Há quem entenda que, para ser sinal da novidade do Evangelho de Jesus nas nossas sociedades, o problema maior da Igreja é de linguagem. Falar num registo que as mentalidades laicas e seculares entendam seria um dos desafios maiores da comunidade eclesial. Será?, pergunto eu.
Começo por contar um pequeno episódio de que fui testemunha, há uns anos atrás. No intervalo de uma reunião de âmbito diocesano, um padre e professor de Moral e Religião Católica lamentava-se nos seguintes termos:
- “Eu já não sei o que hei-de fazer mais com os adolescentes que tenho como alunos. Esforço-me ao máximo por traduzir a mensagem cristã de modo a ser interpelativo para eles, mas a sensação que tenho é que eles não me ouvem, a mensagem não passa. É como se batesse numa parede”.
Alguém que estava presente e a seguir atentamente o desabafo inquiriu, meio a medo:
- “E será que tu ouves a mensagem desses adolescentes? Será que ela passa deles para ti?” O padre ficou , como se

diz na esgrima, “touché” e reconheceu, ali mesmo, que nunca lhe ocorrera pôr o problema desse modo. E a conversa lá seguiu o seu rumo. Tenho para mim que no conteúdo deste episódio reside um dos desafios mais prementes e decisivos com que hoje a Igreja se confronta: escutar e reconhecer.
Se Jesus ressuscitou, essa é a boa notícia que aqueles que acreditam têm para testemunhar e anunciar. Mas, ao mesmo tempo, como foi dito às mulheres que encontraram o seu túmulo vazio, Ele precederá os seus discípulos na Galileia (Mt 28,5-7). Isto é, os sinais da Ressurreição não somos nós apenas que os levamos aos outros que o não conhecem. Acreditamos que o Espírito de Deus opera para lá dos nossos horizontes e das nossas capacidades e que os frutos dessa acção nos interpelam e animam. Para tal, torna-se, porém, imprescindível escutá-lo, deixar-se surpreender, largar a auto-suficiência de quem se toma por dono da verdade e que olha os outros como seres deficitários até aderirem à nossa própria verdade.
O tipo de comunicação que predomina na cultura eclesiástica filia-se num modelo unidireccional e transferencial – de falar para os outros, dizer-lhes o que devem fazer – e é pobre do ponto de vista da atitude de reciprocidade e da interactividade, que coloque todos como caminhantes da mesma estrada e da mesma busca.
Quando somos confrontados com o repto de pensar os rumos a trilhar pela Igreja Católica em Portugal, esta atitude de escuta e de partilha, de humildade e de interrogação parece-me essencial.
É claro que desta atitude também deve resultar uma linguagem mais inteligível, tanto no conteúdo como na forma. É difícil encontrar um hierarca que fale como o comum dos mortais: que evite as frases feitas e a entoação afectada e que saiba, no exercício da sua função, participar de uma conversa tu-cá-tu-lá. Que argumente e que abra espaço para que o que diz seja argumentado e não deixe a impressão de viver noutro planeta. A humildade e escuta de que falo não é timidez ou jogo à defesa: é olhar os outros como iguais. Eu não sinto que tal aconteça muito, nos tempos que correm.
Mas isso acaba por não ser o essencial. Parece-me que os caminhos a seguir, no futuro, terão de passar, no seio da Igreja, por um reconhecimento cabal e inequívoco da dignidade dos homens e das mulheres. E meto aqui os homens porque a secundarização do papel da mulher, nomeadamente no que ao ministério sacerdotal diz respeito, constitui também um agravo à dignidade deles. Com as mudanças que ocorreram na sociedade no último século, o exemplo que a Igreja dá, nesta matéria, é, a meu ver, um contra-testemunho fatal.
O mesmo se diga relativamente à disciplina do celibato que é uma instituição certamente meritória e justificável, mas que não pode ser imposta, mas antes proposta e livre e responsavelmente assumida por quem para tal se sentir vocacionado. De resto, as normas sobre o celibato e, correlatamente, sobre a sexualidade, bem como a inflexibilidade doutrinal nestas matérias, não contribuem para tornar a igreja um sinal da alegria e disponibilidade evangélicas.
Entendo que afirmar isto não equivale a negar à Igreja o direito e o dever de apelar à exigência e à responsabilidade de cada pessoa e ao confronto com os valores do Evangelho. Mas ocorre perguntar se é preferível conquistar espaço para dialogar com as pessoas que vivem as suas situações e problemas próprios, frequentemente sem ninguém com quem trocar experiências, ou ficar a ‘falar sozinho’.
O envolvimento das pessoas e dos serviços da Igreja com todos, mas especialmente com os que mais carecidos estão de carinho, de pão e de justiça precisa de ter um reverso. Esse reverso é uma vida litúrgica e celebrativa cuidada e de qualidade, que constitua, para os frequentadores, habituais ou esporádicos, um espaço apelativo de encontro consigo mesmo e com Deus. Uma celebração burocrática e rotineira é uma celebração degrada e degradante e isso é uma negação nos termos. Se é celebração, não pode ser burocrática e fastidiosa. E a verdade é que, hoje em dia, a estética (designadamente musical) das nossas celebrações e dos espaços onde elas decorrem chega a ficar aquém do elementar bom gosto, para não falar do bom senso. Isto apesar do grande esforço que muitos fazem para que as coisas sejam de outro modo.
Abordar estes assuntos (e em outros que o espaço aqui não permite) é já de si problemático, visto que alguns entendem que debater e defender que estes e outros pontos devem integrar uma agenda de reflexão entre os cristãos constitui já por si uma falta grave. Consideram que a enunciação dos problemas fora do quadro de conversas reservadas representa um enfraquecimento da comunidade eclesial. Outros não o fazem em público por medo ou por táctica, receando os incómodos e as consequências. E enquanto lamentam a crise (de frequência dos sacramentos, de vocações…), vão preferindo que a situação se deteriore.
Ora é disto que é necessário arrepiar caminho. Não adianta que, na sequência da visita “ad limina”, se decidam meia dúzia de orientações pastorais, sem cuidar desta deterioração larvar, que mina, à partida, eventuais orientações que venham a ser definidas.
Ao contrário de alguns radicalismos que sobre estas matérias existem no espaço católico, não creio que o problema seja a hierarquia da Igreja. Noto, também entre os seus membros, inquietação e vontade de procura de novos caminhos e tenho a sensação de que, em diversas áreas, a liderança é como uma locomotiva que quer puxar uma geringonça envelhecida. E compreendo que a mudança, ainda que desejada, se não possa fazer sem muito tacto, procurando que o resultado represente um avanço e não um recuo. Somos nós todos, bispos, padres, leigos, religiosos, que precisamos de nos deixar abanar pelo Espírito de Deus, para descobrirmos o que significa, hoje e aqui, ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5, 13-15). O vento, como a poesia, sopra onde quer. Mesmo dos horizontes mais (in)suspeitos. Questão é saber e querer acolhê-lo e escutá-lo.
Manuel Pinto
Uma parte deste texto foi publicada na revista Fátima Missionária, de Janeiro de 2008. Por razões de espaço, o texto não pôde ser incluído integralmente.
(Foto: The Village Chapel /Bald Head Island, NC)