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[...] textos como o do profeta Miqueias, meditado na Missa de ontem: "Qual é o deus semelhante a Vós que perdoa o pecado e absolve a culpa deste resto da vossa herança? Não guarda para sempre a sua ira, porque prefere a misericórdia. Ele voltara a ter piedade de nós, pisara aos pés as nossas faltas, lançara para o fundo do mar todos os nossos pecados." É, no entanto, uma parábola do Evangelho de S. Lucas, também proclamada ontem, que constitui uma revolução teológica, isto é, uma alteração radical nas concepções de Deus. É a "parábola do filho pródigo". Esta designação corrompe o seu alcance mais profundo, pois não se parece nada com qualquer pedagogia exemplar, tanto para rebeldes como para bem-comportados. Surge, nesta parábola, como um "mau educador" em qualquer escola de pais. Aqui sim, pode-se falar de um bem-aventurado mau exemplo! Deus aura os seres humanos não pelo que eles fazem ou deixam de fazer, mas pela sua infinita, misteriosa, paradoxal e incompreensível bondade, com uma inclinação preferencial por todos os perdidos da história. Deus não sabe culpabilizar, mas perdoar, abrir o futuro.
3. Na Missa de hoje, é proclamado o grande Evangelho da revolução religiosa (Jo 4): Jesus e a samaritana, a mulher de mais de cinco maridos. Tendo em conta a mentalidade e a hostilidade religiosa entre judeus e samaritanos, tudo nessa história é explosivo: Jesus, um judeu, a falar a sós com uma mulher e, para mais, uma samaritana nada recomendável.
Adivinha a sua história, não para a repreender ou culpabilizar, mas para entrarem numa comunhão mística. Os próprios discípulos, com os seus preconceitos, não podiam compreender aquele comportamento.
O diálogo entre Jesus e a samaritana é uma grande referência para a teologia do diálogo intercultural e inter-religioso, para o papel das mulheres na descoberta da essência da religião e na arte da evangelização inculturada. Ela não só recebeu a revelação de que Jesus era o Messias esperado, como levou o próprio Jesus a ser reconhecido pelos seus concidadãos como o Salvador do mundo. É à samaritana que Jesus revela que Deus não está anexado nem ao Templo de Jerusalém nem ao Templo do monte de Samaria: "Os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade."
Ao contrário do que julga uma pastoral míope, o futuro do cristianismo depende, em primeiro lugar, da redescoberta da revolução teológica de Jesus de Nazaré."
Fr. Bento Domingues, in Público, 24.2.2008