Sunday, September 21, 2008

25º Domingo do Tempo Comum - O comentário aos textos bíblicos, pelo Padre João Resina

É conhecida a beleza, profundidade e capacidade de síntese dos comentários aos textos bíblicos, escritos pelo padre João Resina. Pela primeira vez, Religionline publica aqui um desses textos, normalmente disponíveis também no site da Paróquia do Campo Grande, de Lisboa (onde, aliás, se podem consultar os dos domingos anteriores). Este é o referente ao 25º Domingo do Tempo Comum, liturgia celebrada neste domingo 21 de Setembro:

Vivemos num mundo que é globalmente rico, mas está cheio de violência, de injustiças, de miséria. Todos os anos morrem de fome mais de 30 milhões de pessoas. Os governantes dos países ricos têm mais em que pensar, o cidadão comum “não tem culpa”, “nem tem nada com isso”.

Apareceram grandes movimentos pretendendo que a solução se encontraria quando tudo fosse comum, quando, pelo menos, cessasse a propriedade privada dos meios de produção. E o resultado foi pior.

Reconheçamos que a vida é complicada. Para todo o ser vivo, e também para o homem, a existência significa uma luta. Nos irracionais e também em certos homens, a luta é muitas vezes sem mercê: destruir o inimigo, passar para a frente do que está ao lado, seja de que maneira for. Mas as grandes tradições humanas e sobretudo as religiões exaltaram aqueles que ajudam o necessitado, mesmo quando isso implica risco e prejuízo. O sacrifício é uma realidade humana que transcende a biologia e a economia.

Por outro lado, parece óbvio que a bondade se não limita à partilha. Há sociedades “mornas”, sem horizontes nem estímulos, onde tudo permanece igual ou retrocede. E há outras em que existe iniciativa. São hoje motivo de admiração alguns países do sudoeste asiático que em poucos anos arrancaram e conseguiram alcançar altos níveis de desenvolvimento. O segredo? – Os jovens, que começaram a correr para ganhar. E entre nós? Seria fácil verificar que a população jovem se divide em dois subconjuntos: há aqueles que alcançam muito boas classificações no secundário, entram para cursos superiores de prestígio, trabalham depois dia e noite e são final-mente investigadores, gestores e profissionais de nível internacional; e há os que entram com 10 valores nas Faculdades, abrem poucos livros e acabam na burocracia e na baixa política.

Parece-me significativo que Jesus, e depois S.Paulo, pregam o amor e a partilha, mas não substituem este mundo difícil por um mundo idealizado. S.Paulo certamente que não ignora a corrupção que invade o mundo desportivo; mas não receia comparar a vida, e também a
vida cristã, a uma corrida. “Não sabeis que na corrida dos estádios todos correm, mas só um recebe o prémio? Correi, pois, para o alcançardes.” (I Cor 9, 24). Nas parábolas de Jesus perpassa o empresário que promove os funcionários eficientes e despede um funcionário inútil. (Mat 25,14-30), um noivo que fecha a porta aos elementos do coro que não cumpriram bem. (Mat 25,1-13), um administrador desonesto que, justamente despedido, não desiste de procurar saída. (Luc 16,1-8). O mundo é assim. Mas a aprovação de Jesus vai para os que são fiéis, “nas coisas pequenas como nas grandes” (Luc 16,10). Admira o pastor que vai em busca de uma só ovelha perdida e o pai do filho pródigo, que compreende e perdoa como Deus compreende e perdoa (Luc 15,4-32). Aprova o semeador, que lança a semente à terra, não ignorando que muita se perde (Mat 13,1-9). Convida-nos a dar esmola com uma medida grande (Mat 4,24-25). Ensina que Deus não vai satisfazer o desejo de certos “justos”, sempre à espera de que Ele elimine os maus (Mat 13, 24-30). Anuncia que vai dar a vida eterna a todo aquele que ajudou alguém, e recusá-la a todo aquele que o não fez. (Mat 25, 31-46).

Julgo portanto que, ao contrário do que desejariam os fundamentalismos (o fundamen-talismo muçulmano dos islamitas e o fundametalismo cristãos de vários grupos nos E.U.A.), não nos deixou receitas, pede-nos que juntemos estes muitos fios.

O Evangelho deste Domingo conta uma história para reflectir. Um patrão contrata de manhã cedo trabalhadores para a sua vinha, ajustando o salário habitual, um denário por jorna. Ao meio-dia, a meio da tarde e à tardinha contrata outros. Todos esperam que os primeiros recebam muito mais que os últimos, mas o patrão manda que o capataz entregue um denário a cada um.

Suponho que a intenção de Jesus é dizer-nos que estamos todos numa situação parecida.  Somos todos trabalhadores da sua vinha, uns melhores e outros piores. Um dia, estaremos todos junto à entrada do céu. Pode ser que Jesus apareça e diga a Pedro que abra a porta a todos. E ficará triste se algum de nós disser: “aquele não deve entrar”, ou “deve ficar na última fila”.

21 Set 08

Posted by RELIGIONLINE at 19:45:02
Comments

One Response to “25º Domingo do Tempo Comum - O comentário aos textos bíblicos, pelo Padre João Resina”

  1. ´M. Eugénia C. Branco says:

    A profundidade teológica e a força da mensagem destes textos, profundidade e força urdidas não só na fé como no saber e na sabedoria deste padre cientista, insta a que se leve a sério a urgência da conversão ao Evangelho. Ao empenhamento na luta contra toda a espécie de sofrimento, de opressão e de injustiças que impedem o ser humano de usufruir da paz, da dignidade e da alegria a que Deus o chamou.
    M. Eugénia Carvalho e Branco.

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