Wednesday, January 23, 2008

“Obrigado aos ’sábios’ de Roma”

… assim se intitula a coluna de hoje do históriador Rui Ramos, no Público.
Começa por agradecer ao grupo de docentes que levou ao cancelamento da visita do papa à Universidade “La Sapienza” de Roma. “No fim - observa - deram-nos a todos um pretexto para rever matéria sobre teoria e história da tolerância. (…) Talvez os “sábios” tenham aprendido alguma coisa e não nos proporcionem tão cedo outra oportunidade”.
“Parece que há gente, na Europa, a quem as religiões voltaram a meter medo. Depois do 11 de Setembro, a religião tomou o lugar que o nacionalismo tinha no tempo da guerra da Jugoslávia. Não havia então semana sem mais um livro a denunciar o perigo do nacionalismo, a desconstruir o seu insidioso apelo, e a examinar as suas sinistras raízes. Agora, é a vez da fé em Deus. Subitamente, vemos andar novamente por aí as velhas casacas e chapéus de coco do anticlericalismo. Acontece que, em vez de marcharem contra o jihadistas, ei-los a avançar contra as igrejas cristãs, e especialmente contra a católica. Enganaram-se de século? É por hábito? Ou dá-lhes mais jeito mostrar contra o Papa a coragem que lhes falta perante os jihadistas? Pois: morrer pelas ideias, mas de morte lenta.
Sim, na Europa, até ao século XIX, as igrejas de Estado resistiram ao pluralismo e à sua expressão. Mas a intolerância e a perseguição que milhões de europeus sofreram nos últimos duzentos anos não se ficaram a dever às religiões tradicionais, mas às modernas ideologias laicas. Os deuses dos que não acreditam em Deus foram sempre os mais sedentos. Em nome do Ente Supremo, da ciência ou do racismo pagão, republicanos jacobinos, marxistas-leninistas e fascistas “moralizaram”, proibiram e abasteceram largamente cemitérios e valas comuns. Os que prezam a liberdade de “errar” (e não apenas a de pensar “correctamente”) têm uma dívida para com quem criticou os velhos dogmas, como Voltaire, mas também para com quem resistiu aos novos, como João Paulo II. Neste mundo, a liberdade de pensamento não tem pais exclusivos.
O fundamentalismo laicista trata toda a convicção religiosa como o vestígio absurdo de uma idade arcaica, intolerável fora do espaço privado. Mas a fé não é fácil, não é uma opção primitiva nem simplesmente um preconceito. Ou antes: pode ser tudo isso, mas pode também corresponder à mais forte exigência intelectual e à disponibilidade para enfrentar profundamente as mais difíceis de todas as dúvidas. Exactamente, aliás, como o ateísmo: há quem o viva como um dogma beato, muito contente consigo próprio, ou quem o tenha adoptado como a forma mais conveniente de não pensar. Muitos são hoje ateus pelas mesmas razões por que teriam sido beatos no século XVII. E se mandam calar Bento XVI é porque, há quatro séculos, teriam mandado calar Galileu.

As campanhas contra a religião como um óbice à concórdia e à modernidade erram frequentemente de alvo. A Irlanda e a Palestina são confrontos de nacionalismos com origens seculares. O jihadismo, como argumentou John Gray, deve tanto ou mais às ideologias laicas europeias do que à tradição islâmica. E na última década, partidos de inspiração religiosa contribuíram muito mais para a modernização e liberdade da Índia e da Turquia do que os seus adversários laicos. Nos EUA, a religião pertence ao espaço público, sem que o Estado deixe de continuar separado de qualquer igreja.
Hoje em dia, é nos crentes que certos princípios fundamentais para a nossa liberdade encontram a voz mais desassombrada. Por exemplo, a ideia da dignidade e da autonomia da pessoa como limite para experiências políticas e sociais. Numa cultura intoxicada pela hubris da ciência e das ideologias modernas, certas religiões conservaram, melhor do que outros sistemas, a consciência e o escrúpulo dos limites. O mesmo se poderia dizer da questão da verdade, que a ciência pós-moderna negou, sem se importar de reduzir o debate intelectual ao choque animalesco de subjectividades.
Não, não é preciso fé para perceber que das religiões reveladas (e doutras tradições de iniciação espiritual) depende largamente a infra-estrutura de convicções e sentimentos que sustenta a nossa vida. O seu silenciamento no espaço público não seria um ganho, mas uma perda. No dia em que não pudermos ouvir Bento XVI, seremos mais obscurantistas e menos livres. Obrigado aos “sábios” de Roma por nos terem dado ocasião para lembrar isto”. 

