Friday, September 26, 2008

Um rabino judeu a falar aos bispos católicos sobre a Bíblia

Pela primeira vez na história da Igreja, um judeu tomará a palavra numa assembleia do Sínodo dos Bispos. Shear-Yashuv Cohen, rabino chefe de Haifa, membro da comissão mista formada por Israel e pelo Vaticano, foi convidado como «delegado fraterno» à assembléia especial do Sínodo dos Bispos sobre «A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja», cuja abertura solene será presidida pelo Papa Bento XVI no próximo dia 5 de Outubro, na Basílica de
São Paulo Fora dos Muros, segundo informa a agência Zenit.

Até hoje, tinham participado nos sínodos «delegados fraternos» de outras confissões cristãs. Esta será a primeira vez que um não-cristão tomará a palavra.

«É um convite que implica uma mensagem de amor, de convivência, de paz, e vejo nela uma espécie de declaração segundo a qual a Igreja pretende continuar a política e a doutrina de João Paulo II», comentou Shear-Yashuv Cohen em declarações citadas pela Rádio Vaticano. O rabino confessa que aceitou o convite com «um pouco de temor».

Para o rabino chefe de Roma, Riccardo Di Segni, a participação de Shear-Yashuv Cohen no Sínodo é «um gesto relevante».

Ilustração: Oração de Shabath; seda natural estampada com Estrelas de David e Oração de Shabath em espiral. Col. Comunidade Israelita de Lisboa; reproduzida no catálogo “Guarda – História e Cultura Judaica”, ed. Museu da Guarda

 

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Cinema - O Cântico das Criaturas

No Página 1, da Rádio Renascença, José Tolentino Mendonça escreve sobre o filme Aquele Querido Mês de Agosto. “Uma actualização, irónica e desesperada, do Cântico das Criaturas”, diz.


Muito se tem escrito sobre “O meu querido mês de Agosto” de Miguel Gomes. É um «road-movie» que nos destapa: leva-nos os olhos por esse Portugal dentro,
o Portugal que não é a «west Coast of Europe» da promoção, mas um país antioceânico, de minúsculas enseadas fluviais, uma paisagem pétrea, indiscernível, incessante, com florestas e matas ameaçadas, como se, de alguma maneira, elas (e não nós) se tivessem tornado ocorrências lesivas. É um filme que nos leva pelos cabelos a ver Portugal: um país a que se acede pela camioneta da carreira, ainda de ritos, de ofícios manuais, de jornais de província, de feiras, cabisbaixas ou não, e datas para assinalar… Um país arcaico, onde o desassossego da condição humana se exprime no tom estático e impávido que têm os Autos ou que teve, um dia, o grande teatro grego.

Podemos dizer que o cinema re(a)presenta o que o olhar vê  e essa espécie de devolução modifica, adensa, entreabre a própria realidade. Mas não de maneira unívoca, e esse é um traço fundamental nesta obra. O cinema de Miguel Gomes, por exemplo, não nos revela apenas um Portugal submerso, distante das rotativas do discurso dominante. Deixa-se tomar por ele. De repente, sentimos que o filme estremece por o vento nas folhas ser isso mesmo, pelas nuvens riscarem mesmo de silêncio o céu, pelo marulhar ingénuo da pequena cascata afinal se ouvir, pelo deslumbre incalculável de certos encontros acontecer…  

Tomando este belíssimo objecto de Miguel Gomes percebe-se então mais fortemente a oportunidade perdida que a ficção televisiva, servida em horário nobre, tem sobretudo representado. Uma telenovela, rodada nos Açores, no Douro ou no topo dos edifícios da Expo, o que faz é desdobrar estereótipos, repetir, deslocar actores daqui para ali, recorrendo ao local como mero cenário. Como quando a televisão se diz aproximar do quotidiano o que frequentemente faz é simplificá-lo até à caricatura. Há uma ânsia de homogeneidade que é uma outra forma de impermeabilização e surdez.

Por alguma razão o que se escuta é tão decisivo em “O meu querido mês de Agosto”. Pode-se pensar que se trata apenas de um chorrilho de cançonetas. A mim pareceu-me, antes, uma actualização, irónica e desesperada, do Cântico das Criaturas.

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Tuesday, September 23, 2008

Igreja Católica dá cada vez mais dinheiro e voluntários para países lusófonos

No Público de terça, 23, noticia-se a reunião das presidências das conferências episcopais lusófonas a partir dos números e projectos de cooperação que têm sido desenvolvidos por instituições católicas portuguesas com outras igrejas lusófonas. O texto é de António Marujo (em baixo: Pemba, Moçambique, Junho de 2008, foto de António Marujo)

Pelo menos um milhão de euros em projectos concretos de desenvolvimento e um número cada vez maior de pessoas a fazer voluntariado missionário. A Igreja Católica em Portugal apoia, através de três das suas instituições, as suas congéneres lusófonas e, apesar de haver muitos programas à espera de dinheiro, essa ajuda tem crescido nos últimos anos.

