Só o amor é digno de fé

No seu texto deste domingo, no Público, frei
Bento Domingues fala da obra
recentemente publicada na colecção Teofanias, Só o Amor é Digno de Fé, da autoria de Hans Urs von Balthasar. Na mesma colecção, dirigida por José Tolentino Mendonça na Assírio & Alvim, acaba de sair igualmente Sob um Falso Nome, da italiana Cristina Campo, igualmente a merecer atenção.

 

1.A Suíça não é só a pátria dos banqueiros, dos relógios e dos queijinhos da “vaca que ri”. No século XX, foi também a pátria de fecundos e grandes teólogos em trânsito para o grupo dos clássicos. Um é protestante, Karl Barth, e dois são católicos romanos, Hans Urs von Balthasar e Hans Küng. Os dois primeiros já morreram, cheios de glória, e o último continua a sua desafiante intervenção. Não consta que K. Barth e H.U. von Balthasar tenham passado por Portugal ou tenham sido, cá, muito traduzidos. Mais sorte tivemos com H. Küng que, por várias vezes, fez conferências em Lisboa, Porto e Coimbra e tem algumas obras publicadas entre nós. Uma das mais significativas, O Cristianismo. Essência e História, apareceu no Círculo de Leitores, na colecção “Nova Consciência”.

Em 2005, os cem anos do nascimento de Urs von Balthasar foram celebrados num congresso internacional com uma calorosa mensagem de Bento XVI. O Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Universidade Católica Portuguesa organizou, nos dias 24 e 25 de Outubro passado – nos vinte anos da sua morte – as I Jornadas Balthasarianas. Na colecção “Teofanias” (Assírio & Alvim), dirigida por Tolentino Mendonça, acaba de aparecer o formoso livro, “Só o Amor é digno de Fé”, cujo original alemão foi publicado em 1963. A tradução é de Artur Morão que, ao apresentar este pequeno livro, caracteriza a sua teologia: “O discurso balthasariano, que não visa nem assenta num sistema, realiza uma feliz conjunção de rigor filosófico e inspiração espiritual, de empenhamento teológico e missão cultural, de coerência lógica e vivacidade poética, de vivência intensa e de impulso protréptico ou persuasivo, de denúncia apaixonada e de convite amistoso, porque pretende justamente realçar o que, aos seus olhos, constitui o cerne da visão cristã: o Amor como Beleza”.

2. Rosino Gibellini (1) documentou, no século XX, dezasseis correntes teológicas de grande mérito – assim como uma prospectiva para o século XXI – com a consciência de que nenhuma delas pode substituir as outras. Esta pluralidade impede que se diga – como tantas vezes se faz – este ou aquele é o maior teólogo do século XX, porque essas gradações dependem, sobretudo, do gosto, dos limites e das preferências de cada um. Nenhuma elaboração teológica – ao situar-se no mundo da hermenêutica da fé – pode ter a pretensão de atingir um lugar e um estatuto, a partir dos quais avalia a importância e a ortodoxia das outras. Na Igreja católica, a Comissão para a Doutrina da Fé exerce um papel que, às vezes, dá a ideia de assumir essa posição impossível. As teologias só podem ser fecundas, quando cada uma sabe que é um ponto de vista parcial e consente em se deixar interrogar e questionar pelas outras. Como em muitos outros campos, é mais corrente a prontidão em procurar ser compreendido do que em tentar compreender. No prefácio ao “Só o Amor é digno de Fé”, o próprio H.U. von Balthasar confessa: “Este ensaio ilustrará, por isso, o desígnio da minha obra mais vasta, Herrlichkeit, de uma «estética teológica» no duplo sentido de uma doutrina da percepção subjectiva e de uma doutrina da automanifestação objectiva da glória divina; mostrará que este método teológico, muito longe de ser um produto acessório, pouco relevante e dispensável, do pensamento teológico, deve, pelo contrário, como o único definitivo, pôr-se no centro da teologia, ao passo que a verificação cosmológica e histórica e o exame antropológico podem, quando muito, surgir como pontos de vista complementares e secundários” (p.24).

Aquilo que apelida de «estética» tem, aí, um carácter puramente teológico: é o acolhimento, só apreensível na fé, da glória do amor soberanamente livre de Deus, que a si mesma se manifesta. Diz isto não só para se demarcar das outras teologias, mas também de todas as outras tentativas estéticas que o precederam e que nomeia.