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Tuesday, January 22, 2008

O abanão do Espírito, que nos falta

Há quem entenda que, para ser sinal da novidade do Evangelho de Jesus nas nossas sociedades, o problema maior da Igreja é de linguagem. Falar num registo que as mentalidades laicas e seculares entendam seria um dos desafios maiores da comunidade eclesial. Será?, pergunto eu.
Começo por contar um pequeno episódio de que fui testemunha, há uns anos atrás. No intervalo de uma reunião de âmbito diocesano, um padre e professor de Moral e Religião Católica lamentava-se nos seguintes termos:
- “Eu já não sei o que hei-de fazer mais com os adolescentes que tenho como alunos. Esforço-me ao máximo por traduzir a mensagem cristã de modo a ser interpelativo para eles, mas a sensação que tenho é que eles não me ouvem, a mensagem não passa. É como se batesse numa parede”.
Alguém que estava presente e a seguir atentamente o desabafo inquiriu, meio a medo:
- “E será que tu ouves a mensagem desses adolescentes? Será que ela passa deles para ti?” O padre ficou , como se diz na esgrima, “touché” e reconheceu, ali mesmo, que nunca lhe ocorrera pôr o problema desse modo. E a conversa lá seguiu o seu rumo. Tenho para mim que no conteúdo deste episódio reside um dos desafios mais prementes e decisivos com que hoje a Igreja se confronta: escutar e reconhecer.
Se Jesus ressuscitou, essa é a boa notícia que aqueles que acreditam têm para testemunhar e anunciar. Mas, ao mesmo tempo, como foi dito às mulheres que encontraram o seu túmulo vazio, Ele precederá os seus discípulos na Galileia (Mt 28,5-7). Isto é, os sinais da Ressurreição não somos nós apenas que os levamos aos outros que o não conhecem. Acreditamos que o Espírito de Deus opera para lá dos nossos horizontes e das nossas capacidades e que os frutos dessa acção nos interpelam e animam. Para tal, torna-se, porém, imprescindível escutá-lo, deixar-se surpreender, largar a auto-suficiência de quem se toma por dono da verdade e que olha os outros como seres deficitários até aderirem à nossa própria verdade.
O tipo de comunicação que predomina na cultura eclesiástica filia-se num modelo unidireccional e transferencial – de falar para os outros, dizer-lhes o que devem fazer – e é pobre do ponto de vista da atitude de reciprocidade e da interactividade, que coloque todos como caminhantes da mesma estrada e da mesma busca.
Quando somos confrontados com o repto de pensar os rumos a trilhar pela Igreja Católica em Portugal, esta atitude de escuta e de partilha, de humildade e de interrogação parece-me essencial.
É claro que desta atitude também deve resultar uma linguagem mais inteligível, tanto no conteúdo como na forma. É difícil encontrar um hierarca que fale como o comum dos mortais: que evite as frases feitas e a entoação afectada e que saiba, no exercício da sua função, participar de uma conversa tu-cá-tu-lá. Que argumente e que abra espaço para que o que diz seja argumentado e não deixe a impressão de viver noutro planeta. A humildade e escuta de que falo não é timidez ou jogo à defesa: é olhar os outros como iguais. Eu não sinto que tal aconteça muito, nos tempos que correm.
Mas isso acaba por não ser o essencial. Parece-me que os caminhos a seguir, no futuro, terão de passar, no seio da Igreja, por um reconhecimento cabal e inequívoco da dignidade dos homens e das mulheres. E meto aqui os homens porque a secundarização do papel da mulher, nomeadamente no que ao ministério sacerdotal diz respeito, constitui também um agravo à dignidade deles. Com as mudanças que ocorreram na sociedade no último século, o exemplo que a Igreja dá, nesta matéria, é, a meu ver, um contra-testemunho fatal.
O mesmo se diga relativamente à disciplina do celibato que é uma instituição certamente meritória e justificável, mas que não pode ser imposta, mas antes proposta e livre e responsavelmente assumida por quem para tal se sentir vocacionado. De resto, as normas sobre o celibato e, correlatamente, sobre a sexualidade, bem como a inflexibilidade doutrinal nestas matérias, não contribuem para tornar a igreja um sinal da alegria e disponibilidade evangélicas.
Entendo que afirmar isto não equivale a negar à Igreja o direito e o dever de apelar à exigência e à responsabilidade de cada pessoa e ao confronto com os valores do Evangelho. Mas ocorre perguntar se é preferível conquistar espaço para dialogar com as pessoas que vivem as suas situações e problemas próprios, frequentemente sem ninguém com quem trocar experiências, ou ficar a ‘falar sozinho’.
O envolvimento das pessoas e dos serviços da Igreja com todos, mas especialmente com os que mais carecidos estão de carinho, de pão e de justiça precisa de ter um reverso. Esse reverso é uma vida litúrgica e celebrativa cuidada e de qualidade, que constitua, para os frequentadores, habituais ou esporádicos, um espaço apelativo de encontro consigo mesmo e com Deus. Uma celebração burocrática e rotineira é uma celebração degrada e degradante e isso é uma negação nos termos. Se é celebração, não pode ser burocrática e fastidiosa. E a verdade é que, hoje em dia, a estética (designadamente musical) das nossas celebrações e dos espaços onde elas decorrem chega a ficar aquém do elementar bom gosto, para não falar do bom senso. Isto apesar do grande esforço que muitos fazem para que as coisas sejam de outro modo.
Abordar estes assuntos (e em outros que o espaço aqui não permite) é já de si problemático, visto que alguns entendem que debater e defender que estes e outros pontos devem integrar uma agenda de reflexão entre os cristãos constitui já por si uma falta grave. Consideram que a enunciação dos problemas fora do quadro de conversas reservadas representa um enfraquecimento da comunidade eclesial. Outros não o fazem em público por medo ou por táctica, receando os incómodos e as consequências. E enquanto lamentam a crise (de frequência dos sacramentos, de vocações…), vão preferindo que a situação se deteriore.
Ora é disto que é necessário arrepiar caminho. Não adianta que, na sequência da visita “ad limina”, se decidam meia dúzia de orientações pastorais, sem cuidar desta deterioração larvar, que mina, à partida, eventuais orientações que venham a ser definidas.
Ao contrário de alguns radicalismos que sobre estas matérias existem no espaço católico, não creio que o problema seja a hierarquia da Igreja. Noto, também entre os seus membros, inquietação e vontade de procura de novos caminhos e tenho a sensação de que, em diversas áreas, a liderança é como uma locomotiva que quer puxar uma geringonça envelhecida. E compreendo que a mudança, ainda que desejada, se não possa fazer sem muito tacto, procurando que o resultado represente um avanço e não um recuo. Somos nós todos, bispos, padres, leigos, religiosos, que precisamos de nos deixar abanar pelo Espírito de Deus, para descobrirmos o que significa, hoje e aqui, ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5, 13-15). O vento, como a poesia, sopra onde quer. Mesmo dos horizontes mais (in)suspeitos. Questão é saber e querer acolhê-lo e escutá-lo.