A
Cáritas Portuguesa e a Fundação Evangelização e Culturas (FEC), instituída pela Conferência Episcopal Portuguesa, são as duas instituições que mais projectos apoiam. Mas a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre contribui também sobretudo para a área da formação do clero e de agentes de pastoral. A partir de amanhã, em Macau, representantes dos bispos dos países lusófonos irão conhecer estes dados em pormenor.

Para lá do apoio a projectos, a FEC centraliza a informação sobre voluntariado missionário: há uma média de 300 pessoas por ano a dar pelo menos seis meses para colaborar com missões ou organizações não-governamentais católicas.

“São desde grupos paroquiais até movimentos como os Leigos para o Desenvolvimento”, explica ao PÚBLICO Jorge Líbano Monteiro, executivo da FEC. Meia centena de organizações, muitas delas promovidas por jovens, estão inscritas para estas acções, que incluem formação prévia.

Os últimos dados, respeitantes ao final de Junho último, apontavam para, pelo menos, 283 portugueses que este ano partiriam para os outros sete países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Timor-Leste. Zâmbia, Burundi e República Centro-Africana estão também na rota.

A parte de leão cabe a Moçambique, para onde iriam trabalhar 121 voluntários (43 por cento do total). Há mais mulheres (195) que homens (70) e a maior parte (220) é para projectos de curta duração (um a seis meses). Nos que partem este ano, 62 repetem a experiência antes feita. Nos últimos seis anos, 1689 pessoas foram voluntárias missionárias.

Os projectos directamente apoiados pela FEC totalizam cerca de 700 mil euros. E abrangem a capacitação de professores, a criação de centros de desenvolvimento educativo e a reabilitação de um mercado (Guiné-Bissau); a promoção da saúde e a criação de um dispensário (Timor); e o apoio à criação de rádios comunitárias e a centros educativos (Angola). Neste último caso, a FEC conta com a parceria e o contributo do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento.

No caso da Cáritas, os projectos dos últimos dois anos incluíram uma componente de ajuda de emergência em Angola (epidemia de cólera em Luanda) e Moçambique (vítimas das cheias). Em Luanda, a Cáritas Portuguesa foi mesmo um dos primeiros apoios a chegar. Mas os projectos visaram também a melhoria de condições de vida para os catadores de lixo em Fortaleza (Brasil) e a construção de cisternas na Guiné-Bissau.

No relatório que os bispos lusófonos analisarão em Macau, até domingo, a Cáritas nota, no entanto, que os católicos portugueses têm sido generosos para campanhas de emergência, mas que é necessário sensibilizá-los para um apoio mais sistemático a projectos de desenvolvimento sustentável.

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A Bíblia é compatível com a teoria da evolução

O arcebispo Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, que esteve
em Junho em Portugal, afirmou há dias em Roma que a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin é compatível “com a mensagem da Bíblia e da teologia da Igreja”. Na apresentação de um simpósio sobre o tema, Ravasi acrescentou ainda que nem Darwin nem o seu livro foram condenados pela Igreja Católica.

No National Catholic Repórter, John Allen, correspondente no Vaticano, assina mais um texto da sua coluna semanal, onde faz um relato circunstanciado da intervenção de Ravasi. John Allen coloca também ao dispor dos leitores e internautas vídeos da conferência de imprensa disponibilizados no youtube pelo Conselho Pontifício da Cultura. Informação sobre o simpósio, que decorre em Roma, em Março de 2009, pode ser encontrada aqui.

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Monday, September 22, 2008

Sarah Palin e a violência sagrada

No Público de domingo, 21, Faranaz Keshavjee comenta as declarações de Sarah Palin acerca da guerra no Iraque.


 

O artigo de Campos e Cunha sobre Deus e a Democracia fez-me repensar a tese de Mohammed Arkoun que recorda o triângulo antropológico entre Verdade, Violência e Sagrado - válida para todos os tempos, em sociedades religiosas ou profanas. Nesta tese, diz que a liderança política reclama sempre uma verdade, ou a verdade, e a partir daí legitima qualquer tipo de violência, que adquire justificações na ordem do sagrado. Entre os jihadistas muçulmanos chamam-lhe guerra santa, nas sociedades seculares chamam-lhe guerra justa; a designação muda mas a essência da legitimidade do discurso e da acção é sempre o mesmo.