3. “Falar de poesia parece-me sempre impossível. De um poema só se pode dizer o próprio poema. Quando muito podemos tentar – sem interpretar – reconhecer o que lá está”. Esta observação de Sophia M.B. Andresen exprime, em parte, o desejo de H.U. von Balthasar perante a revelação de Cristo e a caracterização da identidade cristã. Como diz e bem, “não é possível colocar outro texto por baixo do texto de Deus, que por ele se poderia tornar legível e compreensível ou, dizemos nós, mais legível e mais compreensível. O texto de Deus deve e quer explicar-se a si mesmo”(p.52).

O que é que terá levado este teólogo a não se recolher no puro silêncio? O cristianismo nasce da difusão da palavra do amor e da sua beleza, não do seu cativeiro. Por isso, a estética teológica de H.U.von Balthasar não é uma teologia estética ao serviço de um cristianismo estetizante. O que ele procurou, através de uma construção imensa, foi apreender o estético da própria revelação, na evidência objectiva de Cristo, “obra artística de Deus”, sua exegese, expressão adequada e visível do Deus invisível, no mistério da Cruz.

(1)   A Teologia do século XX, São Paulo, Loyola, 1998; Prospettive Teologiche per il XXI secolo, Brescia, Queriniana, 2003.

 

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Saturday, November 15, 2008

Darwin contra Deus?

No seu texto semanal dos sábados no DN,
Anselmo Borges regressa ao tema da relação entre fé e ciência, falando desta vez sobre a visão do cosmos pós-darwinista: esta pode ser também um entendimento crente da criação, compatível com a leitura científica.

 

O diálogo entre o bispo S. Wilberforce e Th. Huxley, aqui narrado no sábado passado, será mais lenda do que história. Facto é que, a partir do darwinismo, há quem pense que a única conclusão cosmovisional é o materialismo e o ateísmo.

Mas essa é uma conclusão que nem Darwin tirou. Ele é mais agnóstico do que ateu, como pode ler-se na sua Autobiografia: “Sinto-me compelido a considerar uma causa primeira com uma mente racional análoga à do Homem; e mereço ser chamado teísta. Mas então surge a dúvida: pode-se confiar na mente do Homem, que, estou convencido, se desenvolveu a partir de uma mente tão primitiva como a que possuía o mais primitivo dos animais, quando tira conclusões tão sublimes? Não podem estas ser o resultado da relação entre causa e efeito, que, embora nos pareça necessária, provavelmente depende só da experiência herdada? Também não podemos ignorar a probabilidade de que a imposição constante da crença em Deus na mente das crianças produza um efeito tão pronunciado, e talvez herdado, nos seus cérebros não totalmente desenvolvidos que lhes seja tão difícil libertarem-se da sua crença em Deus. Não posso pretender lançar a mínima luz sobre problemas tão nebulosos. O mistério do começo de todas as coisas é para nós insolúvel; e eu, pelo menos, tenho de contentar-me com continuar a ser um agnóstico.”

João Paulo II reconheceu, em 1996, numa intervenção na Academia Pontifícia das Ciências, que novos conhecimentos levam a considerar a teoria da evolução como mais do que uma simples hipótese.

Há evolucionistas materialistas. Mas também há evolucionistas que são crentes. Não há incompatibilidade entre a fé e o evolucionismo, que, segundo a obra célebre do padre e cientista Teilhard de Chardin, podem mesmo harmonizar-se. Depois de se esclarecer o “como” do processo evolutivo que leva ao aparecimento do Homem, ainda se não calou a pergunta pelo “porquê” da evolução desembocando num ser humano que continua a perguntar pelo sentido da sua existência e de tudo.

Bento XVI não se cansa de insistir que não somos um produto casual e sem sentido da evolução. “Cada um de nós é o resultado de um pensamento de Deus.” Sim, porque é que o Deus criador pessoal não haveria de poder servir-se do acaso para realizar o seu desígnio de uma criatura inteligente e amante, com quem estabelecer a sua aliança?

Contra J. Monod, que concluiu o seu célebre O Acaso e a Necessidade, escrevendo que “o Homem está só na imensidão indiferente do Universo, donde emergiu por acaso”, o cientista Juan-Ramón Lacadena crê numa “teleologia externa, cujo agente é a Causa Primeira, Deus”, que tem uma finalidade na criação. Mas acrescenta que tem de ficar claro que nem ele “o pode provar cientificamente” nem ninguém “o pode rebater com provas científicas”. “É uma simples, mas importante, questão de crença ou não crença. Um cientista crente pode aceitar a existência de um Criador, sem necessidade de que o mesmo Deus tenha de continuar a intervir pontualmente no processo evolutivo desde as origens do universo.”

