Sunday, April 13, 2008

Irmão David, de Taizé, em Portugal

Taizé continua a convocar-nos para o essencial da busca de Deus. E de um rosto de Deus mais transparente para os nossos contemporâneos. Sexta-feira, dia 11, na Igreja de São Nicolau, na Baixa de Lisboa, um encontro de oração e testemunho fez-nos reviver um pouco da intensa alegria que nos atravessou em Dezembro de 2004, quando acolhemos entre nós, na Grande Lisboa, uns 20 mil jovens de toda a Europa. E, sobretudo, desafiou-nos a um mais fiel seguimento de Jesus na nossa vida. A igreja encheu-se, aquecendo a noite fria de Lisboa, com largas centenas de jovens, crianças e adultos. O irmão David, de Taizé, o único português que integra a comunidade, iniciou com quem esteve em São Nicolau uma pequena peregrinação de confiança que irá ainda à Covilhã, Guarda, Viseu, Pombal, Aveiro, vários lugares da Madeira, Porto, Alcanhões e Entroncamento (no final, fica o programa completo).

No encontro, a oração (primeiro, mais curta, como forma de acolher quem ia chegando; no final, um tempo mais prolongado) foi uma experiência forte. Numa recente audiência com o irmão Aloïs, prior de Taizé, o Papa disse que Taizé nos propõe um caminho de oração, música e silêncio, como forma de encontrar o essencial: Deus.

Pelo meio, além de um pequeno convívio no exterior da igreja com uma sopa para aquecer, houve um tempo de testemunhos e partilha.

O casal Rita e José Maria Lopes trouxe-nos a sua experiência de ter vivido por um ano em Moçambique. A Rita e o José Maria têm três filhos e contaram como Jesus é um incentivo a amar (no casamento), a criar (os filhos e talvez mais uma criança adoptada), a partir para a missão que concretizaram em Moçambique, a servir a comunidade e a acolher o diferente (na hipótese da adopção).

Joana Rigato é professora de filosofia e integra actualmente a Comissão Nacional Justiça e Paz. Falou-nos das experiências que teve, com o marido, em países pobres, e do chamamento que sentiu a trabalhar com os mais jovens no nosso país, descobrindo caminhos de paz e de solidariedade. Foi comovente a história da aluna que, no regresso de Taizé, lhe segredou ao ouvido “a stôra quer mudar o mundo e eu também”.

O padre Tolentino Mendonça disse-nos que Deus tem muito sentido de humor e de amor, e mostrou-nos como viver no celibato é um caminho de seguimento de Jesus, que só se entende por amor, por vezes criticado por parecer incompleto. Mas “a incompletude é, no fundo, a condição quotidiana e universal da abertura e a escassez torna [os celibatários] enamorados do dom de Deus”.

Eu tentei expressar a fragilidade do seguimento de Jesus, movido pelo desejo de concretizar a bem-aventurança “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” e pelo desejo de que, como diz o Salmo (119, 172), “a minha língua proclame a tua palavra, porque todos os teus mandamentos são justos”. E falei do privilégio grande que é, na profissão de jornalista, poder conhecer pessoas de uma riqueza extraordinária. E também dos espantosos testemunhos e da história de que somos herdeiros: padres da Igreja como Santo Agostinho, místicos medievais como São Bento, revolucionários de Deus como Francisco de Assis ou António de Lisboa, os que assumiram rupturas necessárias como Lutero, os que ensaiaram caminhos de renovação como Inácio de Loiola ou António Vieira, os testemunhos de uma nova espera de Deus como Dietrich Bonhoeffer, Mahatma Gandhi, Luther King ou o irmão Roger, que para tantos de nós foi um sinal intenso da presença de Deus no meio de nós.

Durante todo este mês, esta possibilidade de irmos às fontes da fé através do modo de rezar que Taizé nos sugere, continua com a presença do irmão David em diversos lugares do país. É um modo de nos desafiarmos a rezar com a Bíblia, de nos deixarmos ser vasos de barro nas mãos de um Deus oleiro. E de nos desafiarmos ao seguimento de Jesus, como nos recorda o irmão Aloïs, de Taizé, na Carta a quem gostaria de seguir Cristo:

Procurar um futuro feliz implica fazer escolhas. Há pessoas que assumem opções corajosas para seguir Cristo na sua vida de família, na sociedade, num compromisso pelos outros.

