Domingo, Março 16, 2008

Nunca conseguiremos provar se Deus existe

No Público de hoje, o caderno P2 publica uma entrevista de António Marujo ao teólogo e padre dominicano Jacques Arnould, que esteve na Universidade Católica a fazer duas conferências sobre evolucionismo e criação.

Padre dominicano, o francês Jacques Arnould trabalha desde 2001 no Centro Nacional de Estudos Espaciais. Diz que é preciso que as religiões não tenham medo da ciência mas que mantenham o espírito crítico para com o trabalho científico. E não tem dúvidas em dizer que nunca se demonstrará se Deus existe ou não.

Voltar a misturar teologia e ciência seria "um erro grave", afirma o padre dominicano Jacques Arnould. Membro da Ordem dos Pregadores (frades dominicanos), Arnould, de 46 anos, foi convidado da Semana de Estudos Teológicos da Universidade Católica, onde proferiu duas conferências, sobre a teologia depois de Darwin, o criacionismo e o inteligent design. Em entrevista ao P2, falou do encontro do Papa com os antigos alunos - cujas actas estão publicadas em Criação e Evolução, ed. Univ. Católica -, visto por alguns como uma tentativa de reabilitar o criacionismo.
Trabalha no Centro Nacional de Estudos Espaciais [CNES] francês. Espera que nas viagens espaciais se encontre Deus?
Não sei se poderemos descobrir Deus nas viagens espaciais. Não sei onde está Deus. Mas os que estão empenhados na conquista espacial não afastaram Deus do seu empreendimento. Gagarin [primeiro astronauta soviético], quando regressou do seu primeiro voo e lhe perguntaram se vira Deus, respondeu: "Não, não vi." Mas há muitos outros testemunhos de astronautas e outras pessoas que não hesitaram em colocar Deus e o religioso nas actividades espaciais. Os astronautas americanos que leram a Bíblia à volta da Lua, as tripulações que são abençoadas por padres ortodoxos na Rússia...
E se um dia descobrirmos outra civilização, num planeta diferente, esses seres podem também acreditar em Deus?
Ninguém sabe. A questão não será tanto o que eles pensam, mas como reagiremos nós. Há muito tempo que nos preparamos, pela imaginação, para um tal encontro - mesmo se não sabemos se ele terá lugar, nem quando. De um ponto de vista científico, isso seria um acontecimento extraordinário.
A Igreja trabalha há muito tempo [sobre isto]. É uma velha questão filosófica e também teológica. No século XIII houve um debate em Paris, sobre se podia haver outros mundos. A resposta foi: não é a nós que compete restringir a capacidade criadora de Deus. Se ele queria criar outros mundos habitados, outros seres, quem o pode impedir?
Seria o mesmo Deus?
Do ponto de vista cristão, sim. As pessoas podem ficar decepcionadas porque querem respostas mais definitivas, mas não é a nós que compete limitar a capacidade criadora de Deus. Deixemos Deus desenvencilhar-se com esses seres, se ele quis um dia criá-los. A nós, cabe acolher a novidade e a diferença.
Criacionismo avança
Qual é o seu trabalho nas questões éticas e culturais da investigação espacial?
O CNES é uma das raras agências espaciais que instituiu um interesse pela dimensão ética. A Agência Espacial Europeia fê-lo, mas centrada no aspecto jurídico. O meu trabalho é simples: em todas as ocasiões possíveis, introduzo a questão filosófica das consequências de dada actividade: reflexão com os astronautas, protecção planetária (por exemplo, não poluir Marte quando vamos explorar o planeta).
É um preocupação ecológica de âmbito alargado?
Sim. Ao vermos a Terra a partir do espaço, isso pode permitir olhá-la de outro modo, aprender no espaço o que se pode aplicar à Terra: a maneira de considerar o planeta, o estatuto jurídico do espaço como património comum da humanidade.
Os criacionistas estão a ganhar terreno na Europa?