Pelo contrário, o crente reflexivo, precisamente porque o é, recusa um Deus intervencionista. Francis S. Collins, coordenador do Consórcio Internacional da Sequenciação do Genoma Humano, escreveu na sua obra The Language of God, defendendo a tese de uma evolução teísta: “Deus criou o universo e estabeleceu leis naturais que o governam. Deus escolheu o próprio mecanismo evolutivo para dar lugar a criaturas especiais, dotadas de inteligência, conhecimento do bem e do mal, livre arbítrio, e o desejo de buscar amizade com Ele”, acrescentando: “A minha modesta proposta é dar outro nome à evolução teísta: ‘Bios mediante Logos’ ou simplesmente, BioLogos - bios, termo grego para ‘vida’, e logos, ‘palavra’, em grego. Para muitos crentes, a Palavra é sinónimo de Deus, como dizem de forma tão poderosa e poética as majestosas linhas que abrem o Evangelho de São João: ‘No princípio era o Verbo (Logos), e o Verbo era com Deus, e o Verbo era Deus’ (Jo. 1, 1). ‘BioLogos’ exprime a crença de que Deus é a fonte de toda a vida e que a vida exprime a vontade de Deus.”

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Friday, November 14, 2008

“Estilos de vida moderados” contra as alterações climáticas, pedem bispos europeus

O fenómeno das alterações climáticas implica uma especial responsabilidade dos cristãos, que devem propor “modos de viver baseados na moderação voluntária”, diz um relatório que estes dois dias – quinta e sexta – esteve a ser debatido
em Bruxelas pela Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia (Comece), durante a assembleia plenária de Outono.

De acordo com a Zenit, os bispos estudaram o relatório “Visão cristã sobre as alterações climáticas”, elaborado por um grupo de especialistas nomeado pela Comece em Janeiro e presidido pelo antigo comissário da União Europeia, Franz Fischler. 

“A Igreja Católica e todos os cristãos são os mais preparados para propor uma mudança na forma de viver, com iniciativas concretas e com os seus exemplos de moderação”, diz o texto.

“Nas décadas recentes, a teologia cristã preparou o mundo para uma visão renovada da criação de Deus e uma percepção mais afinada sobre o lugar e o papel do género humano”, como “administrador da Criação”. Portanto, a relação da humanidade com o ambiente “pode ser considerada racionalmente também como um problema moral”. 

O documento sublinha que as alterações climáticas supõem um “grande desafio para a humanidade”, ao qual se deve responder com “propostas éticas”. Destacam-se duas: a justiça inter-geracional e a solidariedade para com os países do sul do mundo.

A proposta ética cristã sobre a criação, acrescenta o relatório, deve basear-se no “respeito pela dignidade humana”, na “visão global da justiça social”, na subsidiariedade, solidariedade e sustentabilidade, assim como no “princípio de precaução” diante de condutas em relação às quais não haja segurança sobre eventuais danos indesejáveis.

Durante a apresentação do relatório, a 24 de Outubro último, os seus autores afirmaram ser “necessário reconhecer que a luta contra a mudança do clima é antes de tudo um problema de ethos público, (…) de solucionar sem desafiar certos modos de organizar a sociedade, sem perguntar-nos sobre o nosso modo de convivência e o nosso sistema de valores”. 

Esta reflexão ética “poderia estar baseada na teologia cristã, especialmente nos valores e nos princípios do ensinamento social da Igreja – a justiça global, a preferência pelos mais fracos, a subsidiariedade e a responsabilidade para com o bem comum”, diz o documento. Mas antes de tudo, dizem os autores, as alterações climáticas são “um problema de justiça intra e inter-geracional”, perante os países em vias de desenvolvimento e as futuras gerações, que enfrentarão o problema. E são apenas “um sintoma de um modo de viver insustentável, de modos de produção e modelos de consumo que não sobreviverão no futuro”. O texto afirma que a Europa tem uma “especial responsabilidade” em combater o fenómeno, dada a sua capacidade tecnológica e financeira e a sua experiência em acções de cooperação.

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Monday, November 10, 2008

Relações Vaticano - EUA após a eleição de Obama

O correspondente da revista National Catholic Reporter junto do Vaticano, John L Allen Jr, publicou no seu blogue uma carta-aberta ao presidente eleito Barack Obama, cuja leitura se recomenda (assim como as dezenas de comentários que já originou).
O jornalista procura evitar um tipo de relações crispadas como o que ocorreu na presidência de Clinton, matéria especialmente sensível depois de vários bispos norte-americanos terem assumido, na recente campanha eleitoral, posições públicas (nomeadamente relacionadas com a doutrina sobre o aborto) que representaram claramente uma tomada de partido contra Obama e o Partido Democrata.
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Dois males de que padece a Igreja em Portugal

Como reagiu a Igreja em Portugal ao discurso do Bento XVI?
D. António Marcelino, bispo emérito de Aveiro, dá a sua opinião, no site da agência Ecclesia
1. Creio ser de justiça afirmar-se que, certamente, os responsáveis da Igreja em Portugal, com os seus colaboradores imediatos, conscientes da realidade que vivem e em que vivem, estão preocupados, para além da palavra do Papa, em encontrar caminhos adequados para responder ao maior desafio que é feito à Igreja no nosso país, o da evangelização, bem como o de dar à Igreja Diocesana e às suas comunidades, um rosto novo de cariz conciliar.