Também há quem se interrogue: como seguir Cristo escolhendo o caminho do celibato? Eu gostaria muito de encorajar aqueles que se deparam com a questão de uma escolha para sempre…

Deus chama-te à liberdade. Não faz de ti um ser passivo. Pelo seu Espírito Santo, Deus habita em ti, mas não se substitui a ti. Pelo contrário, ele desperta energias insuspeitas…

Não estamos sozinhos a seguir Cristo. Somos levados por esse mistério de comunhão que é a Igreja. Nela, o nosso sim torna-se louvor.

A seguir, fica o calendário completo destes encontros com a presença do irmão David, depois de Lisboa.

António Marujo

14 de Abril – Covilhã

Igreja dos Jesuítas:
21:00 Ensaio de Cânticos (aberto a todos)
21:30 Tempo de reflexão e partilha (Salão)
22:30 Vigília de Oração (Igreja)

15 de Abril – Guarda
21:00 Tempo de encontro e oração no salão da Paróquia de S. Miguel


16 de Abril – Viseu

21:00 Vigília de oração na Igreja dos Terceiros


17 de Abril - Pombal

19:00 Workshop “Um caminho de confiança”, Salão Paroquial de Pombal
20:00 Jantar partilhado
21:30 Oração com Taizé, Igreja Matriz de Pombal

18 de Abril – Aveiro
21:30 Vigília de oração no Salão dos Bombeiros Voluntários

19 - 22 de Abril - Madeira

19 de Abril
19:30 Eucaristia na paróquia de Santa Cecília, Câmara de Lobos, seguida por um tempo de encontro e partilha.


20 de Abril

11:30 Encontro na paróquia de Santana

Paróquia de Santo Amaro, Funchal:
15:30 Apresentação da Comunidade e preparação da peregrinação a Taizé em Agosto
16:00 Tempo de reflexão e partilha, baseado na Carta de Cochabamba
17:30 Eucaristia com cânticos de Taizé

21 de Abril
20:00 Vigília de oração na Igreja paroquial do Caniço

22 de Abril - Funchal
20:30 Vigília ecuménica de oração, Capela da Encarnação (Calçada da Encarnação)

23 de Abril – Porto

Casa Diocesana de Vilar
21:30 Oração
22:15 Reflexão e partilha baseada na Carta de Cochabamba

24 de Abril – Alcanhões


25, 26 e 27 de Abril – Paróquia do Entroncamento
Festa da Família 2008
Quinta da Cardiga - Golegã
25 de Abril, 18:30, workshop “Um caminho de confiança”
25 de Abril, 21:30, Grande Vigília de Oração

 

Foto da oração inicial de sexta-feira; mais fotos do encontro podem ser encontradas em http://www.flickr.com/photos/25598862@N04/

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Igreja-Estado, últimas polémicas (2)

Sobre o mesmo tema, frei Bento Domingues trata também da questão das relações entre a Igreja e o Estado, com o título “Guerra religiosa esvaziada”. É a sua crónica de domingo no Público.

