Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

"Obrigado aos 'sábios' de Roma"

... assim se intitula a coluna de hoje do históriador Rui Ramos, no Público.
Começa por agradecer ao grupo de docentes que levou ao cancelamento da visita do papa à Universidade "La Sapienza" de Roma. "No fim - observa - deram-nos a todos um pretexto para rever matéria sobre teoria e história da tolerância. (...) Talvez os "sábios" tenham aprendido alguma coisa e não nos proporcionem tão cedo outra oportunidade".
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Terça-feira, Janeiro 22, 2008

O abanão do Espírito, que nos falta



Há quem entenda que, para ser sinal da novidade do Evangelho de Jesus nas nossas sociedades, o problema maior da Igreja é de linguagem. Falar num registo que as mentalidades laicas e seculares entendam seria um dos desafios maiores da comunidade eclesial. Será?, pergunto eu.
Começo por contar um pequeno episódio de que fui testemunha, há uns anos atrás. No intervalo de uma reunião de âmbito diocesano, um padre e professor de Moral e Religião Católica lamentava-se nos seguintes termos:
- “Eu já não sei o que hei-de fazer mais com os adolescentes que tenho como alunos. Esforço-me ao máximo por traduzir a mensagem cristã de modo a ser interpelativo para eles, mas a sensação que tenho é que eles não me ouvem, a mensagem não passa. É como se batesse numa parede”.
Alguém que estava presente e a seguir atentamente o desabafo inquiriu, meio a medo:
- “E será que tu ouves a mensagem desses adolescentes? Será que ela passa deles para ti?” O padre ficou , como se diz na esgrima, “touché” e reconheceu, ali mesmo, que nunca lhe ocorrera pôr o problema desse modo. E a conversa lá seguiu o seu rumo. Tenho para mim que no conteúdo deste episódio reside um dos desafios mais prementes e decisivos com que hoje a Igreja se confronta: escutar e reconhecer.
Se Jesus ressuscitou, essa é a boa notícia que aqueles que acreditam têm para testemunhar e anunciar. Mas, ao mesmo tempo, como foi dito às mulheres que encontraram o seu túmulo vazio, Ele precederá os seus discípulos na Galileia (Mt 28,5-7). Isto é, os sinais da Ressurreição não somos nós apenas que os levamos aos outros que o não conhecem. Acreditamos que o Espírito de Deus opera para lá dos nossos horizontes e das nossas capacidades e que os frutos dessa acção nos interpelam e animam. Para tal, torna-se, porém, imprescindível escutá-lo, deixar-se surpreender, largar a auto-suficiência de quem se toma por dono da verdade e que olha os outros como seres deficitários até aderirem à nossa própria verdade.
O tipo de comunicação que predomina na cultura eclesiástica filia-se num modelo unidireccional e transferencial – de falar para os outros, dizer-lhes o que devem fazer – e é pobre do ponto de vista da atitude de reciprocidade e da interactividade, que coloque todos como caminhantes da mesma estrada e da mesma busca.
Quando somos confrontados com o repto de pensar os rumos a trilhar pela Igreja Católica em Portugal, esta atitude de escuta e de partilha, de humildade e de interrogação parece-me essencial.
É claro que desta atitude também deve resultar uma linguagem mais inteligível, tanto no conteúdo como na forma. É difícil encontrar um hierarca que fale como o comum dos mortais: que evite as frases feitas e a entoação afectada e que saiba, no exercício da sua função, participar de uma conversa tu-cá-tu-lá. Que argumente e que abra espaço para que o que diz seja argumentado e não deixe a impressão de viver noutro planeta. A humildade e escuta de que falo não é timidez ou jogo à defesa: é olhar os outros como iguais. Eu não sinto que tal aconteça muito, nos tempos que correm.