É precisamente este o rosto de uma Igreja Comunhão, serva e pobre, expressão cada vez mais clara do Povo de Deus que caminha no tempo, em luta e sofrimento, portador das promessas e das certezas de Deus, a favor de todos, sem excepção.

Até que ponto o estão logrando, é uma pergunta pertinente nesta hora e em todas as horas, dominadas pela urgência da missão, em tempos difíceis e, por isso mesmo, mais insistentes e desafiantes.

Não basta, hoje, o que sempre se fez com generosidade renovada. Tempos diferentes, mundo diferente, desafios diferentes, pensares e saberes diferentes pedem uma acção igual nos objectivos, mas diferente nas suas diversas expressões, mesmo correndo riscos, como adverte K Rahner.

2. Bento XVI falou da necessidade de abrir caminhos de comunhão que permitam ver a imagem e o rosto inequívocos de uma Igreja que caminha ao ritmo do Vaticano II, na qual todos os seus membros, conscientes da sua dignidade e do seu lugar na comunidade, se sintam protagonistas integrados e participantes na vida eclesial. Insistiu, neste sentido, na necessidade de “mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros”. Isto exige que se veja, com verdade e coragem, se a Igreja em Portugal já assumiu ou está assumindo as características de uma Igreja Povo de Deus, por isso mesmo Igreja Comunhão, plural nos dons, nos carismas e nos ministérios, mas uma só na dignidade comum de todos os seus membros, na lei que os anima e compromete, na finalidade concreta da sua missão de anúncio de Jesus Cristo e de diálogo com o mundo.

Não é fácil poder dizer-se que este caminho, que é, certamente, desejo e propósito de todos, está andado ou a ser andado com resultados visíveis.

O Papa deu mais uma achega neste sentido, ao falar do “recto ordenamento da Igreja” em Portugal sobre a atribuição das responsabilidades que competem a cada um. De facto, a Igreja do Vaticano II não pode ser mais uma Igreja de cristandade, na qual a tradicional vertente clerical substitua ou impeça a integração dos leigos na vida e na missão concreta da Igreja.

Se examinarmos esta primeira orientação pastoral do Papa, talvez tenhamos que dizer que os resultados não são tão positivos, a nível de todo o país, como seria desejável que já fossem, quarenta anos depois do Concílio.

O ritmo tem sido diferente e os resultados não podem ser iguais, mas a verdade é que, também não se viu nenhum programa com linhas orientadoras do mesmo, emanado da Conferência Episcopal Portuguesa com essa finalidade.

A autonomia das dioceses, com as suas tradições, caminhada própria e perfil humano e social diferentes, tem dificultado sempre iniciativas comuns necessárias em ordem a uma desejada e urgente renovação. Mas, sem estas, pensadas por todos os que no Povo de Deus têm capacidade para isso, e são muitos, e não apenas pelos bispos com os seus presbitérios, e acolhidas, responsavelmente, por todas e cada uma das dioceses, não se vislumbram mudanças na fisionomia da Igreja e no seu empenho actualizado da missão.

Enquanto houver algum predomínio do clericalismo, aos diversos níveis, e do individualismo pastoral, que parece satisfazer cada um na autonomia do seu território, não será possível abrir caminhos novos para uma Igreja Comunhão, suporte de uma Missão que a identifica com o projecto de Jesus Cristo

Ao longo deste ano não se viram muitas iniciativas nesse sentido e poderá dizer-se que, lamentavelmente, o processo de renovação, a nível nacional, continua mais ou menos parado, fazendo-se aqui e ali o que parece bem ou possível a cada um, sem qualquer exigência comum, como se, de Norte a Sul os grandes problemas são fossem iguais e os territórios geográficos não confinassem.

3. Bento XVI disse ainda, que o processo de renovação tem um ponto de partida essencial: o “encontro pessoal com Jesus Cristo que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, um rumo decisivo”. Acrescenta que “a evangelização da pessoa e das comunidades humanas depende, absolutamente, da existência ou não deste encontro com Jesus Cristo”, no qual é importante, se não mesmo fundamental, o caminho da “iniciação cristã” nas comunidades paroquiais, que devem, agir como comunidades educativas da fé. Assim se poderá lograr uma vivência cristã, pessoal e comunitária, que seja garantia de fidelidade e de dinamismo apostólico, frente a uma sociedade laica, na qual Deus parece ter cada vez menos lugar.