1. Segundo alguns meios de comunicação social, estava preparada uma guerra religiosa, entre a Igreja e o Governo de maioria socialista, que seria declarada durante a assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), reunida em Fátima, de 31 de Março a 3 de Abril de 2008.
Para desencadear o conflito, a Igreja teria motivos graves: o anteprojecto de simplificação do processo de divórcio, a suspeita de um ateísmo militante do Estado, as tensões acerca dos atrasos na regulamentação da Concordata, o receio da legalização do casamento dos homossexuais, a falta de resposta da ministra da Educação acerca da presença da Igreja nas escolas, a assistência religiosa nos hospitais, entre outros.
Numa queixa pública, D. Carlos Azevedo, porta-voz da CEP, realçava alguns em tom paternalista: “Há forças dentro do Governo que têm uma postura de ataque à Igreja Católica e penso que falta, da parte do primeiro–ministro, uma vigilância coordenadora de actos e medidas avulsas que ferem e atingem quem anda há muito a servir a população”. Pede a José Sócrates “uma ética política que não fique refém dos interesses imediatos nem das influências de um ou outro ministério e do PS” (PÚBLICO, 30/03/2008).
2. Perante esse clima, uns imploravam o regresso de D. José Policarpo, o conciliador, outros insistiam na opção por uma linha ainda mais dura.
Nunca acreditei muito nessa retórica de guerra - recorrente, aliás, em títulos, notícias e comentários de toda a ordem - e não era só porque havia, pelo meio, o dia 1 de Abril. Não conseguia imaginar que o episcopado português ignorasse o recente desfecho do lamentável afrontamento entre os sectores mais conservadores do episcopado espanhol, comandado sobretudo pelo cardeal Rouco Varela, e o Governo de José Luis R. Zapatero. Ao confundir a missão da Igreja com a política do Partido Popular, liderado por Mariano Rajoy, não foi só este o derrotado. Valeu à imagem beligerante da hierarquia espanhola a intervenção do núncio apostólico, D. Manuel Monteiro de Castro, por sinal um português, que, no momento mais quente, convidou Luis Zapatero para uma agradável merenda na nunciatura.Em que ficou, afinal, a tempestade anunciada? O porta-voz, D. Carlos Azevedo, saltou. Foi substituído pelo padre jesuíta Manuel Morujão. A imagem dos bispos fica, assim, mais resguardada perante as fábricas de opinião. Alguns dossiers, como o da simplificação do processo de divórcio, nem considerados foram. No programa Diga Lá Excelência, D. Jorge Ortiga, reeleito presidente da CEP, apareceu manso como um cordeiro. Esclarece: “Reconhecemos, e afirmei–o categoricamente, a laicidade do Estado. Gostaríamos, e falei sempre no condicional, que a laicidade fosse uma laicidade inclusiva, que incorporasse a dimensão religiosa nas suas atitudes e, daí, que tivesse feito essa afirmação, onde efectivamente dizia que um Estado militantemente ateu talvez não seja aquele que nos convém”. Confessa, por outro lado, que não há nenhuma intenção, na Igreja, de atacar e ferir o Governo, acrescentando algo que poderá ser considerado oportunista: “Neste momento a Igreja em Portugal não está numa situação de atacar, mas de diálogo”. (PÚBLICO, 6/4/2008).
3. O presidente da CEP teve o cuidado de não atribuir as dificuldades da Igreja só às forças adversas. Sublinha que as suas intervenções não tinham, como primeiro destinatário, quem deseja enfraquecer ou impedir a influência da Igreja no espaço público, embora saiba que esse fenómeno é real. Fala, sobretudo, para o interior da Igreja: “É aí que nós temos de insistir. Temos de ter consciência de que cerca de 90 por cento dos portugueses se declaram católicos e temos de assumir a responsabilidade e interrogarmo-nos por que não são praticantes. Temos muita culpa nisso”.
Acertou no alvo. Portugal não está em baixa quanto a preocupações de ordem espiritual. Há investigações que documentam o seu crescimento. Pelo contrário, a queda da prática sacramental é impressionante e esta, na Igreja Católica, é insubstituível. Não se percebe como as orientações do Vaticano que a exaltam acabem por a tornar impossível em muitas situações. Por isso, não direi que a culpa é do episcopado português, salvo por este não contrariar algumas orientações romanas incompreensíveis. O grande cisma, na Igreja pós-Vaticano II, não é o dos “lefebvristas” franceses, para os quais, agora, se dirigem os passos da reconciliação. A opção manifestamente errada, sem remédio à vista, começou em 1968 com a publicação da encíclica Humanae Vitae. Como diz o bispo Georges Gilson, “o que decidimos em 1968 não é praticado nem sequer pensado. Para mim, é um drama, não há outra palavra” (1).
A decisão desastrada de há 40 anos resulta precisamente da confusão denunciada na entrevista de D. Jorge Ortiga: “Às vezes, pensa-se que a Igreja é hierarquia. Eu acho que a Igreja não é hierarquia”. Todos os cristãos podem dizer com verdade: “Nós somos a Igreja”.
(1) Catherine Grémio/Hubert Touzard, L”Église et la contraception: l”urgence d”un changement, Paris, Bayard, 2006.