Sim. Estou espantado, porque a primeira vez que ouvi falar de criacionistas foi há dez anos, mas nessa altura o fenómeno estava reduzido aos Estados Unidos e ao mundo anglo-saxónico. Nestes dez anos, sob formas novas, em particular com o que se designa o design inteligente, tornou-se mais importante no meio cristão. No meio muçulmano, também há uma pressão criacionista - mesmo em países como a França ou a Bélgica.
Isto cria um problema científico, político (por causa do modo de ensinar hoje as ciências - não estivemos muito atentos à dificuldade de ensinar a evolução biológica na escola) e religioso, porque se trata de uma reivindicação religiosa.
No discurso que motivou o cancelamento da ida do Papa à Universidade La Sapienza, Ratzinger dizia que havia uma crise de fé na religião, mas também na ciência. É isso que leva ao sucesso do criacionismo?
Estamos em sociedades, pelo menos na Europa, que estão em crise de sentido, dos valores, da referência para as escolhas de sociedade. Alguns cientistas ateus reconhecem que a ciência negou os valores religiosos e filosóficos sem os substituir. Não é o desencantamento do mundo, como alguns dizem, mas uma crise de valores.
As pessoas procuram coisas relativamente simples. Será que falhámos o ensino da evolução? Não. Mas um discurso simplista como o criacionista tem resultados.
Um erro grave
E as pessoas sentem que a ciência não pode resolver tudo?
Sim. Mas não devemos dizer que, como a ciência não fez, a religião fará. Pretender que o outro seja fraco para que nós possamos dar a solução seria um erro. Cada um - a ciência ou as religiões - deve contribuir com as suas riquezas. Mas isso precisa de um espírito de abertura e não de integrismo - nem científico nem religioso.
Afirmou que a Reforma protestante aproximou as pessoas do texto bíblico. A Reforma é culpada do criacionismo actual?
Não! O criacionismo actual é uma reacção à revolução de Darwin, através de uma leitura literal da Bíblia, sobretudo em pequenas igrejas protestantes dos Estados Unidos. Os criacionistas recorreram ao literalismo, o que conforta as suas posições. A culpa não é de Lutero, isso seria redutor. O literalismo existe também no catolicismo.
A Igreja Católica chegou a condenar o evolucionismo. O Papa esteve há ano e meio a discutir o tema e muitos pensaram que isso seria reabilitar o criacionismo.
Não é o caso, pelo menos por agora, O que diz o cardeal [Cristoph] Schonborn [de Viena] só o compromete a ele. Que alguns se tenham reconhecido nessa visão, é uma coisa. Que Bento XVI assine o que ele disse, é outra. Se fosse o caso, pessoalmente teria muita pena. Seria um grave erro misturar questões científicas e teológicas. Mas não tenho nenhuma razão para pensar que tal venha a acontecer.
O que ele dizia no artigo do New York Times, de Julho de 2005, são afirmações muito sectárias, que acusam em primeiro lugar a ciência. Eu mesmo fiquei muito chocado com o artigo. Os partidários do design inteligente não são necessariamente aliados do cristianismo.
O design inteligente é um novo criacionismo?
Não está, pelo menos, muito longe dele. E se é um pouco diferente, passa pela mesma confusão. Hoje, é necessário trabalhar uma verdadeira teologia natural. O design inteligente não é uma teologia natural, porque coloca a priori o que quer encontrar. A procura cristã é muito mais inteligente que o design inteligente
A Igreja teve no padre Teilhard de Chardin um grande geólogo e paleontólogo, que começou por ser condenado. Ele é uma referência para si?
O que vejo interessante nele, tanto como as ideias, é o método da sua busca, a sua atitude humana e inteligente para com a ciência. Em 50 anos, a ciência fez muitos progressos. Ele morreu em 1955, há coisas ultrapassadas. Quando acabei de escrever um livro sobre ele, dei-me conta que encontrei sobretudo um grande irmão. É comovente saber que não somos os primeiros, que não estamos sozinhos...