Os bons propósitos de uma iniciação cristã programada de que se foi falando em diversas instâncias, não foram longe e não se viu reflexão nesse sentido, nem a nível de CEP e seus serviços, nem a nível da quase maioria das dioceses, tanto quanto se sabe. O que se fez numa ou noutra foi constando tanto em dioceses como em movimentos laicais de cariz evangelizador.

Fui, por curiosidade, recordar as intervenções de João Paulo II aos bispos portugueses em anteriores visitas ad Limina (1982, 1987, 1999). Bento XVI seguiu no mesmo sentido, com palavras iguais ou próximas, ante a necessidade de evangelização numa sociedade em mudança e com um povo eivado de tradições religiosas , por vezes pouco consistentes e menos esclarecidas.

O tempo vai passando e estamos neste ponto: uma Igreja, com grupos maioritários válidos e apostólicos, mas pejada de pagãos ou de cristãos incoerentes. Que vão perdurando e não diminuindo por uma sacramentalização sem evangelização ou catequese.

A nível geral e durante séculos, não se fez nas comunidades paroquiais, com raras excepções proporcionadas por movimentos especializados, uma verdadeira iniciação cristã, porque se considerava desnecessária numa Igreja de cristandade e de transmissão pacífica da fé. E, onde se começou um novo caminho neste sentido, com jovens e adultos, iniciativas válidas, sérias e reflectidas foram ficando pelo caminho, por falta de convicção pastoral e de educadores da fé, preparados e disponíveis, que acreditem que o caminho é este.

Aparece mais visível, entre nós, a preocupação de responder positivamente ao desejo do Papa, quando ele disse aos bispos: “Apraz-me pensar em Fátima como escola de fé com a Virgem Maria por Mestra; lá ergueu Ela a sua cátedra para ensinar aos pequenos videntes e depois às multidões as verdades eternas e a arte de orar, crer e amar”. Em Fátima vão-se vendo coisas novas e esperemos que com futuro.

4. Passado mais um ano, é minha opinião, que, apesar da sua generosa entrega a actividades pastorais tradicionais, ainda que com alguma cosmética exterior de novidade, a Igreja em Portugal parece padecer de dois males do tempo, que paralisam, em grande parte, a sua acção e não permitem projectos pastorais inovadores. Trata-se de um activismo pouco centrado no essencial e para este orientado, e uma dificuldade concreta de paragem para ler a realidade, discernir com critérios válidos os apelos profundos das pessoas em geral e muito especialmente dos mais jovens. Assim aparece o empenho em rumos, traduzidos em propostas e respostas a uma sociedade que já não age na linha da fé, nem procura inspiração na mensagem evangélica e cristã.

Muita gente generosa continua a esgotar-se em actividades sem futuro consistente; muitos planos pastorais aparecem mais voltados para os problemas internos da Igreja, por importantes que estes sejam, que para o seu dever como servidora do mundo que tem e ouvir para melhor dialogar; a muitos leigos bem preparados pede-se-lhes o que muitos outros podem fazer e não um contributo de reflexão e planificação para que têm saber e competência.

O tempo passa e parece ser melhor caminho na Igreja, para alguns responsáveis, agir em função de imediatos que programar por objectivos.

Organizar a Igreja como sociedade humana e com rosto social aceitável é muito diferente e, provavelmente, mais fácil, que revitalizá-la como comunidade de fé e como comunidade fraterna, capaz de uma missão no tempo, que é anunciar Jesus Cristo, como único Salvador, e saber dialogar com o mundo secularizado, em ordem à sua humanização e procura de melhores soluções para os seus maiores problemas, mormente no campo da justiça, da verdade e da paz.

Neste contexto, para a Igreja e sua acção, a criatividade é fundamental, com tudo quanto esta exige em relação a meios necessários, que vão além dos habituais.

5. O problema da Igreja, hoje entre nós, parece ser o da sua capacidade de se situar validamente, quer na fidelidade dinâmica às orientações conciliares que a fazem regressar às raízes e às fontes daquilo que no cristianismo é evangelicamente essencial, quer de viver e agir num mundo diferente onde as dificuldades têm de ser consideradas como desafios e oportunidades.