Mas isso acaba por não ser o essencial. Parece-me que os caminhos a seguir, no futuro, terão de passar, no seio da Igreja, por um reconhecimento cabal e inequívoco da dignidade dos homens e das mulheres. E meto aqui os homens porque a secundarização do papel da mulher, nomeadamente no que ao ministério sacerdotal diz respeito, constitui também um agravo à dignidade deles. Com as mudanças que ocorreram na sociedade no último século, o exemplo que a Igreja dá, nesta matéria, é, a meu ver, um contra-testemunho fatal.
O mesmo se diga relativamente à disciplina do celibato que é uma instituição certamente meritória e justificável, mas que não pode ser imposta, mas antes proposta e livre e responsavelmente assumida por quem para tal se sentir vocacionado. De resto, as normas sobre o celibato e, correlatamente, sobre a sexualidade, bem como a inflexibilidade doutrinal nestas matérias, não contribuem para tornar a igreja um sinal da alegria e disponibilidade evangélicas.
Entendo que afirmar isto não equivale a negar à Igreja o direito e o dever de apelar à exigência e à responsabilidade de cada pessoa e ao confronto com os valores do Evangelho. Mas ocorre perguntar se é preferível conquistar espaço para dialogar com as pessoas que vivem as suas situações e problemas próprios, frequentemente sem ninguém com quem trocar experiências, ou ficar a ‘falar sozinho’.
O envolvimento das pessoas e dos serviços da Igreja com todos, mas especialmente com os que mais carecidos estão de carinho, de pão e de justiça precisa de ter um reverso. Esse reverso é uma vida litúrgica e celebrativa cuidada e de qualidade, que constitua, para os frequentadores, habituais ou esporádicos, um espaço apelativo de encontro consigo mesmo e com Deus. Uma celebração burocrática e rotineira é uma celebração degrada e degradante e isso é uma negação nos termos. Se é celebração, não pode ser burocrática e fastidiosa. E a verdade é que, hoje em dia, a estética (designadamente musical) das nossas celebrações e dos espaços onde elas decorrem chega a ficar aquém do elementar bom gosto, para não falar do bom senso. Isto apesar do grande esforço que muitos fazem para que as coisas sejam de outro modo.
Abordar estes assuntos (e em outros que o espaço aqui não permite) é já de si problemático, visto que alguns entendem que debater e defender que estes e outros pontos devem integrar uma agenda de reflexão entre os cristãos constitui já por si uma falta grave. Consideram que a enunciação dos problemas fora do quadro de conversas reservadas representa um enfraquecimento da comunidade eclesial. Outros não o fazem em público por medo ou por táctica, receando os incómodos e as consequências. E enquanto lamentam a crise (de frequência dos sacramentos, de vocações…), vão preferindo que a situação se deteriore.
Ora é disto que é necessário arrepiar caminho. Não adianta que, na sequência da visita “ad limina”, se decidam meia dúzia de orientações pastorais, sem cuidar desta deterioração larvar, que mina, à partida, eventuais orientações que venham a ser definidas.
Ao contrário de alguns radicalismos que sobre estas matérias existem no espaço católico, não creio que o problema seja a hierarquia da Igreja. Noto, também entre os seus membros, inquietação e vontade de procura de novos caminhos e tenho a sensação de que, em diversas áreas, a liderança é como uma locomotiva que quer puxar uma geringonça envelhecida. E compreendo que a mudança, ainda que desejada, se não possa fazer sem muito tacto, procurando que o resultado represente um avanço e não um recuo. Somos nós todos, bispos, padres, leigos, religiosos, que precisamos de nos deixar abanar pelo Espírito de Deus, para descobrirmos o que significa, hoje e aqui, ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5, 13-15). O vento, como a poesia, sopra onde quer. Mesmo dos horizontes mais (in)suspeitos. Questão é saber e querer acolhê-lo e escutá-lo.