Teólogos e cientistas devem afrontar o criacionismo juntos?
Isso já acontece. Não é necessária propriamente uma aliança contra quem quer que seja, mas sim ter menos medo da ciência. A atitude de João Paulo II, de repetir "não tenham medo" da ciência, era emblemática: não ter medo da ciência, sem se deixar dominar por ela, ter um espírito crítico para com a ciência, não decidir o que é bom ou mau na ciência - isso pertence aos cientistas -, ser crítico do uso que dela fazemos, ter consciência de que a ciência não pode dizer tudo sobre o homem e que nós também temos algo de essencial a dizer sobre o humano, promover tudo o que permite o diálogo com a ciência.
A Academia Pontifícia das Ciências é, a esse nível, um lugar importante. É preciso promover o trabalho teológico, tendo em conta o que diz a ciência, porque a humanidade à qual me dirijo está marcada por uma dimensão científica.
A fé e o problema do mal
Referiu na sua conferência a questão da selecção natural: como é possível Deus ter criado algo que não é perfeito e acaba?
Para mim permanece um problema. Estamos em Lisboa, onde ocorreu o terramoto [de 1755], que é um objecto filosófico largamente discutido. Infelizmente não é o único, porque há muitas outras catástrofes, mesmo próximas de nós, que suscitam a pergunta: porque está este mundo marcado pelo mal físico, pelo sofrimento, pelo mal moral? A presença do mal toca-nos a todos e é insuportável.
Não tenho respostas. Há uma grande diferença entre a procura da fé e a da ciência. A ciência procura saber mais, mesmo sobre as imperfeições do mundo. A fé existe apesar da ignorância ou do medo que tenho. É isso que é humano, terrivelmente humano.
Respeito os que dizem que não podem acreditar num Deus que deixa que aconteça o terramoto de 1755 ou o tsunami de 2004 - os dois são comparáveis pelo choque que provocaram. Mas também quem, apesar disso, acredita em Deus. Bem, será preciso depois que Deus nos explique estas coisas...
A fé é isso: apesar de tudo o que nos impede de dar um passo - em primeiro lugar, da minha própria imperfeição e apesar do mal do mundo - damos esse passo.
Assegurando sempre a autonomia das ciências?
Sim. A questão colocou-se quando as autoridades religiosas quiseram intervir, como no caso Galileu, de forma caricatural: não é à Igreja que compete dizer que a Terra está no centro do Universo. Podemos interrogar-nos sobre as ideologias subjacentes a determinadas teorias científicas, porque os cientistas são homens e os seus trabalhos são orientados pelos seus a priori sobre o mundo. Autonomia, sim, mas não chega dizer que a ciência é neutra. Quando ouço que nos comités de ética não deve haver pessoas das religiões, compreendo de onde vem essa posição, mas a dimensão religiosa existe e tem lugar no debate sobre o uso das técnicas e das ciências.
Há dias, surgiu a notícia de que um grupo de cientistas ia tentar descobrir porque as pessoas acreditam em Deus. É possível?
Já houve trabalhos desse género, a tentar descobrir onde é que Deus se encontra no cérebro. O que podemos demonstrar? Quando se acredita em Deus, isso diz respeito a todo o ser humano. Não se acredita em Deus por causa de uma pequena parte do nosso cérebro, do nosso coração, das nossas entranhas. Essa é uma busca globalmente humana. Podemos medir mudanças de hormonas quando se está a rezar ou quando se medita. Mas o que demonstrámos com isso? Nada de novo. Apenas que a busca religiosa é profundamente humana. Avançou-se no conhecimento do humano, mas não se demonstrou nunca a existência ou inexistência de Deus. Nunca o conseguiremos provar.