Ante tempos novos, Bento XVI está dando à Igreja a que preside, apesar da sua idade, um testemunho extraordinário de fidelidade corajosa ao essencial e de abertura, com uma sensibilidade invejável, ao mundo actual e aos seus dinamismos, dialogando sem receio e abrindo-se aos valores emergentes, venham de onde vierem. A visita pastoral recente a França e as notícias que cada dia nos chegam dos seus mais diversos encontros e intervenções, em Roma ou noutras paragens, mostram caminho a seguir e a actualidade das suas advertências e orientações.

Hoje, para todos, mesmo não crentes, é preciso que a Igreja mais responsável dê razões de esperança, quer aos seus membros, quer à sociedade em geral. É este o seu dever

A comunhão com Pedro para melhor serviço do Reino, também se situa nesta linha.

António Marcelino,

bispo emérito de Aveiro

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Sunday, November 9, 2008

Os dias da América

 Sob este título, a coluna semanal de Eduardo Madureira, no Diário do Minho, assinala um acontecimento histórico transcendente, traduzido na (desencadeado pela) vitória de Barack Obama para o cargo de presidente dos Estados Unidos da América:

Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008. Umas vezes, só; acompanhado, outras, um negro está, neste dia, nas primeiras páginas dos diários dos Estados Unidos da América. Raras vezes, não as ocupa na totalidade. Os títulos diferem pouco. Frequentemente, há uma única palavra: Obama. Não faltam também os diários que escolhem o vocabulário sabendo que estão a fazer primeiras páginas sobre um raro acontecimento histórico. “Obama Makes History”, escreve The Washington Post. Outros jornais, menos conhecidos, sublinham o mesmo. “History is made”, diz o Burlington County Times, uma publicação de New Jersey. O The Palm Beach Post afirma apenas: “History”.

O site Newseum, que mostra as primeiras páginas de muitas centenas de diários de todo o mundo, tem, no topo, um pedido de paciência aos internautas. Há, nestas horas, demasiada gente a espreitar o quiosque virtual que, por isso, executa o seu trabalho muito lentamente. As imagens dos jornais, que, num dia normal, aparecem instantaneamente, demoram, neste dia histórico, longos minutos a surgir.

Quando não aparece só, Barack Hussein Obama tem, em algumas fotografias, a companhia da mulher, Michelle LaVaughn Obama, e, noutras, à presença da mulher, acrescenta-se a das filhas, Malia e Sasha. Têm um ar encantador estas duas crianças que, com certeza, não imaginam o quanto representa o feito que celebram. Ann Nixon Cooper, uma mulher negra de 106 anos que Obama traz ao seu discurso, essa, compreende-o bem. Mesmo que os próximos tempos não estejam à altura do momento presente, ela sabe exactamente o que, com esta eleição, mudou. Há jornais que falam de mudança nas suas primeiras páginas e a principal mudança foi a que tornou possível que um negro, que, para este continente, vinha como escravo no século XVII, seja presidente dos Estados Unidos da América.

No dia seguinte, quinta-feira, Barack Obama tomará conta das primeiras páginas de jornais de todos os continentes. Algumas são assaz eficazes. O belga DeMorgen destacará a palavra “Change” e espalhará pela primeira página a sua tradução em várias línguas, incluindo a portuguesa. Outros jornais, como o belga De Standaard ou o sueco Aftonbladet, farão a manchete com uma língua estrangeira: “Yes, We can”.

Embora não sabendo, na quarta-feira, à hora do fecho da edição, quem será o vencedor das eleições dos Estados Unidos da América, o influente El Periódico de Catalunya arrisca, todavia, e coloca, na totalidade da primeira página das edições em castelhano e catalão, uma impressionante fotografia, a preto e branco, do rosto de um negro. Não é Barack Obama, mas a vitória também pertence a este outro americano.

De facto, quarenta anos depois de ter sido assassinado, Martin Luther King triunfa. Muitos de nós hão-de morrer sem ter visto o fim da segregação e da discriminação, escreveu ele num texto intitulado “Sonhos desfeitos” (Força para amar. Lisboa: Moraes, 1969. 2.ª ed.), em que afirmava a necessidade de prosseguir o combate não-violento pelos direitos cívicos. “Aceitemos o desapontamento finito, mas nunca percamos a esperança infinita. Só assim conseguiremos viver sem o peso do azedume e sem o escape do ressentimento”, proclama.

Martin Luther King fala, frequentemente, como o apóstolo Paulo, subscrevendo que “Paulo contribuiu mais para promover a ideia da independência e da liberdade do que qualquer outro homem que tenha pisado o solo ocidental”. Escreve, aliás, ele próprio, uma “Carta de S. Paulo aos cristãos da América” (igualmente incluída no livro referido): “Exorto-vos, pois, a libertar-vos de qualquer espécie de segregação; representa um desmentido flagrante à nossa unidade em Cristo. Ela substitui a relação entre duas pessoas por uma relação entre pessoa e coisa, relegando pessoas para a categoria de coisas. Isto fere a alma e degrada a personalidade; inflige nos segregados um sentimento de inferioridade, ao mesmo tempo que imprime em quem segrega uma noção errada sobre a sua própria superioridade; destrói a comunidade e impossibilita a fraternidade. A estrutura filosófica do cristianismo opõe-se diametralmente à estrutura filosófica da segregação racial”.

