Sunday, November 9, 2008

Os dias da América

 Sob este título, a coluna semanal de Eduardo Madureira, no Diário do Minho, assinala um acontecimento histórico transcendente, traduzido na (desencadeado pela) vitória de Barack Obama para o cargo de presidente dos Estados Unidos da América:

Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008. Umas vezes, só; acompanhado, outras, um negro está, neste dia, nas primeiras páginas dos diários dos Estados Unidos da América. Raras vezes, não as ocupa na totalidade. Os títulos diferem pouco. Frequentemente, há uma única palavra: Obama. Não faltam também os diários que escolhem o vocabulário sabendo que estão a fazer primeiras páginas sobre um raro acontecimento histórico. “Obama Makes History”, escreve The Washington Post. Outros jornais, menos conhecidos, sublinham o mesmo. “History is made”, diz o Burlington County Times, uma publicação de New Jersey. O The Palm Beach Post afirma apenas: “History”.

O site Newseum, que mostra as primeiras páginas de muitas centenas de diários de todo o mundo, tem, no topo, um pedido de paciência aos internautas. Há, nestas horas, demasiada gente a espreitar o quiosque virtual que, por isso, executa o seu trabalho muito lentamente. As imagens dos jornais, que, num dia normal, aparecem instantaneamente, demoram, neste dia histórico, longos minutos a surgir.

Quando não aparece só, Barack Hussein Obama tem, em algumas fotografias, a companhia da mulher, Michelle LaVaughn Obama, e, noutras, à presença da mulher, acrescenta-se a das filhas, Malia e Sasha. Têm um ar encantador estas duas crianças que, com certeza, não imaginam o quanto representa o feito que celebram. Ann Nixon Cooper, uma mulher negra de 106 anos que Obama traz ao seu discurso, essa, compreende-o bem. Mesmo que os próximos tempos não estejam à altura do momento presente, ela sabe exactamente o que, com esta eleição, mudou. Há jornais que falam de mudança nas suas primeiras páginas e a principal mudança foi a que tornou possível que um negro, que, para este continente, vinha como escravo no século XVII, seja presidente dos Estados Unidos da América.

No dia seguinte, quinta-feira, Barack Obama tomará conta das primeiras páginas de jornais de todos os continentes. Algumas são assaz eficazes. O belga DeMorgen destacará a palavra “Change” e espalhará pela primeira página a sua tradução em várias línguas, incluindo a portuguesa. Outros jornais, como o belga De Standaard ou o sueco Aftonbladet, farão a manchete com uma língua estrangeira: “Yes, We can”.

Embora não sabendo, na quarta-feira, à hora do fecho da edição, quem será o vencedor das eleições dos Estados Unidos da América, o influente El Periódico de Catalunya arrisca, todavia, e coloca, na totalidade da primeira página das edições em castelhano e catalão, uma impressionante fotografia, a preto e branco, do rosto de um negro. Não é Barack Obama, mas a vitória também pertence a este outro americano.

De facto, quarenta anos depois de ter sido assassinado, Martin Luther King triunfa. Muitos de nós hão-de morrer sem ter visto o fim da segregação e da discriminação, escreveu ele num texto intitulado “Sonhos desfeitos” (Força para amar. Lisboa: Moraes, 1969. 2.ª ed.), em que afirmava a necessidade de prosseguir o combate não-violento pelos direitos cívicos. “Aceitemos o desapontamento finito, mas nunca percamos a esperança infinita. Só assim conseguiremos viver sem o peso do azedume e sem o escape do ressentimento”, proclama.

Martin Luther King fala, frequentemente, como o apóstolo Paulo, subscrevendo que “Paulo contribuiu mais para promover a ideia da independência e da liberdade do que qualquer outro homem que tenha pisado o solo ocidental”. Escreve, aliás, ele próprio, uma “Carta de S. Paulo aos cristãos da América” (igualmente incluída no livro referido): “Exorto-vos, pois, a libertar-vos de qualquer espécie de segregação; representa um desmentido flagrante à nossa unidade em Cristo. Ela substitui a relação entre duas pessoas por uma relação entre pessoa e coisa, relegando pessoas para a categoria de coisas. Isto fere a alma e degrada a personalidade; inflige nos segregados um sentimento de inferioridade, ao mesmo tempo que imprime em quem segrega uma noção errada sobre a sua própria superioridade; destrói a comunidade e impossibilita a fraternidade. A estrutura filosófica do cristianismo opõe-se diametralmente à estrutura filosófica da segregação racial”.

São sempre poderosas as palavras de Martin Luther King. A sua vida exemplar fortalece as suas imprecações e os seus incitamentos. As diversas agressões violentas de que foi alvo e o seu assassinato tornam mais vibrante o que diz sobre a esperança: “O cristianismo sustenta que o mal contém o germe da sua própria destruição. A História é simplesmente a história das forças do mal que avançam com um ímpeto aparentemente irresistível para serem depois vencidas pelas forças da justiça”.

Diz ainda Martin Luther King que “os Hitlers e os Mussolinis podem ter a sua época e, durante uns tempos, dispor de um poder enorme espalhando-se como raízes de árvores gigantescas, mas não tardam em ser arrancadas e cortadas como simples ervas daninhas”. Enfatiza a ideia, citando Vítor Hugo: “Quando descreve nos Miseráveis a batalha de Waterloo, diz: ‘Seria possível a Napoleão ter vencido esta batalha? Respondemos que não. Porquê? Por causa de Wellington? Por causa de Blücher? Não: por causa de Deus. Napoleão era responsável perante o Infinito, e a sua queda tinha sido decretada; vexara Deus. Waterloo não foi uma batalha; foi uma troca de posições no Universo’”.

A eleição de Barack Hussein Obama permite a retórica exaltada das ocasiões singulares. Mas forçoso é reconhecer que muito caminho se fez desde que, há quarenta e cinco anos, Martin Luther King foi a Washington dizer: “I have a dream”. O “sonho” foi, na quinta-feira, para o topo da primeira página de um diário da África do Sul, The Times, levado por Nelson Mandela, outra enorme figura do nosso tempo. Olhando para estes dias, observa que “nenhuma pessoa em qualquer lugar do mundo pode deixar de ousar sonhar”.

Posted by RELIGIONLINE at 14:19:04
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