 

Escrito por RELIGIONLINE em 20:16:32 | Link permanente | Comments (0) |

Fora do amor não há salvação

Na crónica de hoje no Público, frei Bento Domingues fala de Jesus, no início da Semana Santa dos cristãos

 


1. Repetiu-se, durante séculos de cristandade – embora com significações diferentes – que “fora da Igreja não há salvação”. De forma oficial, esta afirmação deicida só foi desautorizada duas vezes antes do Vaticano II. Hoje, a salvação foi substituída pela globalização do império do dinheiro. Prefiro uma sabedoria mais antiga: fora da vida como dom faremos sempre, deste mundo, um inferno. Ao contrário das aparências, a celebração da Semana Santa não está só preocupada com o processo de Jesus, que nunca poderá ser ignorado. O que mais importa, no entanto, é confrontar a nossa vida com esse processo e fonte de amor infinito.
Sejam quais forem as interpretações que se possam fazer acerca da sua personalidade, ninguém se atreve a negar a existência histórica de Jesus de Nazaré, como já foi moda. Nos últimos trinta anos, a convicção de que se pode reconstruir uma imagem histórica de Jesus sai cada vez mais reforçada e documentada.
Nasceu, provavelmente, entre os anos 6 e 4, antes da era comum. Falava o dialecto da sua região, o aramaico da Galileia. Frequentava a Sinagoga e sabia ler textos bíblicos em hebraico. É normal que soubesse, também, um pouco de grego e alguns termos em latim. Este judeu da Galileia cresceu e viveu nessa parte setentrional da Palestina, herdeira directa do grande reino de Herodes.
Cruzavam-se, nela, as vias de comunicação em direcção a portos que ligavam a terra nacional dos judeus ao imenso espaço mediterrânico. Davam também acesso a vastos territórios do Oriente onde a cultura grega se impunha cada vez mais. Foi nesta terra aberta e de misturas que o fundador do cristianismo passou a maior parte da sua vida e lançou as bases de uma nova religião.
2. A sua intervenção foi muito breve, mas explosiva sob o ponto de vista teológico e social: era preciso mudar de Deus, de religião, de família e sociedade. Ele esperava o advento iminente do reino de Deus que daria início a um período de justiça, de igualdade, de bem-estar e de paz, a começar no coração das pessoas para nascerem de novo. Não sendo política nos métodos, a mensagem de Jesus tornava-se política nas suas consequências.
Este Galileu queria subtrair os seus discípulos à lógica dos estreitos e asfixiantes interesses familiares e dos grupos político-económicos do seu tempo. É nesse sentido que se compreende que tenha louvado os que abandonavam mulher, filhos, trabalho e que vendiam tudo o que possuíam. Também para derrubar a lógica egoísta dos núcleos domésticos, propunha-lhes uma hospitalidade sem retribuição, queria que as famílias hospedassem os deserdados, os pobres de pedir e também os doentes graves, reconfigurando, assim, radicalmente, a vida familiar.
Jesus sonhava com uma sociedade de iguais em que se praticasse a justiça e o amor recíproco. A atenção para com os pobres nada tinha de romântico, como a atitude típica de certas elites que exaltam a vida simples. Sabia que a doença e a pobreza extremas eram e são horríveis. Devem ser combatidas e eliminadas (1).
Nos Actos dos Apóstolos, foi imaginada uma comunidade onde todos eram um só coração e uma só alma e tinham tudo em comum (Act 4, 32-35). Muito mais tarde, S. João entendeu bem o espírito de Jesus: fazer família com quem não era da família, saltar todas as fronteiras para reunir todos os filhos de Deus dispersos (Jo 11, 52).
3. Não é por acaso que a Quaresma começa com Jesus assaltado pelas tentações da dominação económica, política e religiosa. Enfrenta-as como tentações diabólicas, que procuram desviá-lo do seu projecto e às quais responde com um não radical. S. Marcos mostra que os discípulos não percebiam esse caminho, essa alergia ao poder de dominação. Jesus não percebia como é que eles o queriam seguir sem abandonar as ambições do velho mundo e sem se converterem ao espírito de serviço desinteressado (Mc 10,35-45).
Ao entrar na Semana Santa, é-nos lembrado que Jesus não morreu de velho nem de doença. A pretexto da sua intervenção subversiva, as autoridades políticas e religiosas moveram-lhe um processo que continua muito discutido. Foi condenado à morte e crucificado, talvez a 7 de Abril do ano 30, véspera do grande dia da páscoa judaica e executado nos arredores de Jerusalém, junto de uma velha pedreira. Teria, nessa altura, entre 34 e 36 anos.
Perante isto, é paradoxal que se coloque na boca de Jesus: ninguém me tira a vida, sou eu que a dou, como se ele tivesse procurado o sofrimento e a cruz. Nas celebrações da Eucaristia, também se repete: “Na hora em que Ele se entregava, para voluntariamente sofrer a morte”... Isto pode parecer perverso: afinal, Jesus terá sido uma marionete nas mãos de Deus e os que o condenaram e executaram, instrumentos da vontade divina?
Estas expressões dizem, no entanto, a verdade mais profunda: Jesus detestava o sofrimento e a cruz, mas para não trair, para não renegar o caminho de libertação que, por amor incondicional, escolhera, aceitou todas as consequências que lhe impuseram.