São sempre poderosas as palavras de Martin Luther King. A sua vida exemplar fortalece as suas imprecações e os seus incitamentos. As diversas agressões violentas de que foi alvo e o seu assassinato tornam mais vibrante o que diz sobre a esperança: “O cristianismo sustenta que o mal contém o germe da sua própria destruição. A História é simplesmente a história das forças do mal que avançam com um ímpeto aparentemente irresistível para serem depois vencidas pelas forças da justiça”.

Diz ainda Martin Luther King que “os Hitlers e os Mussolinis podem ter a sua época e, durante uns tempos, dispor de um poder enorme espalhando-se como raízes de árvores gigantescas, mas não tardam em ser arrancadas e cortadas como simples ervas daninhas”. Enfatiza a ideia, citando Vítor Hugo: “Quando descreve nos Miseráveis a batalha de Waterloo, diz: ‘Seria possível a Napoleão ter vencido esta batalha? Respondemos que não. Porquê? Por causa de Wellington? Por causa de Blücher? Não: por causa de Deus. Napoleão era responsável perante o Infinito, e a sua queda tinha sido decretada; vexara Deus. Waterloo não foi uma batalha; foi uma troca de posições no Universo’”.

A eleição de Barack Hussein Obama permite a retórica exaltada das ocasiões singulares. Mas forçoso é reconhecer que muito caminho se fez desde que, há quarenta e cinco anos, Martin Luther King foi a Washington dizer: “I have a dream”. O “sonho” foi, na quinta-feira, para o topo da primeira página de um diário da África do Sul, The Times, levado por Nelson Mandela, outra enorme figura do nosso tempo. Olhando para estes dias, observa que “nenhuma pessoa em qualquer lugar do mundo pode deixar de ousar sonhar”.

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Deus contra Darwin?

Na sua coluna de sábado, dia 8, no DN, Anselmo Borges regressa ao tema da relação entre religião e ciência:

 

Não cabe aqui um esboço sequer da história das concepções evolucionistas. De qualquer modo, a ideia de evolução já tinha acenado entre os gregos. Em 1809, Lamarck expôs a sua teoria da não imutabilidade das espécies. Mas foi em 1858, há 150 anos, que a ideia da selecção natural e da luta pela existência, de Alfred Russel Wallace e Charles Robert Darwin, foi apresentada na Linnean Society de Londres. No ano seguinte, em 1859, Darwin publicou a obra célebre: A Origem das Espécies.

 Atendendo a estas datas e sobretudo às celebrações do segundo centenário do nascimento de Charles Darwin - nasceu em 12 de Fevereiro de 1809 -, aumentarão os estudos científicos sobre as teorias da evolução, não faltando os debates à volta da sua relação com a religião, por causa do livro do Génesis, do “criacionismo” e do chamado “desígnio inteligente”.

 O primeiro embate célebre deu-se logo em 1860,
em Oxford. Perante uma assistência numerosa, o bispo de Oxford, Samuel Wilberforce, foi perguntando ao naturalista Thomas Huxley, defensor de Darwin, se descendia do macaco pelo lado do avô ou pelo lado da avó. Huxley respondeu: “Penso que um homem não tem que envergonhar-se por ter um macaco como avô. Se tivesse de envergonhar-me de um antepassado, seria de um homem: um homem de inteligência superficial e versátil que, em vez de contentar-se com os sucessos na sua esfera própria de actividade, vem imiscuir-se em questões científicas que lhe são completamente estranhas, não faz senão obscurecê-las com uma retórica vazia, e distrai a atenção dos ouvintes do verdadeiro ponto da discussão através de digressões eloquentes e hábeis apelos aos preconceitos religiosos.”

 Por causa desta resposta, considerada pouco elegante, uma senhora desmaiou. A mulher do bispo, essa, terá dito entre dentes: “Só faltava esta: descender de macacos! Se for verdade, rezemos para que ninguém saiba.”

 A teoria da evolução constituiu uma daquelas humilhações do Homem de que falou Freud. Embora o Homem não descenda do macaco, ele e o macaco descendem de um antepassado comum, o que não constituiu uma descoberta particularmente exaltante. Desde então a nossa visão da natureza, do Homem e de Deus modificou-se.