Manuel Pinto

Uma parte deste texto foi publicada na revista Fátima Missionária, de Janeiro de 2008. Por razões de espaço, o texto não pôde ser incluído integralmente.
(Foto: The Village Chapel /Bald Head
Island, NC)

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Monday, January 21, 2008

Gestos de intolerância

Gestos de intolerância levaram, na semana finda, o papa Bento XVI a desmarcar uma deslocação à Universidade La Sapienza, de Roma, que tinha agendada a convite daquela instituição. Os docentes da Faculdade de Física e um grupo de estudantes manifestaram-se contra a ida do papa, argumentando com as palavras de Bento XVI, em 1990, a propósito do processo de Galileu e das concepções científicas subjacentes a esse processo.

Ficam aqui alguns documentos sobre este caso:
- Alocução de Bento XVI em La Sapienza
Prevista para a cerimónia solene da abertura do ano lectivo, na qual o papa deveria ter estado presente, foi enviada ao reitor para ser lida na ocasião (a tradução portuguesa foi publicada pela agência Zenit).
- As palavras do então cardeal Ratzinger sobre Galileu em 1990

* * *

Alocução de Bento XVI na Universidade  «La Sapienza”, em Roma.

Magnífico Reitor,
Autoridades políticas e civis,
Ilustres docentes e pessoal técnico-administrativo,
Caros jovens estudantes!

Para mim é motivo de profunda alegria encontrar a comunidade de “La Sapienza”, universidade de Roma, por ocasião da inauguração do ano acadêmico. Desde há séculos, esta Universidade marca o caminho e a vida da cidade de Roma, fazendo frutificar as melhores energias intelectuais em todo campo do saber. Seja no tempo em que, após a fundação querida pelo Papa Bonifácio VIII, a instituição estava em direta dependência da autoridade eclesiástica, seja após isso, quanto o Studium Urbis se desenvolveu como instituição do Estado italiano, a vossa comunidade acadêmica conservou um grande nível científico e cultural, que a coloca entre as mais prestigiosas universidades do mundo.

Desde sempre a Igreja de Roma olha com simpatia e admiração para este centro universitário, reconhecendo o seu esforço, tantas vezes árduo e trabalhoso, da pesquisa e da formação das novas gerações. Não faltaram nestes últimos anos momentos significativos de colaboração e de diálogo. Gostaria de lembrar, em particular, o Encontro Mundial dos Reitores por ocasião do Jubileu das Universidades, que viu a vossa comunidade encarregar-se não só da acolhida e da organização, mas principalmente da proposta profética e complexa da elaboração de “um novo humanismo para o terceiro milênio”.

Desejo muito, nesta circunstância, expressar minha gratidão pelo convite que me foi dirigido de vir à vossa universidade para vos dar uma aula. Diante desta perspectiva, fiz-me antes de mais nada uma pergunta: o que pode e deve dizer um Papa numa ocasião como esta? Na minha aula em Ratisbona falei, sim, como Papa, mas principalmente falei no meu papel de ex-professor daquela minha universidade, procurando entrelaçar recordações e atualidade. Na universidade “La Sapienza”, a antiga universidade de Roma, porém, fui convidado justamente como Bispo de Roma, e por isso devo falar como tal. Certamente, “La Sapienza” foi no passado a universidade do Papa, mas hoje é uma universidade laica, com aquela autonomia que, com base em seu próprio conceito fundacional, sempre fez parte da natureza de universidade, a qual deve estar ligada exclusivamente à autoridade da verdade. É na sua liberdade de autoridades políticas e eclesiásticas que a universidade encontra a sua função particular, justamente em vista da sociedade moderna, que precisa de uma instituição desse tipo.