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Igreja-Estado, últimas polémicas (1)

Com o título “Apontamentos sobre relações Igreja(s)-Estado (1)”, a crónica de Anselmo Borges de sábado passado, no Diário de Notícias, refere as últimas declarações sobre o tema para reflectir mais profundamente alguns aspectos da questão.

1. A declaração do arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, reeleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa - “o Estado democrático não pode ser militantemente ateu” - só pode entender-se como manifestação de profundo desagrado face ao Governo actual. Mas é incorrecta e infeliz. De facto, vive-se, em Portugal - e bem - num Estado laico, portanto, com separação da(s) Igreja(s) e do Estado, de tal modo que este não pode ser militantemente ateu nem militantemente católico ou muçulmano, por exemplo. No domínio religioso, é sua função salvaguardar e defender a liberdade religiosa de todos.
2. Lá no fundo, o mal-estar provém da Concordata, ainda não regulamentada. As mudanças de Governo terão contribuído para o atraso da regulamentação. Mas há quem fale - e as suspeitas podem não ser completamente infundadas - de alguma má vontade contra a Igreja por parte de sectores governamentais ou adjacentes.
Pessoalmente, penso que não seria necessária uma Concordata. Para maior liberdade e autenticidade evangélica da Igreja, seria mesmo de evitá–la, bastando uma lei geral de liberdade religiosa, que não ignoraria a proporcionalidade numérica e a influência histórica do catolicismo. Evitar-se-ia desse modo a impressão frequente de se estar em presença de um “Estado” espiritual frente ao Estado temporal.
Mas, uma vez que o Estado a assinou, deve cumprir, honrando os seus compromissos e, concretamente, procedendo o mais depressa possível, em diálogo, à sua regulamentação.
3. Tanto o Estado como a Igreja têm de assumir que o Estado é laico. A sociedade, essa, não é laica, mas pluralista: a maioria da população é religiosa, com filiação católica, mas há outras confissões religiosas e também ateus, agnósticos e indiferentes.
Enquanto forças vivas da sociedade, tem de reconhecer-se à Igreja e às diferentes confissões religiosas liberdade para anunciarem a sua mensagem, que implica também denúncias de injustiças e pronunciamentos nos domínios da sociedade e dos seus valores e antivalores. Mas, dentro do pluralismo de valores, a Igreja, no cumprimento da sua missão, tem de contar com a sua força moral e espiritual de convicção e não com a força do braço secular.
4. É neste quadro de liberdade e respeito que devem ser encaradas algumas questões em debate.
a) Se as religiões prestam serviços sociais, nos domínios da assistência e solidariedade social, da educação, etc., porque não há-de o Estado apoiar financeiramente?
Não refiro as outras confissões, por não ter conhecimentos suficientes. Quanto à Igreja católica, nestes domínios, não me parece inadequada a opinião de quem afirma que frequentemente a Igreja faz melhor e mais barato, de tal modo que, se houvesse contas e relatórios claros, talvez os contribuintes acabassem por perceber que saem beneficiados com os apoios do Estado às actividades sociais da Igreja.
b) No que se refere às capelanias hospitalares, respeitado o pluralismo religioso, não vejo, no quadro de uma compreensão holística da medicina - há hoje estudos científicos que mostram os contributos e benefícios da assistência religiosa e espiritual para a saúde -, razões para dificultar a presença espiritual nos hospitais. E, se se trata de um apoio relevante, porque rejeitar um apoio financeiro do Estado?
Aliás, não percebo as dificuldades levantadas às capelanias hospitalares, sobretudo quando se não ouviu levantar a voz quanto à capelania militar. Por mim, prefiro o Deus da hospitalidade (hospital vem do latim hospes - hóspede) ao Deus dos exércitos.
c.) Quanto ao divórcio, é natural que a Igreja tenha a sua concepção do matrimónio e a defenda.
Em certas situações, porém, o divórcio é inevitável e até moralmente exigido. De qualquer forma, o casamento e a família constituem uma instituição fundamental, que merece ser salvaguardada e protegida, não tendo o Estado vantagens em dar sinais de facilitismo hedonisto-individualista e fragilizar o princípio: pacta sunt servanda (os pactos são para cumprir).

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