O fenómeno Sarah Palin reflecte muito dessa trilogia antropológica. Conforme pude verificar também, a senhora Palin disse num discurso na sua igreja que se sentia impelida para o cargo de vice-presidente dos Estados Unidos da América por sentir que cumpria uma missão que lhe foi confiada por Deus, e que a Guerra no Iraque e as suas consequências são uma “missão de Deus”. Com efeito, num dos debates do Dateline London, da BBC, alguém disse que Sarah Palin lembra uma extremista muçulmana ao contrário: ou seja, Palin tem aquele ar moderno, com óculos fashion e roupas ocidentais, mas o seu discurso recorda o das terroristas absolutistas muçulmanas. Depois destas evidências de justificação de uma missão da Providência, custa acreditar não apenas que gente assim possa conseguir a confiança de um eleitorado letrado e secular tão vasto, mas mais ainda que mesmo nos media ocidentais em geral, inspirados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, e avessos a quaisquer tipos de fundamentalismos e extremismos, se continue a falar desta senhora sem perceber a iminência do perigo de uma potencial liderança deste tipo. Não sei o que sentem os observadores da política de Ahmadinejad ou da Al-Qaeda, mas para mim os fanáticos são todos iguais. O package pode ser diferente, o conteúdo é perigoso. A violência implícita no seu discurso - onde, entre outras coisas, diz que não há tempo para piscar os olhos antes de derrotar o inimigo - faz de pessoas como Sarah Palin uma ameaça como outra qualquer. E não vale a pena dizermos que a violência tem contornos diferentes consoante seja “ocidental” ou “islâmico”, profano ou religioso; porque violência é violência, e ponto final. Seja matando civis, ou violentando-os, seja em Abu Ghraib, Guantánamo, Londres, Afeganistão, Palestina, Espanha, Kashmir, no Ocidente ou no Oriente. A violência não tem perdão e deve ser punida e banida, na sua génese ou realização.

Mas o mundo ocidental e laico carrega este peso da mito-história e projecta-o nas suas políticas de bivalência. Cria geografias e ocupações mitológicas e responsabiliza Deus pelos erros humanos. E é esta parcela de verdade que incomoda os críticos da hegemonia ocidental. Porque para tudo há dois pesos e duas medidas. E, mais grave ainda, porque nessa possível hegemonia as diferenças não são valorizadas nem aproveitadas.

Numa hegemonia de direitos e liberdades, de deveres e responsabilidades, não me incomoda que a política e a religião se misturem desde que uma e outra sirvam os propósitos de uma ética cosmopolita. Ou seja, desde que qualquer ideologia seja a de um desenvolvimento da sociedade humana, do progresso e da razão, da liberdade, igualdade e fraternidade. E que, no final da linha, o propósito de qualquer líder seja o de promover um estado de esperança sem discriminar no credo, cor, religião ou género.
Uma verdadeira missão de civilização seria, nas palavras de Arkoun, inventar os mecanismos de prevenção e de mediação que distanciem e anulem a resposta guerreira. Somos civilizações saturadas de guerras justas, santas, legais, ou autorizadas pelo direito (sharia) ou feitas pela “voz de Deus”. A relação entre a violência e sagrado, seja ela religiosa ou profana, deve ser seriamente interrogada e deve dar lugar a uma ligação entre civilização e guerra inoperante.

Se pudéssemos retirar alguma boa lição do 11 de Setembro, oito anos depois, não era a fácil resposta de que a iminência da insegurança é uma constante nas nossas vidas, ou que jovens muçulmanos não se sentem motivados para missões suicidas, ou que a condição da mulher muçulmana piorou relativamente… isso são análises superficiais e dissuasoras da real equação que devemos contemplar. O que realmente precisamos neste mundo conturbado é de encontrar lideranças que promovam políticas de esperança e não de violência sagrada. Essa é a única verdade que importa sacralizar.

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Festival de cinema reflecte relação entre religião e homossexualidade

No Público de sábado, 20, apresenta-se o ciclo acerca de religião de homossexualidade, incluído no Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. O texto é de Jorge Mourinha:

É possível reconciliar a fé (católica, evangélica, islâmica, judia) com a homossexualidade? É possível acreditar em Deus e professar uma fé que, levada aos seus limites fundamentalistas, exclui da sua confissão aqueles que são gays? É a propósito desse dilema que o Queer Lisboa - 12º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa, inaugurado na última 6.ª feira (19 de Setembro) no cinema São Jorge e que se prolonga até ao próximo domingo (27), apresenta cinco documentários que questionam a relação conflituosa e complicada entre a religião e a homossexualidade.