(1)Cf. Corrado Augias e Mauro Pesce, A Vida de Jesus Cristo. O Homem que mudou o mundo, Lisboa, Presença, 2008.
Escrito por RELIGIONLINE em 20:12:26 | Link permanente | Comments (0) |

O horizonte de Chiara Lubich

Pedro Vaz Patto, membro do movimento dos Focolares, recorda hoje no Público a personalidade de Chiara Lubich, fundadora do movimento e rosto importante no catolicismo do século XX.

A primeira mulher cristã a expor a sua experiência espiritual a vastos auditórios budistas, muçulmanos e hindus

Em Itália, a notícia encontrou espaço na primeira página do Corrire della Sera e em programação especial da RAI. Terminou a sua vida terrena, aos 88 anos, Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, um movimento católico que, de forma inovadora, acolhe cristãos de outras denominações, fiéis de outras religiões e pessoas de convicções não religiosas. Presente em 182 nações, conta cerca de 140 mil membros activos e 2 milhões de aderentes.


Toda esta difusão se deve à fidelidade de uma jovem de Trento que, em 1943, num contexto de guerra que evidenciava a caducidade de todos os ideais humanos, descobriu em Deus o ideal da sua vida. Essa descoberta levou-a a reler a uma nova luz o Evangelho. De um modo particular, sentiu-se chamada a actuar o testamento de Jesus, as palavras que Ele pronunciou pouco antes de morrer: "Pai, que todos sejam um, como Tu e Eu somos um."
O que trouxe de novo, à Igreja e à humanidade, a vida de Chiara Lubich? João Paulo II afirmou que via no movimento que fundou uma imagem da Igreja, tal como a delineou o Concílio Vaticano II. Antecipou e, posteriormente, concretizou várias das intuições desse concílio. Desde logo, a revalorização do papel dos leigos e da mulher. Propôs a santidade como uma meta para todos ("a santidade para as massas"), resultado não tanto de um caminho individual, mas de uma experiência comunitária de amor e ajuda recíprocos (uma "santidade colectiva").
A sua proposta de unidade entre as pessoas e as comunidades encontra o seu modelo em Deus uno e trino. A vida da Trindade deixa de ser algo de longínquo e inacessível (o teólogo Karl Rahner chegara até a afirmar que, se fossem abolidos os dogmas trinitários, talvez a vida do comum dos cristãos não se modificasse) e passa a ser um modelo para todos os âmbitos da vida social, onde se harmonizam unidade e distinção, identidade e comunhão.
O "que todos sejam um" foi, pois, o horizonte de Chiara Lubich e do movimento por ela fundado que, também na linha do Vaticano II, se abriu a quatro diálogos: entre católicos, entre cristãos de várias denominações, com fiéis de outras religiões e com pessoas de convicções não religiosas. Lubich foi a primeira mulher cristã a expor a sua experiência espiritual (sem dela nada ocultar) a vastos auditórios budistas, muçulmanos e hindus. Fê-lo em 1981, num templo de Tóquio, a 10.000 pessoas; em 1997, na Tailândia, perante monges e monjas budistas, e, também em 1997, na histórica mesquita "Malcom X" de Harlem, em Nova Iorque.
A espiritualidade da unidade veio reanimar a vida de muitas famílias chamadas a abrir-se à sociedade, para a impregnar dos seus valores característicos, para que ela se torne uma grande família. "Como a família, assim a sociedade", propôs numa ocasião Chiara Lubich.
No Evangelho, ela e os seus seguidores encontraram a fonte da "mais potente revolução social", capaz de renovar pessoas e estruturas. São inúmeras as obras sociais a que deram origem.
Esta espiritualidade trouxe também uma nova luz aos ramos do saber, não só à teologia, mas também à filosofia, à psicologia, à sociologia, à economia, à reflexão política, etc. Chiara Lubich, que abandonara a perspectiva de seguir estudos para se consagrar a Deus, recebeu, de universidades espalhadas por todo o mundo, doutoramentos honoris causa em quase todas essas disciplinas.
Ao mundo da política propôs a fraternidade como autêntica categoria política, para dar expressão concreta a este terceiro princípio (o que tem sido mais esquecido) do tríptico da Revolução Francesa. Políticos de vários quadrantes têm acolhido esta proposta.
Ao mundo da economia propôs um modelo de economia de comunhão na liberdade, desafiando as ideias correntes de que só o móbil do egoísmo torna eficaz a economia, ou só a intervenção estatal permite introduzir na vida económica a consideração do bem comum.
A vida de Chiara Lubich transformou muitas outras vidas. Nela colheram inspiração e ensinamentos pessoas que têm em curso processos de beatificação, como o intelectual e político italiano Igino Giordani (um co-fundador do movimento) e o cardeal vietnamita Van Thuan, referido como testemunho de vida cristã na última encíclica de Bento XVI. Mas muitas pessoas comuns de todo o mundo lhe devem aquilo que dá sentido às suas vidas, aquilo que de mais precioso têm. É o que sucede também comigo, desde a minha adolescência. Daí a minha gratidão, que não posse deixar de tornar pública.