Retomo minha pergunta inicial: o que o Papa pode e deve dizer no encontro com a universidade de sua cidade? Refletindo sobre essa pergunta, pareceu-me que ela deveria incluir outras duas, cujo esclarecimento poderia levar por si mesmo à resposta. Com efeito, é preciso perguntar: qual é a natureza e a missão do papado? E ainda: qual é a natureza e a missão da universidade? Não quero passar aqui convosco em longas digressões sobre a natureza do Papado. Bastará um breve comentário. O Papa é, antes de mais nada, Bispo de Roma e, como tal, em virtude da sucessão do Apóstolo Pedro, tem uma responsabilidade episcopal que diz respeito à toda a Igreja Católica. A palavra “bispo” – episkopos –, que no seu significado imediato quer dizer “vigilante”, já no Novo Testamento se fundiu com o conceito bíblico de pastor: ele é aquele que, desde um ponto de observação mais elevado, olha o conjunto, velando pelo justo caminho e pela coesão do conjunto. Neste sentido, esta designação do seu papel orienta o olhar principalmente ao interior da comunidade dos fiéis. O Bispo – o Pastor – é o homem que cuida desta comunidade; aquele que a conserva unida, mantendo-a no caminho rumo a Deus, indicada segundo a fé cristã por Jesus – e não apenas indicada: Ele mesmo é para nós o caminho. Mas esta comunidade da qual o Bispo cuida – pequena ou grande – vive no mundo; suas condições, seu caminho, seu exemplo e sua palavra influem inevitavelmente sobre toda a comunidade humana em seu conjunto. Quanto maior ela for, mais as suas boas condições ou a sua eventual decadência repercutirão no conjunto da humanidade. Vemos hoje, com muita clareza, como as condições das religiões e como a situação da Igreja – suas crises e suas renovações – agem sobre a humanidade como um todo. Assim, o Papa, justamente como Pastor da sua comunidade, foi se tornando cada vez mais também uma voz da razão ética da humanidade.

Aqui, porém, surge logo a objeção, segundo a qual o Papa, de fato, não falaria realmente com base na razão ética, mas tiraria suas afirmações da fé, e por isso não poderia pretender uma validade das mesmas para os que não compartilham esta fé. Vamos voltar ainda sobre este tema, porque aqui se coloca a questão absolutamente fundamental: o que é a razão? Como pode uma afirmação – sobretudo uma norma moral – demonstrar-se como “razoável”? Neste ponto, eu gostaria por um momento de comentar brevemente que John Rawls, mesmo negando a doutrinas religiosas em geral o caráter de razão “pública”, vê no entanto na sua razão “não-pública” ao menos uma razão que não poderia, em nome de uma racionalidade secularisticamente endurecida, ser simplesmente desconhecida por aqueles que a apóiam. Ele vê um critério desta razoabilidade, entre outros fatores, no fato de que essas doutrinas derivam de uma tradição responsável e motivada, na qual, ao longo de muito tempo, foram desenvolvidas argumentações boas o suficiente para apoiar as respectivas doutrinas. Nesta afirmação, parece-me importante o reconhecimento de que a experiência e a demonstração no decurso de gerações, o fundo histórico da sabedoria humana, são também um sinal da sua razoabilidade e do seu significado perdurável. Frente a uma razão a-histórica que se procura autoconstruir apenas numa racionalidade a-histórica, a sabedoria da humanidade como tal – a sabedoria das grandes tradições religiosas – é de valorizar-se como realidade que não se pode impunemente jogar no cesto de lixo da história das idéias.

Voltemos à pergunta inicial. O Papa fala como representante de uma comunidade de fé, na qual, durante os séculos de sua existência, foi amadurecendo uma determinada sabedoria da vida; fala como representante de uma comunidade que custodia em si um tesouro de conhecimento e de experiências éticas, que vem a ser importante para toda a humanidade: neste sentido, fala como representante de uma razão ética.

Mas agora é preciso perguntar: e o que é a universidade? Qual é o seu papel? É uma pergunta gigantesca, à qual, mais uma vez, posso procurar responder somente num estilo quase telegráfico, com algumas observações. Penso que é possível dizer que a verdadeira, íntima origem da universidade esteja na fome de conhecimento que é própria do homem. Ele quer saber o que é tudo o que o circunda. Neste sentido, podemos ver no interrogar-se de Sócrates o impulso do qual nasceu a universidade ocidental. Penso, por exemplo – apenas para mencionar um texto – na disputa com Eutífron, que, diante de Sócrates, defende a religião mítica e sua devoção. A isso Sócrates contrapõe a pergunta: “Tu acreditas que entre os deuses existam realmente uma guerra mútua e terríveis inimizades e combates… Devemos, Eutífron, realmente dizer que tudo isso é verdade?” (6 b – c). Nesta pergunta, aparentemente pouco devota – que, porém, em Sócrates derivava de uma religiosidade mais profunda e mais pura, da busca do Deus realmente divino –, os cristãos dos primeiros séculos reconheceram-se a si mesmos e o próprio caminho. Acolheram a sua fé não num modo positivista, ou como a saída para responder a desejos insatisfeitos; eles a entenderam como o fim da névoa da religião mitológica para dar lugar à descoberta daquele Deus que é Razão criadora e ao mesmo tempo Razão-Amor. Por isso, o questionamento sobre o Deus supremo, assim como sobre a verdadeira natureza e o verdadeiro sentido do ser humano não era para eles uma forma problemática de falta de religiosidade, mas fazia parte da essência do seu modo de ser religiosos. Não precisavam, portanto, dissolver ou deixar de lado o questionamento socrático, mas podiam, ou melhor, deviam acolhê-lo e reconhecer como parte da própria identidade a busca afanosa da razão, para chegar ao conhecimento da verdade por inteiro. Deste modo, a universidade podia, até mesmo devia, nascer no âmbito da fé cristã, no mundo cristão.