Integrados igualmente na competição oficial de documentários, estes cinco filmes funcionam como um olhar atento sobre uma questão que entra a fundo na própria essência da personalidade de cada um. Assumir publicamente uma identidade que os outros querem negar ou ignorar é ainda hoje uma das lutas centrais da condição homossexual, afectando a identidade individual (social, afectiva, profissional, política) - mas quando a religião entra ao barulho, a volatilidade da combinação é violentamente potenciada. Como fica explicado nesta escolha de filmes que tem como ponta-de-lança o aclamado documentário de Parvez Sharma

 

A Jihad for Love - Amor no islão

Ironicamente, A Jihad for Love, (3.ª feira, 23) que tem causado sensação ao longo dos últimos meses em festivais como Toronto ou Berlim, é também o único dos cinco filmes apresentados que o “Público” não pôde visionar antecipadamente, devido ao estrito controle da produção sobre as suas apresentações, perfeitamente compreensível na sequência das célebres fatwas sobre os Versículos Satânicos de Salman Rushdie ou os cartoons dinamarqueses sobre o profeta Maomé. E não é caso para menos, porque o realizador, formado no jornalismo televisivo na sua Índia natal, passou seis anos a investigar, recolher e entrevistar para fazer este documentário sobre a homossexualidade e o Islão, contando na primeira pessoa as histórias daqueles que, sendo muçulmanos devotos e homossexuais, se recusam a renunciar à sua fé, mesmo sabendo que isso pode significar a vigilância, a prisão, a tortura, até mesmo a morte. O tema é de tal modo tabu no mundo islâmico que Sharma filmou a maior parte do material em segredo e define nas notas de produção o título do filme como uma tentativa de reclamar o verdadeiro significado original da palavra jihad - entendida não como “guerra santa” mas como uma espécie de “via sacra”, de percurso de aprendizagem e de luta em nome da fé e do amor.

 

A Itália real

Volatilidade, embora a outro nível, é também a palavra que define os acontecimentos contados em Suddenly Last Winter (a exibir dias 24 e 27), documentário simultaneamente aéreo e sério onde Gustav Hofer e Luca Ragazzi acompanham o conturbadíssimo processo da negociação dos pactos de uniões de facto em Itália ao longo de dois anos. O que começou como uma esperança de igualdade social erguida pela ascensão ao poder da esquerda italiana com a eleição de Romano Prodi é lentamente sabotado pelo envolvimento da Igreja Católica no boicote à igualdade de direitos para os homossexuais.

Hofer e Ragazzi, ambos jornalistas na área do entretenimento, e um casal há oito anos, pegam numa câmara de video e vão para a rua. E descobrem um país onde o peso da tradição católica é tal que a mera ideia da legalização das uniões homossexuais é suficiente para movimentar o protesto de milhões de católicos, alguns dos quais fundamentalistas com uma perturbante mentalidade de extrema-direita.

O confronto de Gustav e Luca com a “Itália real”, longe do “casulo protector” em que viviam até aí, convencidos de fazerem parte do melhor dos mundos tolerantes, vem abrir brechas na sua relação. E afecta o que começa de maneira leve e divertida, ganhando progressivamente gravidade à medida que compreendem as consequências muito reais de toda esta guerra surda para a sua própria sobrevivência enquanto casal e para a sua identidade homossexual. Isso acaba por dar um tom falso à nota optimista do final, sugerindo uma opção pela alienação escapista (pouco ajudada pela imagem estereotipada do gay cosmopolita e frívolo que Hofer e Ragazzi dão de si mesmos) que não se dá bem com a seriedade do verdadeiro tema do filme.

 

A fé que os separa

Alienação escapista é exactamente o que não há de todo em Born Again (exibido no sábado), onde a cineasta americana Markie Hancock documenta na primeira pessoa, recorrendo a filmes de família super-8, fotografias de época e aos seus diários pessoais, o seu percurso identitário. Nascida no seio de uma família cristã evangélica devota e fundamentalista, Hancock aspirava a ser missionária e viver a sua vida em paz servindo diariamente a Deus, compreendendo lentamente a sua diferente identidade sexual e reconhecendo o fosso intransponível que essa identidade criava para com a sua família e a sua religião.

O interesse de Born Again, o que o transforma em algo mais que um simples “diário filmado”, está precisamente no modo como a realizadora expõe publicamente as suas dúvidas e debate com a sua família os problemas de relacionamento levantados pela fé; uma fé cujo fundamentalismo coloca todos aqueles que a questionam, independentemente do motivo, como seres irredimíveis, condenados a errar para toda a eternidade num purgatório ateu. Particularmente comoventes são os momentos em que Markie e o seu irmão Nathan discutem as diferenças que os separam - comoventes porque se percebe como existe um verdadeiro amor fraternal entre ambos e como a fé é aqui um factor de separação.