Escrito por RELIGIONLINE em 20:08:34 | Link permanente | Comments (0) |

Sábado, Março 15, 2008

Um fogo que nunca se apague

"Cristo de compaixão, Tu acolhes-nos
com os nossos dons e as nossas fragilidades.
E, pelo Tu Espírito Santo,
libertas, perdoas e levas-nos até à dádiva
da nossa vida por amor".
...

"Nas nossas noites
acende um fogo
que nunca se apague".

Prece e canto de Taizé, em memória da Sílvia
Escrito por RELIGIONLINE em 17:03:14 | Link permanente | Comments (0) |

Quinta-feira, Março 13, 2008

"Noite espiritual"


A longa noite espiritual de MadreTeresa de Calcutá é o tema de destaque da edição de hoje do La Croix. O motivo é a publicação, em língua francesa, dos escritos íntimos desta figura da Igreja. O tema faz a capa do dário.

Escrito por RELIGIONLINE em 07:09:27 | Link permanente | Comments (0) |

Terça-feira, Março 11, 2008

Polui? É melhor confessar-se

Não, não são novos pecados, como se leu em alguns jornais e se (ou)viu, mas é uma reflexão de um arcebispo responsável num dos organismos do Vaticano. O site do Público divulgou uma notícia mais exacta sobre o assunto, com base na informação da Reuters:

Não poluirás a terra. Serás contra a manipulação genética. Não traficarás droga... Novos tempos, novos pecados. Pelo menos esta é a ideia de um responsável do Vaticano, que indicou este fim-de-semana o que poderia ser uma lista dos novos pecados originados pelos “demónios” dos tempos modernos, com o objectivo de manter os fiéis informados. Não são os pecados originais, mas originalidade não lhes falta.
O arcebispo Gianfranco Girotti referiu-se este fim-de-semana aos males modernos e à área, por vezes obscura, dos pecados e da penitência. Questionado sobre o que seriam os novos pecados da nossa era, o arcebispo disse ao jornal “L´Osservatore Romano” que, neste momento, o maior perigo para a alma humana é o mundo desconhecido da bioética.
“Dentro da bioética há áreas onde devemos denunciar, sem qualquer espécie de dúvida, algumas violações dos direitos fundamentais do ser humano, nomeadamente algumas experiências de manipulação genética, cujo resultado é difícil de prever e controlar”, acrescentou Girotti.
O Vaticano opõe-se às investigações que recorram a células estaminais e que envolvam a destruição de embriões, pois teme as prospecções que tenham como objectivo a clonagem humana.