É preciso dar mais um passo. O homem quer conhecer – quer verdade. Verdade é, primeiramente, algo ligado ao ver, ao compreender, à theoria, como é chamada pela razão grega. Mas a verdade nunca é somente teórica. Agostinho, ao fazer a correlação entre as Bem-Aventuranças no Sermão da Montanha e os dons do Espírito mencionados em Isaías 11, afirmou uma reciprocidade entre a “scientia” e a “tristitia”: o mero saber, diz ele, nos deixa tristes. E de fato – quem vê e apreende somente tudo o que acontece no mundo, termina por ficar triste. Mas verdade significa mais do que saber: o conhecimento da verdade tem como meta o conhecimento do bem. Este é também o sentido do questionamento socrático: Qual é o bem que nos torna verdadeiros? A verdade nos torna bons, e a bondade é verdadeira: é este o otimismo que vive na fé cristã, dado que a ela foi concedida a visão do Logos, da Razão criadora que, na encarnação de Deus, revelou-se ao mesmo tempo como o Bem, como a própria Bondade.

Na teologia medieval houve uma disputa profunda sobre a relação entre teoria e práxis, sobre a justa relação entre conhecer e agir – uma disputa que não vamos desenvolver aqui. De fato, a universidade medieval, com as suas quatro faculdades, apresenta esta correlação. Comecemos com a faculdade que, de acordo com a compreensão da época, era a quarta, a de medicina. Mesmo sendo considerada mais como uma “arte” que como uma ciência, sua inserção no cosmo da “universitas” significava claramente que era colocada no âmbito da racionalidade, que a arte de curar estava sob a direção da razão e era subtraída ao âmbito da magia. Curar é uma tarefa que cada vez mais requer a simples razão, mas justamente por isso precisa da conexão entre saber e poder, precisa pertencer à esfera da ratio. Surge inevitavelmente a questão da relação entre prática e teoria, entre conhecimento e agir na faculdade de Direito. Trata-se de dar uma justa forma à liberdade humana que é sempre liberdade na comunhão recíproca: o direito é o pressuposto da liberdade, não o seu antagonista. Mas logo vem à tona a pergunta: como identificar os critérios que tornam possível uma liberdade vivida em conjunto e servem ao “ser bom” do homem? A esta altura um salto no presente se faz imperioso: é a questão de como poder encontrar uma normativa jurídica que constitua um ordenamento da liberdade, da dignidade humana e dos direitos do homem. É a questão que nos ocupa hoje nos processos democráticos de formação da opinião, e que ao mesmo tempo nos angustia como questão para o futuro da humanidade. Jürgen Habermas exprime, na minha opinião, um vasto consenso do pensamento atual, quando diz que a legitimidade de uma constituição, como pressuposto da legalidade, derivaria de duas fontes: da participação política igualitária de todos os cidadãos e da forma razoável na qual os contrastes políticos são resolvidos. Sobre essa “forma razoável”, ele faz notar que ela não pode ser apenas uma luta por maiorias aritméticas; deve ser caracterizada como um “processo de argumentação sensível à verdade” (wahrheitssensibles Argumentationsverfahren). A expressão é ótima, mas é algo muito difícil de transformar em práxis política. Os representantes daquele “processo de argumentação” público são – bem o sabemos – prevalentemente os partidos, como responsáveis pela formação da vontade política. De fato, eles terão inelutavelmente como meta principal a consecução de maiorias, e por isso se preocuparão quase inevitavelmente com os interesses que prometem satisfazer; estes interesses, contudo, são com muita freqüência particulares, e não servem realmente ao todo. A sensibilidade pela verdade é mais uma vez sufocada sob a sensibilidade pelos interesses. Acho significativo o fato de que Habermas fale da sensibilidade pela verdade como elemento necessário no processo de argumentação política, reinserindo assim o conceito de verdade no debate filosófico e político.

Mas então se torna inevitável a pergunta de Pilatos: o que é a verdade? E como pode ser reconhecida? Se a isso se responde apelando à “razão pública”, como faz Rawls, segue necessariamente outra vez a pergunta: O que é razoável? Como uma razão se demonstra como razão verdadeira? Em todo caso se torna evidente que, na busca do direito à liberdade, à verdade da justa convivência, devem ser ouvidas outras instâncias além dos partidos e grupos de interesse, sem com isso querer minimamente contestar a sua importância. Voltamos assim à estrutura da universidade medieval. Ao lado do Direito estavam as faculdades de Filosofia e Teologia, às quais era confiada a pesquisa sobre o ser humano em sua totalidade e, com isso, a missão de manter desperta a sensibilidade pela verdade. Poderíamos até dizer que este é o sentido permanente e verdadeiro de ambas as faculdades: ser guardiãs da sensibilidade pela verdade, não permitir que o homem seja desvinculado da busca da verdade. Mas como elas podem cumprir essa tarefa? Esta é uma pergunta pela qual é preciso trabalhar sempre de novo, nunca está definitivamente resolvida. Sendo assim, neste ponto nem eu posso oferecer propriamente uma resposta, apenas um convite, de prosseguir no caminho com esta pergunta – no caminho com os grandes que, ao longo de toda a história, lutaram e procuraram, com suas respostas e com seu interesse pela verdade, que continuamente nos faz ir muito além de toda resposta particular.