 Significativamente, já na altura, muitos religiosos britânicos declararam que não havia incompatibilidade com a fé. O historiador das ciências D. Lecourt escreveu: “A figura mais importante da Igreja escocesa declarou-se evolucionista e, num curso, em 1874, aconselhou os teólogos a sentirem-se ‘perfeitamente à vontade com Darwin’.” Darwin, sepultado com pompa, em 1882, na abadia de Westminster, a alguns passos do túmulo de Newton, nunca foi oficialmente condenado pela Igreja católica e A Origem das Espécies nunca esteve no Índex.

 De qualquer modo, segundo o reverendo Malcom Brown, director dos serviços de relações públicas da Igreja Anglicana, a sua Igreja deveria agora pedir desculpa pela má interpretação de Darwin e algum fervor anti-evolucionista.

 Hoje, os equívocos beligerantes provêm essencialmente do “criacionismo” americano e do chamado “desígnio inteligente”. Mas o “criacionismo” assenta numa leitura literal do mito da criação do Génesis, esquecendo que o Génesis é um livro religioso e não de ciência e que só uma leitura simbólica é adequada. Quanto ao “desígnio inteligente”, o seu equívoco provém da ambição de demonstrar Deus pela ciência.

 De facto, como é evidente, a existência de Deus não é nem pode ser objecto de ciência. Mas afirmar taxativamente que a evolução é mero produto do acaso não deixa de ser também uma posição dogmática. A ciência vai respondendo ao “como” da evolução, mas não responde ao “porquê”, concretamente ao porquê e para quê da existência do Homem e de tudo: “Porque há algo e não pura e simplesmente nada?”

 Como escreveu o cientista Francisco J. Ayala, na conclusão da sua obra Darwin e o Desígnio Inteligente, “a evolução e a fé religiosa não são incompatíveis. Os crentes podem ver a presença de Deus no poder criativo do processo de selecção natural descoberto por Darwin”.

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Thursday, November 6, 2008

Conversando com Françoise Dolto

José Tolentino Mendonça, Teólogo

Há cem anos nascia Françoise Dolto (1908 - 1988).
A psicanalista tinha, além do apartamento parisiense,
onde viveu e morreu, uma casa de férias
em Antibes, a que chamou “La Soledad”. Podemos
imaginar a razão desse nome dado a um espaço
conquistado às rotinas e fadigas, abrigo de intimidade,
criação e silêncio. Um dos
seus últimos livros leva também
esse nome. É um volume que recolhe
dispersos e uma longa conversa
acerca do lugar da solidão (e, logo,
sobre o desejo de comunhão), e seus
efeitos sobre construção inacabada
e frágil da vida.
Aí, conversando sobre a solidão,
Françoise Dolto irrompe, inesperadamente,
a falar da Trindade. E modo como o faz,
não a partir das categorias catequéticas tradicionais,
mas com a linguagem que ela sempre usou
para avaliar e cuidar da vida interior, pode ser muito
iluminante. Na tradição cristã, há a consciência
que o discurso sobre a Trindade nos obriga a trocar
as palavras por balbucios. Agostinho de Hipona,
por exemplo, demorou dezasseis anos a concluir o
seu Tratado “De Trinitate”, e ele próprio confessa,
com algum humor: “Ainda jovem, dei início à escrita
destes livros: só na velhice dei-os a público”.
A simplicidade de Dolto, recorda-nos, porém, os
benefícios de um modo didáctico de apresentar a
Trindade, o que passará, certamente, pelo testar
de novas linguagens. Para a reputada psicanalista,
o esquema trinitário está próximo da experiência
que todo o sujeito faz na organização do seu
mundo interior, na maturação de si. Ela
escreve: “Acho maravilhoso encontrar em
Deus a Trindade, essa relação de amor a
três. É algo que encontramos justamente
no desejo de viver de cada um de nós.
Assumimos aí o nosso papel no interior de
uma situação triangular: pai, mãe, fi lho.
[…]O facto de remontar à Trindade, ou
seja, aos três desejos divinos circulantes,
é extraordinário, pois foi assim que fomos
concebidos”.
Mas não só. Todos os “segundos nascimentos”,
sempre que a vida nos impele a um recomeço,
seja a partir de feridas e perdas, seja a partir de
encontros e esperanças, o “esquema trinitário” énos
imprescindível. “A nossa solidão só pode ser
curada quando expressa criativamente e quando
ajudada por alguma outra pessoa, que cria assim
uma situação triangular. Somos dois, conversamos:
o terceiro é a palavra. A palavra, que vem sempre
de outro, prova que somos três”.

In Página 1, RR, 6.11.2008

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