 

Em tournée

É esta capacidade de particularizar o conflito para melhor o generalizar, por exemplo, que falta a We’re All Angels (exibido ontem, dia 21), onde o americano Robert Nuñez acompanha um ano na vida e na carreira de Jason e DeMarco, cantores pop que assumem publicamente a sua homossexualidade e a sua fé cristã. O filme não foge a abordar as questões, nomeadamente o facto do mainstream da poderosa comunidade da música cristã americana rejeitar a tentativa de Jason e DeMarco se erguerem como exemplos da possibilidade da reconciliação da fé e da homossexualidade. Mas, na sua tentativa de equilibrar o fiel da balança, reduz-se demasiadas vezes apenas a um banal documentário sobre músicos em tournée, músicos em estúdio, músicos em ensaios.

 

A peça que falta

Sobra a divertida e intrigante surpresa de The Quest for the Missing Piece (a exibir nos dias 25 e 26), filme onde a homossexualidade é menos importante do que possa parecer e onde o que se questiona verdadeiramente é a identidade judia, independentemente da orientação sexual ou da nacionalidade. A investigação do israelita Oded Lotan equivale ao filme mais “abrangente” do lote e usa como ponto de partida uma pequena história do ritual da circuncisão, que está longe de ser um exclusivo judeu para ser praticado por muitas outras culturas, em quase todas transportando uma forte carga identitária mas de conotação significativamente mais tribal ou colectiva do que religiosa. E de certa maneira acaba por funcionar como uma peculiar síntese dos restantes filmes do programa, ao combinar a abordagem documental sociológica, o carácter histórico e a experiência pessoal do seu autor num todo a um tempo estimulante e atento.

A «missing piece» do título é o prepúcio masculino retirado na circuncisão, usado por Lotan como uma metáfora de um qualquer atavismo cultural cujas raízes se perdem no tempo e cujo porquê já ninguém recorda ao certo. A pergunta, claro, é saber se esse atavismo é uma identidade forçada ou desejada - e a resposta depende, afinal, de cada indivíduo que se depara com ela.
 

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Sunday, September 21, 2008

O sermão do cónego laico e republicano

No Público deste domingo, 21, frei Bento Domingues comenta a recente viagem do Papa Bento XVI a França.

1. Os dias que o romano pontífice passou em França serviram, além do mais, para mudar o olhar de muitos franceses sobre o Papa e para alterar a ideia de Bento XVI sobre o papel da Igreja na sociedade francesa. Reunir 260 mil pessoas em Lourdes e cerca do mesmo número em Paris revela capacidade de convocação. Tornou-se evidente, para a opinião pública, que o catolicismo é uma dimensão bem presente na paisagem social e religiosa de França.

O Papa teve várias intervenções, mas
o grande sermão foi proferido pelo presidente do Estado mais laico da Europa, Nicolas Sarkozy. Uma surpresa oportunista? Talvez nem tanto. Já quando era o encarregado dos cultos, no governo anterior, deu a entender que a prática da laicidade não podia evitar novas interpretações e evoluções, tendo em conta as mudanças da sociedade francesa.

Como presidente da República, foi-lhe conferido, no dia 20 de Dezembro de 2007, o estranho título de cónego honorário do cabido da basílica de S. João de Latrão, sede do Papa, Patriarca do Ocidente, bispo de Roma. Henrique IV, rei de França, doou, em 1604, uma abadia francesa a esse cabido. Em reconhecimento, este atribuiu-lhe, e aos seus sucessores, o título de cónego honorário. Entre os últimos presidentes franceses, De Gaulle e Valéry Giscard d’Estaing foram a Roma receber esse título. Pompidou e Mitterrand abstiveram-se. Nicolas Sarkozy justificou a decisão de o acolher: «Ao vir esta noite a S. João de Latrão e aceitando o título de cónego honorário desta basílica, assumo plenamente, na minha pessoa, o passado da França e o laço particular que, desde há muito tempo, une a nossa nação à Igreja».

2. Podia ter ficado por aqui que já não era pouco, mas foi mais longe. Sabendo que já ninguém põe em causa a separação da Igreja e do Estado, que a tradição laica perdeu a sua irritante agressividade, que a tradição católica já não exerce uma posição dominante ou hegemónica, como no passado, aproveitou para enunciar e desenvolver, com brilho, o conceito de «laicidade positiva», que leva o Estado a reconhecer e a valorizar o papel das religiões na sociedade, destacando as raízes essencialmente cristãs da França. País que, entretanto, conta com uma presença significativa do Islão, com diversas formas de descrença, de agnosticismo ou indiferença religiosa que também fazem parte da cultura ambiente, sem esquecer a sedução que exercem certas espiritualidades mais ou menos esotéricas ou místicas. Ao reconhecer aquilo que ele chama «aspiração espiritual», a necessidade de espiritualidade numa sociedade bastante secularizada, afirma, também, que a França precisa de católicos convictos que não receiem afirmar-se como tais e mostrar aquilo em que acreditam.

