Thursday, November 6, 2008

Conversando com Françoise Dolto

José Tolentino Mendonça, Teólogo

Há cem anos nascia Françoise Dolto (1908 - 1988).
A psicanalista tinha, além do apartamento parisiense,
onde viveu e morreu, uma casa de férias
em Antibes, a que chamou “La Soledad”. Podemos
imaginar a razão desse nome dado a um espaço
conquistado às rotinas e fadigas, abrigo de intimidade,
criação e silêncio. Um dos
seus últimos livros leva também
esse nome. É um volume que recolhe
dispersos e uma longa conversa
acerca do lugar da solidão (e, logo,
sobre o desejo de comunhão), e seus
efeitos sobre construção inacabada
e frágil da vida.
Aí, conversando sobre a solidão,
Françoise Dolto irrompe, inesperadamente,
a falar da Trindade. E modo como o faz,
não a partir das categorias catequéticas tradicionais,
mas com a linguagem que ela sempre usou
para avaliar e cuidar da vida interior, pode ser muito
iluminante. Na tradição cristã, há a consciência
que o discurso sobre a Trindade nos obriga a trocar
as palavras por balbucios. Agostinho de Hipona,
por exemplo, demorou dezasseis anos a concluir o
seu Tratado “De Trinitate”, e ele próprio confessa,
com algum humor: “Ainda jovem, dei início à escrita
destes livros: só na velhice dei-os a público”.
A simplicidade de Dolto, recorda-nos, porém, os
benefícios de um modo didáctico de apresentar a
Trindade, o que passará, certamente, pelo testar
de novas linguagens. Para a reputada psicanalista,
o esquema trinitário está próximo da experiência
que todo o sujeito faz na organização do seu
mundo interior, na maturação de si. Ela
escreve: “Acho maravilhoso encontrar em
Deus a Trindade, essa relação de amor a
três. É algo que encontramos justamente
no desejo de viver de cada um de nós.
Assumimos aí o nosso papel no interior de
uma situação triangular: pai, mãe, fi lho.
[…]O facto de remontar à Trindade, ou
seja, aos três desejos divinos circulantes,
é extraordinário, pois foi assim que fomos
concebidos”.
Mas não só. Todos os “segundos nascimentos”,
sempre que a vida nos impele a um recomeço,
seja a partir de feridas e perdas, seja a partir de
encontros e esperanças, o “esquema trinitário” énos
imprescindível. “A nossa solidão só pode ser
curada quando expressa criativamente e quando
ajudada por alguma outra pessoa, que cria assim
uma situação triangular. Somos dois, conversamos:
o terceiro é a palavra. A palavra, que vem sempre
de outro, prova que somos três”.

In Página 1, RR, 6.11.2008

Posted by RELIGIONLINE at 22:40:26
Comments

Leave a Reply