Teologia e filosofia formam nisso uma peculiar dupla de gêmeos, na qual nenhuma das duas pode ser totalmente descolada da outra e, no entanto, cada uma deve conservar a própria tarefa e a própria identidade. É mérito histórico de S. Tomás de Aquino – frente à resposta diferente dos Padres, causada por um outro contexto histórico – de ter evidenciado a autonomia da filosofia e, com ela, o direito e a responsabilidade peculiares da razão que se interroga com base em suas próprias forças. Diferenciando-se das filosofias neoplatônicas, nas quais religião e filosofia estavam inseparavelmente entrelaçadas, os Padres tinham apresentado a fé cristã como a verdadeira filosofia, salientando também que esta fé corresponde às exigências da razão em busca da verdade; que a fé é o “sim” à verdade, comparada com as religiões míticas, que tinham se tornado simples tradições. Mas depois, no momento em que a universidade nasceu, não existiam mais no Ocidente aquelas religiões, somente o cristianismo, e assim era preciso salientar de uma nova forma a responsabilidade própria da razão, que não é absorvida pela fé. Tomás se encontrou num momento privilegiado: pela primeira vez, os escritos filosóficos de Aristóteles eram acessíveis na sua integralidade; estavam presentes as filosofias hebraica e árabe, como apropriações e desenvolvimentos específicos da filosofia grega. Deste modo, o cristianismo, num novo diálogo com a razão dos outros, teve de lutar pela própria razoabilidade. A faculdade de Filosofia, que até aquele momento era chamada “faculdade dos artistas”, por ser apenas uma propedêutica à teologia, torna-se agora uma Faculdade propriamente dita, um parceiro autônomo da teologia e da fé refletida nela. Não podemos nos deter aqui no interessante confronto que derivou disso. Eu diria que a idéia de S. Tomás sobre a relação entre filosofia e teologia poderia ser expressa na fórmula tirada do Concílio de Calcedônia para a cristologia: filosofia e teologia devem relacionar-se “sem confusão e sem separação”. “Sem confusão” quer dizer que cada uma das duas deve conservar a própria identidade. A filosofia deve permanecer sendo realmente uma pesquisa da razão na própria liberdade e na própria responsabilidade; deve ver os seus limites e também, na mesma medida, a sua grandeza e vastidão. A teologia deve continuar a alimentar-se de um tesouro de conhecimento que ela mesma não inventou, que sempre a supera e que, não sendo nunca totalmente esgotável pela reflexão, justamente por isso sempre provoca de novo o pensamento. Junto ao “sem confusão” é importante também o “sem separação”: a filosofia não recomeça sempre do ponto zero do sujeito pensante de modo isolado, mas vive no grande diálogo da sabedoria histórica, que ela – criticamente e, ao mesmo tempo, docilmente – sempre acolhe e desenvolve de novo; mas também não deve se fechar diante do que as religiões e, em particular, a fé cristã, receberam e doaram à humanidade como indicação do caminho. Várias coisas ditas pelos teólogos no decorrer da história, ou até mesmo praticadas pelas autoridades eclesiais, foram demonstradas falsas pela história e hoje nos envergonham. Mas, ao mesmo tempo, é verdade que a história dos santos, a história do humanismo crescido na base da fé cristã, demonstra a verdade desta fé no seu núcleo essencial, tornando-a assim também uma instância para a razão pública. É verdade, muito do que a teologia e a fé dizem só pode ser feito no interior da fé, e portanto não pode ser apresentado como exigência para aqueles para os quais a fé permanece inacessível. Mas também é verdade que a mensagem da fé cristã não é nunca uma mera “comprehensive religious doctrine”, no entender de Rawls, e sim uma força purificadora para a própria razão, que a ajuda a ser mais ela mesma. A mensagem cristã, com base em sua origem, deveria ser sempre um encorajamento à verdade e, por isso mesmo, uma força contra a pressão do poder e dos interesses.

Pois bem, até agora só falei da universidade medieval, procurando porém deixar transparecer a natureza permanente da universidade e da sua missão. Nos tempos modernos descortinaram-se novas dimensões do saber, que na universidade são valorizadas principalmente em dois grandes âmbitos: em primeiro lugar, nas ciências naturais, que se desenvolveram com base na conexão entre a experimentação e a pressuposta racionalidade da matéria; em segundo lugar, nas ciências históricas e humanísticas, nas quais o homem, perscrutando o espelho de sua história e iluminando as dimensões de sua natureza, procura compreender melhor a si mesmo. Neste desenvolvimento, foi aberta à humanidade não somente uma medida imensa de saber e de poder; cresceram também o conhecimento e o reconhecimento dos direitos e da dignidade do homem, e por isso só podemos estar agradecidos. Mas o caminho do homem nunca pode dizer-se já completado, e o perigo de cair na desumanidade nunca está simplesmente esconjurado: podemos vê-lo – e como! – no panorama da história atual. O perigo do mundo ocidental – para falar somente dele – é que hoje o homem, justamente em consideração da grandeza do seu saber e poder, se renda diante da questão da verdade. E isso significa ao mesmo tempo que a razão, no final, sucumbe ante as pressões dos interesses e do atrativo da utilidade, obrigada a reconhecê-la como critério último. Isso, do ponto de vista da estrutura da universidade, é o mesmo que dizer que há o perigo que a filosofia, não se sentindo mais capaz da sua verdadeira tarefa, se degrade em positivismo; que a teologia, com sua mensagem à razão, fique confinada na esfera privada de um grupo mais ou menos grande. Mas se a razão – ciosa da sua suposta pureza – fica surda à grande mensagem que vem da fé cristã e da sua sabedoria, torna-se árida como uma árvore cujas raízes já não tocam as águas que lhe dão vida. Perde a coragem para a verdade e deste modo não se torna maior, mas pequena. Aplicando isso à nossa cultura européia, significa: se ela pretende apenas se autoconstruir baseada na espiral das próprias argumentações e no que de momento a convence e – ciosa de sua laicidade – se desvincula das raízes pelas quais vive, então não se torna mais racional e mais pura, mas se decompõe e se fragmenta.