Em suma, o Estado deve garantir o exercício de liberdade de consciência a todos os cidadãos, sejam eles laicos, agnósticos ou crentes, mas é preciso compreender que as religiões nasceram para satisfazer necessidades que o Estado não pode desconhecer nem satisfazer. Importa, no entanto, que as religiões e as Igrejas sejam reconhecidas como referências de vida e não como forças políticas ou grupos de pressão, suas tentações permanentes.

3. Com este cónego, presidente da República, o Papa não tinha nada a temer da laicidade «à francesa». Pelo contrário. A «laicidade positiva» já tinha sido proclamada em Roma, na sede da cristandade, por Sarkozy que, agora, recebia Bento XVI com palavras que ninguém podia contestar: «na República laica que é a França, todos vos acolhem com respeito enquanto chefe de uma família espiritual».

Assumiu, do pensamento do Papa, não só a defesa da compatibilidade entre fé e razão, como o reconhecimento de que a especificidade e a fecundidade do cristianismo não são dissociáveis do seu encontro com os fundamentos do pensamento grego. Também a democracia é mais do que a adição aritmética dos votos e dos movimentos passionais dos indivíduos. Precisa das luzes da razão, de argumentar, de procurar honestamente o que é bom e necessário, de respeitar os princípios essenciais reconhecidos por aquilo que se chama o entendimento comum. Não receou acrescentar: também é legítimo para a democracia e é uma forma de respeitar a laicidade dialogar com as religiões. Estas, e nomeadamente a cristã com a qual a França partilha uma longa história, são patrimónios vivos de reflexão e de pensamento, não só sobre Deus, mas também sobre o ser humano, sobre a sociedade e mesmo sobre as preocupações, hoje centrais, como é a natureza e a defesa do meio ambiente. Privar-se desse património, seria uma loucura e um pecado contra a cultura e contra o pensamento. É por isso que apela, novamente, a uma laicidade positiva, que respeita, que reúne, que dialoga e não a uma laicidade que exclui e denuncia. A laicidade positiva oferece às consciências, para lá das crenças e dos ritos, a partilha de uma busca de sentido a dar às nossas existências.

A posição de N. Sarkozy é discutível. Ainda bem. Já se perdeu demasiado tempo a repetir dogmas laicos e eclesiásticos.

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O Bosão de Higgs e o Livro do Génesis

No DN de sábado, 20, Anselmo Borges publica a sua crónica semanal, falando sobre fé e ciência. 

Quem, no passado dia 10, se não sentiu entusiasmado com o sucesso do início da megaexperiência em curso através do megaacelerador de partículas no CERN, na fronteira entre a Suíça e
a França? Há um modelo-padrão na Física, mas há uma partícula que falta, o famoso bosão de Higgs. Ela está prevista pela teoria. Mas, como disse o físico Carlos Fiolhais, ela pode não aparecer. “E podem aparecer outras partículas, o que significaria que a teoria actual teria de ser revista”. O próprio cientista deixa-se fascinar pela “imaginação da Natureza”. De qualquer forma, o conhecimento humano do Universo avança e está em expansão. 

É natural que também os crentes sejam arrastados pelo entusiasmo da investigação e se esforcem por fazer avançar o conhecimento da realidade a nível científico. No caso cristão, trata-se mesmo de uma exigência da fé. De facto, no Evangelho segundo São João, está escrito que “no princípio havia o Logos (Razão, Palavra); o Logos estava em Deus e o Logos era Deus. Por Ele é que tudo começou a existir”. Isto significa que, se o mundo foi criado pelo Logos, o mundo é racional e deve ser investigado racionalmente pelos seres humanos. 

Frente ao carácter gigantesco da experiência em curso, que nos deveria levar à máxima proximidade do que se seguiu ao Big Bang, alguns cientistas chegaram a utilizar linguagem quase religiosa para a designação do bosão de Higgs, dando-lhe o nome de “partícula de Deus”. O físico Michio Kaku escreveu: “Esta máquina, o superacelerador, levar-nos-á tão perto quanto humanamente é possível à maior criação de Deus, a Génese. É uma máquina da Génese, concebida para estudar o maior acontecimento de toda a história: o nascimento do Universo”. Neste enquadramento, o Prémio Nobel da Física Steven Weinberg disse que as descobertas esperadas podem diminuir a importância de Deus na nossa compreensão do Universo.

Penso que quem tem razão é Carlos Fiolhais, quando diz que “não haverá consequências para as crenças religiosas, pois desde o tempo de Galileu que a ciência é uma coisa e a religião é outra”. Como eu disse também no dia 10 à TSF e à SIC-Notícias, a ciência não é crente nem é ateia. É pura e simplesmente ciência e, portanto, quer crentes quer não crentes vão para a ciência em pé de igualdade, com métodos científicos. A ciência não demonstra a existência de Deus nem a sua não existência. A razão é simples: Deus não é objecto de ciência, pois não é da ordem do verificável empiricamente.