Um Vaticano verde
Mas o Vaticano tem também aspirações mais verdes. Girotti apelou a uma maior consciência ambiental e colocou na lista de pecados as ofensas ecológicas. Estas recomendações vêm no seguimento do discurso do Papa Bento XVI, que tem apelado para a protecção ambiental, considerando que as alterações climáticas se tornaram extremamente importantes para a Humanidade.
E para provar que o Vaticano quer reduzir a sua pegada ecológica, os seus edifícios contam agora com painéis fotovoltaicos para a produção de electricidade. Recentemente, foi também anfitrião de uma conferência científica para discutir as ramificações do aquecimento global e das alterações climáticas, para as quais em muito contribui o uso humano de combustíveis fósseis.
Girotti, um dos responsáveis pelos assuntos de “penitência apostólica” e de consciência dentro do Vaticano, acrescentou à lista o tráfico e o consumo de drogas e as injustiças sociais e económicas. No entanto, frisou que o aborto e a pedofilia continuam a ser preocupações centrais para a igreja.
O arcebispo aproveitou a oportunidade para relembrar que faltar à tradicional confissão católica continua, apesar da sua longevidade, a ser um acto condenado pela instituição. Para se apoiar nas estatísticas, porque afinal a igreja também tem "rankings", a Universidade Católica de Milão estima que cerca de 60 por cento dos fiéis italianos deixaram de se confessar, dispensando a absolvição dos seus pecados em nome de Deus. De acordo com o mesmo estudo, 30 por cento dos católicos do país não sente necessidade de contar as falhas a um padre e 20 por cento sente-se pouco à vontade a falar dos seus pecados com outras pessoas.
Com uma crescente preocupação com as questões ambientais sobra uma pergunta: será que a eleição de um novo Papa vai ser anunciada com fumo branco?
Escrito por RELIGIONLINE em 14:39:20 | Link permanente | Comments (0) |

Segunda-feira, Março 10, 2008

Escutar o clamor dos pobres

Caros amigos(as),
 
Tenho a honra de enviar juntamente o texto da reflexão feita pela Comissão Nacional Justiça e Paz a propósito da Quaresma de 2008.  Intitulamo-lo "Escutar o clamor dos pobres. Abrir caminhos de  justiça para erradicar a pobreza".

 

Move-nos o desejo de contribuir para uma maior sensibilização dos nossos concidadãos e concidadãs relativamente à pobreza no nosso país e por essa via suscitar respostas criativas que levem ao reconhecimento da pobreza como violação de direitos humanos fundamentais e ao empenhamento colectivo na sua  erradicação.

 

Sem subestimar o alcance das políticas públicas e a vasta acção social já desenvolvida pelas instituições de solidariedade social, acreditamos que só uma mentalidade geral mais esclarecida e formada com base em critérios de justiça e de responsabilidade social mais exigentes poderá concorrer para criar uma sociedade mais inclusiva e fraterna, onde também os pobres tenham vez e voz. Esta é, aliás, uma proposta orientadora sempre presente na Doutrina Social da Igreja.


 

 

Manuela Silva

Presidente

.....

Escutar o clamor dos pobres

A esperança atrai o futuro para dentro do presente, de
modo que aquele já não é o puro « ainda-não”. (Bento XVI,
Spe salvi, n.7)