Manuel Pinto

Uma parte deste texto foi publicada na revista Fátima Missionária, de Janeiro de 2008. Por razões de espaço, o texto não pôde ser incluído integralmente.
(Foto: The Village Chapel /Bald Head
Island, NC)
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Segunda-feira, Janeiro 21, 2008

Gestos de intolerância

Gestos de intolerância levaram, na semana finda, o papa Bento XVI a desmarcar uma deslocação à Universidade La Sapienza, de Roma, que tinha agendada a convite daquela instituição. Os docentes da Faculdade de Física e um grupo de estudantes manifestaram-se contra a ida do papa, argumentando com as palavras de Bento XVI, em 1990, a propósito do processo de Galileu e das concepções científicas subjacentes a esse processo.

Ficam aqui alguns documentos sobre este caso:
- Alocução de Bento XVI em La Sapienza
Prevista para a cerimónia solene da abertura do ano lectivo, na qual o papa deveria ter estado presente, foi enviada ao reitor para ser lida na ocasião (a tradução portuguesa foi publicada pela agência Zenit).
- As palavras do então cardeal Ratzinger sobre Galileu em 1990

* * *

Alocução de Bento XVI na Universidade  «La Sapienza”, em Roma.

Magnífico Reitor,
Autoridades políticas e civis,
Ilustres docentes e pessoal técnico-administrativo,
Caros jovens estudantes!

Para mim é motivo de profunda alegria encontrar a comunidade de “La Sapienza”, universidade de Roma, por ocasião da inauguração do ano acadêmico. Desde há séculos, esta Universidade marca o caminho e a vida da cidade de Roma, fazendo frutificar as melhores energias intelectuais em todo campo do saber. Seja no tempo em que, após a fundação querida pelo Papa Bonifácio VIII, a instituição estava em direta dependência da autoridade eclesiástica, seja após isso, quanto o Studium Urbis se desenvolveu como instituição do Estado italiano, a vossa comunidade acadêmica conservou um grande nível científico e cultural, que a coloca entre as mais prestigiosas universidades do mundo.

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Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

Escravatura do século XXI

O tráfico de pessoas «representa uma das situações mais repugnantes de exploração da dignidade humana e é uma forma de escravatura do século XXI», considerou em Fátima o alto-comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, Rui Marques.
Falando em Fátima, numa iniciativa da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, Rui Marques reconheceu as dificuldades do sistema judicial em condenar os responsáveis das redes de tráfico, que se escudam em mecanismos legais para protelar as decisões. Defendeu, por outro lado, que os atentados contra a dignidade da pessoa devem ser classificados como os «crimes mais graves» do regime jurídico, penalizando aqueles que atingem directamente os indivíduos, seja a exploração sexual, laboral ou atentados à integridade física.
Rui Marques afirmou que é «dramática esta experiência de ser escravo desta rede que a explora do ponto de vista sexual ou laboral ou mesmo tráfico de órgãos».
Para o alto-comissário, o trabalho das instituições da igreja é «insubstituível», porque elas são, em muitos casos, os «verdadeiros atores intervenientes no terreno».
(Com base na agência ZENIT)
Escrito por RELIGIONLINE em 07:35:32 | Link permanente | Comments (0) |

Domingo, Janeiro 13, 2008

Sobre a confissão

Frei Bento Domingues escreve, no Público, sobre "O embaraço da confissão", mais um assunto em que parece ir uma grande distância entre o preceituado e o praticado. Algumas notas do texto do autor:

"O mal-estar vem de longe, reforçou-se com o Vaticano II e há quem tema e quem deseje que a confissão desapareça de vez. Entre nós, foi D. António Ferreira Gomes que, nas suas Cartas ao Papa, escreveu o que muitos pensavam e não diziam: "Factos são factos e o facto é que hoje, em grande escala, pequenos e grandes fogem do confessionário, sendo essa a maior causa da "descrença" de muitos que intimamente aceitam Cristo e o Evangelho." Segundo o historiador J. Delumeau (1), todas as cronologias destinadas aos alunos do ensino secundário deveriam dar um grande relevo à decisão do IV Concílio de Latrão (1215) que tornou a confissão anual obrigatória. Esta norma modificou a vida religiosa e psicológica dos homens e das mulheres do Ocidente e pesou espantosamente nas mentalidades, até à Reforma nos países protestantes e até ao século XX nos que permaneceram católicos. Como observa o monge beneditino Philippe Rouillard, professor de Teologia dos Sacramentos e da Liturgia, em muitas igrejas, os confessionários já só têm um valor de vestígio, se não foram comprados por antiquários para os transformar noutra coisa. V. Gómez Mier descreveu um desejado Adiós al Confesionario. Sem se poder generalizar, a verdade é que, no Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em "ouvir confissões", são cada vez menos os fiéis que pedem para "se confessar" e a maior parte dos que participam na missa de domingo avança para a Comunhão sem recorrer a esse ritual."

"(...) não estamos completamente às escuras acerca da história da confissão. Além de estudos parciais, da "História" de C. Vogel sobre o pecador e a penitência na Igreja antiga e na Idade Média e da obra muito conhecida de J. Delumeau, um grupo de investigadores reuniu-se, durante 25 anos, para nos oferecer excelentes versões das "Práticas da confissão", desde os Padres do Deserto (IV-V) até ao Vaticano II. Em face da contestação protestante, o Concílio de Trento (1545-1563) procurou fazer do sacramento da penitência o sustentáculo de toda a vida cristã. Se isto teve um grande êxito em muitos casos, acabou por minimizar a importância da Eucaristia e de alterar o seu verdadeiro sentido. A hostilidade que gerou, a partir do século XVIII, coincide com a afirmação progressiva dos direitos humanos e da autonomia da consciência, na qual ninguém pode mandar. No século XX, a Congregação dos Sacramentos decidiu em 1910, por decreto, a idade do "uso da razão" - por volta dos 7 anos - para aceder à Primeira Comunhão eucarística, precedida de confissão. As ameaças com as penas do inferno para quem não confessava os pecados mortais, incluindo, então, as crianças e os adolescentes, foi talvez um dos maiores desastres da pastoral da Igreja em toda a sua história. Não vale a pena perder muito tempo com esse detestável passado inquisitorial.

" As orientações na evangelização e na pastoral devem ter em conta a diversidade cultural, a promoção dos direitos humanos e o respeito pela consciência inviolável de cada um. No campo propriamente sacramental, é preciso, antes de mais, respeitar a sua hierarquia. Se a porta é o Baptismo, o mais importante dos sacramentos é a Eucaristia, que é também o grande sacramento da confissão dos pecados, da misericórdia e do perdão de Deus. Esta dimensão, iluminada pela proclamação da palavra do Evangelho, percorre toda a missa. Quando não se ajuda a perceber isto, arruina-se o que se pretende salvar com a "confissão auricular". Certas práticas da confissão não foram apenas grandes crimes do ponto de vista cristão, foram também uma constante e infame desvalorização da Eucaristia como sacramento do perdão. A Igreja viveu cerca de 12 séculos sem a norma da confissão auricular e Santo Agostinho".
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Sábado, Janeiro 05, 2008

Desigualdades

"Os presidentes das empresas portuguesas ganham cerca de 30 vezes mais que os trabalhadores por conta de outrem", ou seja, ganham, em média 21.700 euros mês, contra cerca de 720 euros de salário médio dos trabalhadores. Os dados relativamente aos gestores acabam de ser divulgados pela consultora Mercer que mostra haver, mesmo a este nível, gestores que auferem 60, cem e até 300 vezes o ordenado médio dos trabalhadores das respectivas empresas, conforme mostrava a SIC no seu jornal da noite de sexta-feira, dia 4

Estes dados vêm de encontro a um ponto da mensagem de Ano Novo, que há dias dirigiu ao país o presidente da República, Cavaco Silva, quando observou:

Sem pôr em causa o princípio da valorização do mérito e a necessidade de captar os melhores talentos, interrogo-me sobre se os rendimentos auferidos por altos dirigentes de empresas não serão, muitas vezes, injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores.
Este ponto da mensagem presidencial mereceu da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) o comentário de que "a alta remuneração de um gestor não é necessariamente algo negativo".
Estamos conversados, se é apenas isto que uma associação cristã tem a dizer neste contexto.
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Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Uma "laicidade positiva"

"(...) Como doutrina e como prática, a laicidade radical que considera a religião como um factor de atraso e obscurantismo a banir do espaço público, e se possível da estratosfera, está de facto completamente ultrapassada, não só em França, mas onde quer que ela se manifeste. Existe apenas em cabeças dogmáticas que fizeram do laicismo e do anticlericalismo a sua própria religião. Na prática, quer os cidadãos, quer o poder político mantêm com as confissões religiosas uma relação natural e descontraída. Isto é uma realidade no mundo ocidental e também em Portugal, onde partidos políticos, comunicação social, ministros e Presidentes visitam igrejas, sinagogas, mesquitas e mantêm contactos com as lideranças religiosas quando tal é necessário.
A que se deve esta evolução, absolutamente impensável ainda há duas décadas? A uma maior religiosidade dos cidadãos e, em consequência, a um maior respeito pelas suas instituições? A resposta é, claramente, não! Paradoxalmente, e em particular no Ocidente europeu, o fenómeno religioso tem vindo a conquistar espaço na vida pública em proporção inversa à prática religiosa dos cidadãos. O lugar que hoje é dado à expressão pública das confissões religiosas é o resultado, em primeiro lugar, do apaziguamento do trauma da violência inaugural da separação Estado/Igreja; em segundo lugar, do reconhecimento de que num mundo de opressão política e corrupção moral os valores religiosos oferecem um universo moral alternativo às utopias ateístas e seculares. "Se não tiveres Deus", afirma T.S. Eliot, "terás de te prostrar perante Hitler ou Estaline." Certo ou errado, a verdade é que a religião tem sido frequentemente um fermento no combate às ditaduras políticas e militares: contra os regimes comunistas no Leste europeu, contra as próprias ditaduras militares seculares no mundo islâmico, onde as mesquitas são frequentemente, e com os excessos que se conhecem, o único centro de oposição política, ou mais recentemente na resistência dos monges birmaneses a um dos regimes mais opressivos do mundo. Digamos que no último quartel do século XX a história reabilitou a religião, com os seus lados positivos, mas também com os seus excessos brutais. "La revanche de Dieu", como lhe chamou Gilles Kepell.
O terceiro elemento da visibilidade actual do fenómeno religioso é a diversidade religiosa e particularmente a presença maciça do islão na Europa. Contrariamente ao judaísmo, habituado a viver em diáspora durante milénios, conformando-se às leis dos países, segundo a máxima talmúdica "a lei do pais é a nossa lei", o islão não tem experiência histórica da separação entre a vivência cívica e a religiosa. Assim, a presença islâmica é uma presença religiosa visível e culturalmente diversa que mexe com o espaço público e representa um desafio para uma Europa habituada a ver-se como um "clube cristão". A questão que a diversidade religiosa coloca - e que é hoje absolutamente central - é como conviver harmoniosamente entre religiões diferentes e entre religiosos e ateus, respeitando e partilhando o espaço comum. É aqui que a questão da laicidade positiva, ou seja, uma visão liberal da laicidade, feita de negociação permanente e de equilíbrio das liberdades individuais e colectivas, pode dar uma resposta. Só ela permite a plena realização pessoal e cívica que para muitas pessoas passa pela prática de uma religião. Ao estimular uma prática religiosa tolerante e respeitadora das convicções alheias, a laicidade positiva é também um antídoto contra os fundamentalismos religiosos e laicos.(...)"

Esther Mucznik, A Desforra de Deus, Público, 3.1.2007
[Para ler/ouvir o discurso que motivou a coluna de Mucznik, clicar AQUI]
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