Há cientistas crentes e cientistas ateus ou agnósticos. O que se passa é que, no limite, há uma pergunta que transcende a ciência: porque há algo e não nada? Porque houve o Big Bang? Qual o sentido de tudo?

Aqui, já não se trata de ciência, pois é uma questão filosófica e religiosa: o mundo cria-se a si mesmo e explica-se por si mesmo ou há um Deus transcendente e pessoal, criador? Face a esta pergunta, crentes, ateus e agnósticos não interpretam o mundo de uma determinada maneira pelo facto de o serem; o que se passa é o contrário: uns são crentes e outros ateus ou agnósticos, porque a interpretação religiosa e a interpretação ateia ou agnóstica lhes parece, respectivamente, mais adequada, consistente e razoável.

Há fé, mas com razões. A ciência no sentido positivista não detém o monopólio da razão. A razão tem múltiplas dimensões e não se esgota nas ciências lógico-empíricas. Como disse Bento XVI, na semana passada, no Colégio dos Bernardinos, em Paris, na presença de grande número de intelectuais, é próprio da razão perguntar por Deus e “uma cultura puramente positivista, que remetesse para o domínio subjectivo, como não científica, a pergunta por Deus, seria a capitulação da razão, a renúncia às suas possibilidades mais elevadas e, portanto, um fracasso do humanismo”.

Quanto ao Génesis, primeiro livro da Bíblia, que agora seria definitivamente arrumado, é preciso dizer que se trata de um livro religioso e não de ciência: utiliza linguagem mítico-simbólica para falar de Deus criador. Os crentes há muito deveriam saber isso. Quem quiser lê-lo à letra habita ainda o universo do ridículo.

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25º Domingo do Tempo Comum - O comentário aos textos bíblicos, pelo Padre João Resina

É conhecida a beleza, profundidade e capacidade de síntese dos comentários aos textos bíblicos, escritos pelo padre João Resina. Pela primeira vez, Religionline publica aqui um desses textos, normalmente disponíveis também no site da Paróquia do Campo Grande, de Lisboa (onde, aliás, se podem consultar os dos domingos anteriores). Este é o referente ao 25º Domingo do Tempo Comum, liturgia celebrada neste domingo 21 de Setembro:

Vivemos num mundo que é globalmente rico, mas está cheio de violência, de injustiças, de miséria. Todos os anos morrem de fome mais de 30 milhões de pessoas. Os governantes dos países ricos têm mais em que pensar, o cidadão comum “não tem culpa”, “nem tem nada com isso”.

Apareceram grandes movimentos pretendendo que a solução se encontraria quando tudo fosse comum, quando, pelo menos, cessasse a propriedade privada dos meios de produção. E o resultado foi pior.

Reconheçamos que a vida é complicada. Para todo o ser vivo, e também para o homem, a existência significa uma luta. Nos irracionais e também em certos homens, a luta é muitas vezes sem mercê: destruir o inimigo, passar para a frente do que está ao lado, seja de que maneira for. Mas as grandes tradições humanas e sobretudo as religiões exaltaram aqueles que ajudam o necessitado, mesmo quando isso implica risco e prejuízo. O sacrifício é uma realidade humana que transcende a biologia e a economia.

Por outro lado, parece óbvio que a bondade se não limita à partilha. Há sociedades “mornas”, sem horizontes nem estímulos, onde tudo permanece igual ou retrocede. E há outras em que existe iniciativa. São hoje motivo de admiração alguns países do sudoeste asiático que em poucos anos arrancaram e conseguiram alcançar altos níveis de desenvolvimento. O segredo? – Os jovens, que começaram a correr para ganhar. E entre nós? Seria fácil verificar que a população jovem se divide em dois subconjuntos: há aqueles que alcançam muito boas classificações no secundário, entram para cursos superiores de prestígio, trabalham depois dia e noite e são final-mente investigadores, gestores e profissionais de nível internacional; e há os que entram com 10 valores nas Faculdades, abrem poucos livros e acabam na burocracia e na baixa política.