Com isso volto ao ponto de partida. O que tem a fazer ou a dizer o Papa na universidade? Certamente, não deve procurar impor aos outros de modo autoritário a fé, que só pode ser doada em liberdade. Indo além do seu ministério de Pastor da Igreja e com base na natureza intrínseca deste ministério pastoral, é tarefa sua a de manter desperta a sensibilidade pela verdade; convidar sempre de novo a razão a pôr-se em busca do que é verdadeiro, do bem, de Deus, e, neste caminho, solicitar que ela aproveite as luzes tão úteis surgidas ao longo da história da fé cristã e a perceber assim Jesus Cristo como a Luz que ilumina a história e ajuda e encontrar o caminho para o futuro.

Do Vaticano, 17 de janeiro de 2008

BENEDICTUS XVI

[Tradução: Pe. Celso Nogueira, L.C. Revisão: Aline Banchieri]

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Monday, January 14, 2008

Escravatura do século XXI

O tráfico de pessoas «representa uma das situações mais repugnantes de exploração da dignidade humana e é uma forma de escravatura do século XXI», considerou em Fátima o alto-comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, Rui Marques.
Falando em Fátima, numa iniciativa da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, Rui Marques reconheceu as dificuldades do sistema judicial em condenar os responsáveis das redes de tráfico, que se escudam em mecanismos legais para protelar as decisões. Defendeu, por outro lado, que os atentados contra a dignidade da pessoa devem ser classificados como os «crimes mais graves» do regime jurídico, penalizando aqueles que atingem directamente os indivíduos, seja a exploração sexual, laboral ou atentados à integridade física.
Rui Marques afirmou que é «dramática esta experiência de ser escravo desta rede que a explora do ponto de vista sexual ou laboral ou mesmo tráfico de órgãos».
Para o alto-comissário, o trabalho das instituições da igreja é «insubstituível», porque elas são, em muitos casos, os «verdadeiros atores intervenientes no terreno».
(Com base na agência ZENIT)
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Sunday, January 13, 2008

Sobre a confissão

Frei Bento Domingues escreve, no Público, sobre “O embaraço da confissão“, mais um assunto em que parece ir uma grande distância entre o preceituado e o praticado. Algumas notas do texto do autor:

“O mal-estar vem de longe, reforçou-se com o Vaticano II e há quem tema e quem deseje que a confissão desapareça de vez. Entre nós, foi D. António Ferreira Gomes que, nas suas Cartas ao Papa, escreveu o que muitos pensavam e não diziam: “Factos são factos e o facto é que hoje, em grande escala, pequenos e grandes fogem do confessionário, sendo essa a maior causa da “descrença” de muitos que intimamente aceitam Cristo e o Evangelho.” Segundo o historiador J. Delumeau (1), todas as cronologias destinadas aos alunos do ensino secundário deveriam dar um grande relevo à decisão do IV Concílio de Latrão (1215) que tornou a confissão anual obrigatória. Esta norma modificou a vida religiosa e psicológica dos homens e das mulheres do Ocidente e pesou espantosamente nas mentalidades, até à Reforma nos países protestantes e até ao século XX nos que permaneceram católicos. Como observa o monge beneditino Philippe Rouillard, professor de Teologia dos Sacramentos e da Liturgia, em muitas igrejas, os confessionários já só têm um valor de vestígio, se não foram comprados por antiquários para os transformar noutra coisa. V. Gómez Mier descreveu um desejado Adiós al Confesionario. Sem se poder generalizar, a verdade é que, no Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em “ouvir confissões”, são cada vez menos os fiéis que pedem para “se confessar” e a maior parte dos que participam na missa de domingo avança para a Comunhão sem recorrer a esse ritual.”

“(…) não estamos completamente às escuras acerca da história da confissão. Além de estudos parciais, da “História” de C. Vogel sobre o pecador e a penitência na Igreja antiga e na Idade Média e da obra muito conhecida de J. Delumeau, um grupo de investigadores reuniu-se, durante 25 anos, para nos oferecer excelentes versões das “Práticas da confissão”, desde os Padres do Deserto (IV-V) até ao Vaticano II. Em face da contestação protestante, o Concílio de Trento (1545-1563) procurou fazer do sacramento da penitência o sustentáculo de toda a vida cristã. Se isto teve um grande êxito em muitos casos, acabou por minimizar a importância da Eucaristia e de alterar o seu verdadeiro sentido. A hostilidade que gerou, a partir do século XVIII, coincide com a afirmação progressiva dos direitos humanos e da autonomia da consciência, na qual ninguém pode mandar. No século XX, a Congregação dos Sacramentos decidiu em 1910, por decreto, a idade do “uso da razão” - por volta dos 7 anos - para aceder à Primeira Comunhão eucarística, precedida de confissão. As ameaças com as penas do inferno para quem não confessava os pecados mortais, incluindo, então, as crianças e os adolescentes, foi talvez um dos maiores desastres da pastoral da Igreja em toda a sua história. Não vale a pena perder muito tempo com esse detestável passado inquisitorial.

