Um balanço da viagem do Papa aos EUA e ONU
Sob o título “Ainda melhor que o esperado”, este é o balanço de António Marujo, no Público de dia 21, sobre a visita do Papa aos EUA e ONU.
Correu bem ao Papa Bento XVI a sua visita aos Estados Unidos e à sede da ONU. Não era de esperar que corresse mal, mas os resultados são melhores do que se poderia pensar no início.
Há três factores que para isso contribuíram: o encontro com as vítimas de abusos sexuais de membros do clero e as sucessivas declarações de Bento XVI sobre o tema; o discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, peça que sintetiza alguns princípios fundamentais do Vaticano em política internacional; os encontros com judeus e a mensagem que dirigiu ao judaísmo mundial coincidindo com o início da Páscoa judaica. Claro, há ainda o emotivo e silencioso instante no Ground Zero, mas esse é o momento que fica de recordação mediática.
Há uma decepção: o discurso sobre o ecumenismo, no encontro com os representantes das diferentes igrejas cristãs presentes nos Estados Unidos. Bento XVI afirmou, no início do seu pontificado, que o diálogo ecuménico seria a sua prioridade. E sublinhou várias vezes que não bastam já declarações, sendo necessários “passos concretos” - a expressão é dele.
Quem faz tal afirmação terá alguma ideia concreta a propor - não pode apenas esperar que outros avancem. E para quem fez desse processo a sua bandeira, tarda em perceber o que o Papa pretende nesta área, para além das boas relações com protestantes e ortodoxos. O discurso de sexta à noite, perante 300 responsáveis de diferentes igrejas cristãs, desiludiu, porque nem sequer havia qualquer alusão à prioridade. Ficou ela já pelo caminho?
Há também um tema a que o Papa passou ao lado: ao referir por diversas vezes a defesa da vida, foi pena Bento XVI não ter referido nunca a violência que marca alguns aspectos da sociedade norte-americana e a permanência da pena de morte em muitos estados do país. Claro, não vinha muito a propósito nos diferentes encontros e iniciativas previstas no programa. Mas um Papa não precisa de pretextos.
A questão dos abusos sexuais do clero pode vir a ser a mais forte consequência desta viagem de Bento XVI para a Igreja Católica nos Estados Unidos. O Papa escolheu cada momento e cada interlocutor: em pleno voo, disse aos jornalistas que se sentia “profundamente envergonhado”. Tratava-se de dizer ao que ia.
Aos bispos, recordou depois que o problema foi muitas vezes “mal gerido” - por eles ou por colegas que entretanto deixaram o lugar. Aos padres que permanecem, manifestou-lhes solidariedade e compreensão com as dificuldades. E, mais que tudo, ouviu as vítimas. Muitas vezes, muitos católicos sofrem em silêncio porque sentem que não são escutados por aqueles cujo ministério é, em primeiro lugar, um ministério de escuta. O facto de um Papa ter ouvido aqueles que têm profundas queixas de actos de membros da instituição (actos com consequências para a vida inteira) é duplamente importante.
O discurso da ONU merece leitura atenta. Sem se referir expressamente a nenhum caso concreto da agenda internacional - nem isso seria de esperar -, o Papa falou das questões mais importantes. Insistiu na universalidade dos direitos humanos, disse que a pobreza tem que ser resolvida, que os conflitos devem ser ultrapassados pela diplomacia, falou do direito de ingerência e contestou que possa haver um qualquer directório mundial.
Uma nota final: nas diferentes iniciativas do programa, a diversidade étnica, cultural e religiosa esteve sempre presente - nas línguas utilizadas ou na música. Só ontem à noite, na missa do Yankee Stadium, ouviu-se música litúrgica, africana, Schubert, Brahms e a Ode à Alegria de Beethoven, para concluir e dizer adeus.