Parece-me significativo que Jesus, e depois S.Paulo, pregam o amor e a partilha, mas não substituem este mundo difícil por um mundo idealizado. S.Paulo certamente que não ignora a corrupção que invade o mundo desportivo; mas não receia comparar a vida, e também a
vida cristã, a uma corrida. “Não sabeis que na corrida dos estádios todos correm, mas só um recebe o prémio? Correi, pois, para o alcançardes.” (I Cor 9, 24). Nas parábolas de Jesus perpassa o empresário que promove os funcionários eficientes e despede um funcionário inútil. (Mat 25,14-30), um noivo que fecha a porta aos elementos do coro que não cumpriram bem. (Mat 25,1-13), um administrador desonesto que, justamente despedido, não desiste de procurar saída. (Luc 16,1-8). O mundo é assim. Mas a aprovação de Jesus vai para os que são fiéis, “nas coisas pequenas como nas grandes” (Luc 16,10). Admira o pastor que vai em busca de uma só ovelha perdida e o pai do filho pródigo, que compreende e perdoa como Deus compreende e perdoa (Luc 15,4-32). Aprova o semeador, que lança a semente à terra, não ignorando que muita se perde (Mat 13,1-9). Convida-nos a dar esmola com uma medida grande (Mat 4,24-25). Ensina que Deus não vai satisfazer o desejo de certos “justos”, sempre à espera de que Ele elimine os maus (Mat 13, 24-30). Anuncia que vai dar a vida eterna a todo aquele que ajudou alguém, e recusá-la a todo aquele que o não fez. (Mat 25, 31-46).

Julgo portanto que, ao contrário do que desejariam os fundamentalismos (o fundamen-talismo muçulmano dos islamitas e o fundametalismo cristãos de vários grupos nos E.U.A.), não nos deixou receitas, pede-nos que juntemos estes muitos fios.

O Evangelho deste Domingo conta uma história para reflectir. Um patrão contrata de manhã cedo trabalhadores para a sua vinha, ajustando o salário habitual, um denário por jorna. Ao meio-dia, a meio da tarde e à tardinha contrata outros. Todos esperam que os primeiros recebam muito mais que os últimos, mas o patrão manda que o capataz entregue um denário a cada um.

Suponho que a intenção de Jesus é dizer-nos que estamos todos numa situação parecida.  Somos todos trabalhadores da sua vinha, uns melhores e outros piores. Um dia, estaremos todos junto à entrada do céu. Pode ser que Jesus apareça e diga a Pedro que abra a porta a todos. E ficará triste se algum de nós disser: “aquele não deve entrar”, ou “deve ficar na última fila”.

21 Set 08

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“Ide vós também para a minha vinha”

A parábola dos trabalhadores enviados à vinha em horas diferentes do dia sempre gerou grande dificuldade entre os leitores do Evangelho. É aceitável a maneira de actuar do dono, que dá o mesmo pagamento para quem trabalhou uma hora e para quem trabalhou uma jornada inteira? Ele não viola o princípio da justa recompensa? Os sindicatos hoje rebelar-se-iam contra quem se comportasse como este patrão.

A dificuldade nasce de um equívoco. Considera-se o problema da recompensa em abstracto e em geral, ou em referência à recompensa eterna no céu. Visto assim, realmente haveria uma contradição com o princípio segundo o qual Deus «dá para cada um segundo suas obras» (Rm 2, 6). Mas Jesus refere-se aqui a uma situação concreta, a um caso bem preciso: o único denário que é dado a todos é o Reino dos Céus que Jesus trouxe à terra; é a possibilidade de entrar para fazer parte da salvação messiânica. A parábola começa dizendo: «O Reino dos céus é como a história do patrão que saiu de madrugada…».

(…)

A parábola contém também um ensinamento de ordem espiritual da máxima importância: Deus chama todos e chama a todas as horas. O problema, em suma, é o chamamento e não tanto a recompensa. (…)

Quero chamar a atenção sobre um aspecto que talvez seja marginal na parábola, mas que é muito vivo na sociedade moderna: o problema do desemprego. À pergunta do proprietário: «Por que estais aí o dia inteiro desocupados?», os trabalhadores respondem: «Porque ninguém nos contratou». Esta resposta poderia ser dada hoje por milhões de desempregados.

Jesus não era insensível a este problema. Se Ele descreve tão bem a cena é porque muitas vezes seu olhar havia pousado compassivamente sobre aqueles grupos de homens sentados no chão, ou apoiados em uma porta, com um pé na parede, à espera de serem contratados. Esse proprietário sabe que os operários da última hora têm as mesmas necessidades que os outros; também eles têm filhos para alimentar, como os da primeira hora. Dando a todos o mesmo pagamento, o proprietário mostra levar em conta não só o mérito, mas também a necessidade. As nossas sociedades capitalistas baseiam a recompensa unicamente no mérito (com frequência mais nominal que real) e no tempo de serviço, e não nas necessidades da pessoa. No momento em que um jovem operário ou um profissional tem mais necessidade de ganhar para construir uma casa e uma família, é quando o seu pagamento é mais baixo, enquanto que no final da carreira, quando já se tem menos necessidade, a recompensa (especialmente em certas categorias sociais) chega às nuvens. A parábola dos operários da vinha nos convida a encontrar um equilíbrio mais justo entre as duas exigências, do mérito e da necessidade.

Comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – sobre a Liturgia da Palavra de domingo, 21 de setembro. (Mateus 20, 1-16a)

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