” As orientações na evangelização e na pastoral devem ter em conta a diversidade cultural, a promoção dos direitos humanos e o respeito pela consciência inviolável de cada um. No campo propriamente sacramental, é preciso, antes de mais, respeitar a sua hierarquia. Se a porta é o Baptismo, o mais importante dos sacramentos é a Eucaristia, que é também o grande sacramento da confissão dos pecados, da misericórdia e do perdão de Deus. Esta dimensão, iluminada pela proclamação da palavra do Evangelho, percorre toda a missa. Quando não se ajuda a perceber isto, arruina-se o que se pretende salvar com a “confissão auricular”. Certas práticas da confissão não foram apenas grandes crimes do ponto de vista cristão, foram também uma constante e infame desvalorização da Eucaristia como sacramento do perdão. A Igreja viveu cerca de 12 séculos sem a norma da confissão auricular e Santo Agostinho”.

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Saturday, January 5, 2008

Desigualdades

“Os presidentes das empresas portuguesas ganham cerca de 30 vezes mais que os trabalhadores por conta de outrem”, ou seja, ganham, em média 21.700 euros mês, contra cerca de 720 euros de salário médio dos trabalhadores. Os dados relativamente aos gestores acabam de ser divulgados pela consultora Mercer que mostra haver, mesmo a este nível, gestores que auferem 60, cem e até 300 vezes o ordenado médio dos trabalhadores das respectivas empresas, conforme mostrava a SIC no seu jornal da noite de sexta-feira, dia 4

Estes dados vêm de encontro a um ponto da mensagem de Ano Novo, que há dias dirigiu ao país o presidente da República, Cavaco Silva, quando observou:

Sem pôr em causa o princípio da valorização do mérito e a necessidade de captar os melhores talentos, interrogo-me sobre se os rendimentos auferidos por altos dirigentes de empresas não serão, muitas vezes, injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores.
Este ponto da mensagem presidencial mereceu da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) o comentário de que “a alta remuneração de um gestor não é necessariamente algo negativo”.
Estamos conversados, se é apenas isto que uma associação cristã tem a dizer neste contexto.

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Thursday, January 3, 2008

Uma “laicidade positiva”

“(…) Como doutrina e como prática, a laicidade radical que considera a religião como um factor de atraso e obscurantismo a banir do espaço público, e se possível da estratosfera, está de facto completamente ultrapassada, não só em França, mas onde quer que ela se manifeste. Existe apenas em cabeças dogmáticas que fizeram do laicismo e do anticlericalismo a sua própria religião. Na prática, quer os cidadãos, quer o poder político mantêm com as confissões religiosas uma relação natural e descontraída. Isto é uma realidade no mundo ocidental e também em Portugal, onde partidos políticos, comunicação social, ministros e Presidentes visitam igrejas, sinagogas, mesquitas e mantêm contactos com as lideranças religiosas quando tal é necessário.
A que se deve esta evolução, absolutamente impensável ainda há duas décadas? A uma maior religiosidade dos cidadãos e, em consequência, a um maior respeito pelas suas instituições? A resposta é, claramente, não! Paradoxalmente, e em particular no Ocidente europeu, o fenómeno religioso tem vindo a conquistar espaço na vida pública em proporção inversa à prática religiosa dos cidadãos. O lugar que hoje é dado à expressão pública das confissões religiosas é o resultado, em primeiro lugar, do apaziguamento do trauma da violência inaugural da separação Estado/Igreja; em segundo lugar, do reconhecimento de que num mundo de opressão política e corrupção moral os valores religiosos oferecem um universo moral alternativo às utopias ateístas e seculares. “Se não tiveres Deus”, afirma T.S. Eliot, “terás de te prostrar perante Hitler ou Estaline.” Certo ou errado, a verdade é que a religião tem sido frequentemente um fermento no combate às ditaduras políticas e militares: contra os regimes comunistas no Leste europeu, contra as próprias ditaduras militares seculares no mundo islâmico, onde as mesquitas são frequentemente, e com os excessos que se conhecem, o único centro de oposição política, ou mais recentemente na resistência dos monges birmaneses a um dos regimes mais opressivos do mundo. Digamos que no último quartel do século XX a história reabilitou a religião, com os seus lados positivos, mas também com os seus excessos brutais. “La revanche de Dieu”, como lhe chamou Gilles Kepell.
O terceiro elemento da visibilidade actual do fenómeno religioso é a diversidade religiosa e particularmente a presença maciça do islão na Europa. Contrariamente ao judaísmo, habituado a viver em diáspora durante milénios, conformando-se às leis dos países, segundo a máxima talmúdica “a lei do pais é a nossa lei”, o islão não tem experiência histórica da separação entre a vivência cívica e a religiosa. Assim, a presença islâmica é uma presença religiosa visível e culturalmente diversa que mexe com o espaço público e representa um desafio para uma Europa habituada a ver-se como um “clube cristão”. A questão que a diversidade religiosa coloca - e que é hoje absolutamente central - é como conviver harmoniosamente entre religiões diferentes e entre religiosos e ateus, respeitando e partilhando o espaço comum. É aqui que a questão da laicidade positiva, ou seja, uma visão liberal da laicidade, feita de negociação permanente e de equilíbrio das liberdades individuais e colectivas, pode dar uma resposta. Só ela permite a plena realização pessoal e cívica que para muitas pessoas passa pela prática de uma religião. Ao estimular uma prática religiosa tolerante e respeitadora das convicções alheias, a laicidade positiva é também um antídoto contra os fundamentalismos religiosos e laicos.(…)”

Esther Mucznik, A Desforra de Deus, Público, 3.1.2007
[Para ler/ouvir o discurso que motivou a coluna de Mucznik, clicar AQUI]

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