Nesta Quaresma de 2008, a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) convida todos os cristãos e as suas comunidades a escutar o clamor dos pobres e a abrir caminhos de justiça para erradicar a pobreza no nosso
País.1
Escutar implica, em primeiro lugar, liberdade interior para deixar cair preconceitos e ver a realidade tal como ela é, com as suas contradições de luzes e sombras; requer também que assumamos como nossos os problemas da sociedade em que vivemos e nos empenhemos na procura de soluções criativas que construam a justiça e a paz no nosso tempo.
O texto que segue é fruto de uma reflexão feita pela CNJP e está centrado sobre o empobrecimento que continua a marcar, de forma dramática, a vida de muitos dos nossos concidadãos e concidadãs. Cerca de 18%, como referem as estatísticas de 2006.2 Isto, apesar do nosso País ter atingido níveis de rendimento que permitiriam superar este flagelo social, se outra fosse a repartição do rendimento e o modelo económico e se as opções políticas estivessem voltadas para a satisfação das necessidades das pessoas, das famílias e das comunidades.
A CNJP, juntamente com várias entidades eclesiais e outras da sociedade civil, tem vindo a chamar a atenção para este problema nacional, procurando dá-lo a conhecer a públicos cada vez mais vastos e denunciando
esta situação como uma grave injustiça.
Sabemos que é importante mobilizar as consciências para que, colectivamente, se reconheça que a pobreza é uma situação intolerável à luz de critérios éticos e dos direitos humanos fundamentais e pode constituir
um risco e uma ameaça, para a democracia, a sustentabilidade do crescimento
económico e para a paz social.
Ao escolher este tema de reflexão, para a Quaresma de 2008, queremos não só alargar o debate sobre a pobreza como também abrir caminhos para a criatividade colectiva na procura de soluções que a possam resolver, superando as causas que a geram e minimizando as suas manifestações mais agudas.
Acreditamos que o esforço de conversão a que somos chamados, de modo particular neste tempo litúrgico não pode passar ao lado destes desafios.
Desejamos também expressar o nosso sentir junto dos poderes públicos, da comunicação social e da sociedade civil e afirmar a nossa disponibilidade para um projecto colectivo que vise a erradicação da pobreza no nosso País e maior solidariedade com a redução da pobreza no mundo.
Temos a convicção de que erradicar a pobreza é possível e urgente.

A pobreza é uma violação de direitos humanos

Esta reflexão vem dar continuidade à petição apresentada à Assembleia da República em Outubro passado, por iniciativa da CNJP.
Nela solicitava-se que a pobreza seja reconhecida como uma violação dos direitos humanos. Recolheu a petição mais de 23 mil assinaturas que, no conjunto, representam diferentes estratos sociais e regiões do País e suscitou a adesão expressa de várias entidades da sociedade civil e de diferentes confissões religiosas o que, só por si, indicia interesse e vontade de enfrentar este urgente problema social.
Não queremos que o empenhamento então esboçado se esfume e que adormeçam as consciências. Em primeiro lugar, pela parte dos políticos e dos poderes públicos a quem cabe a responsabilidade e o dever de providenciar instituições e políticas públicas que concorram para a justiça, a solidariedade e a equidade na actividade económica e na repartição dos benefícios do progresso. Mas também por parte da sociedade civil, com destaque para as organizações de solidariedade social e dos media de quem se espera que saibam dar voz e vez aos pobres.
Dirigimo-nos de modo muito particular aos nossos irmãos e irmãs na fé, para quem o tempo da Quaresma é um tempo privilegiado para um confronto mais vital com o que é verdadeiramente essencial no Evangelho e no seguimento de Jesus Cristo, no entendimento de que “Jesus uniu – fazendo deles um único preceito – o mandamento do amor a Deus com o do amor ao próximo.” (Deus caritas est, n.1)

Os diferentes rostos da pobreza

A pobreza é uma realidade complexa e multifacetada, que nas sociedades contemporâneas se apresenta com vários rostos e múltiplas causas, exigindo, por isso, respostas diversificadas.
Começamos por lembrar o empobrecimento de algumas populações rurais que, decorridos mais de 30 anos de vida democrática, continuam amarradas a um estádio de subdesenvolvimento económico, privadas de acesso a bens de conforto em domínios básicos de habitação, alimentação, saúde e cultura, sujeitas a formas de trabalho por vezes escravizante, desprotegidas em matéria social e, frequentemente, privadas de meios de comunicação e de acesso aos serviços essenciais.
É, porém, entre a população urbana que os rostos da pobreza mais se diversificam. Nas grandes cidades, o empobrecimento está particularmente patente no rosto dos mendigos e dos sem abrigo que, só na cidade de Lisboa, ultrapassam os dois milhares. Há os pobres por viverem em zonas de habitat degradado ou em realojamento social desprovido de dignidade e segurança.
A este quadro vêm juntar-se os casos da chamada nova pobreza, nem sempre captada pelas estatísticas correntes. Referimo-nos às pessoas de baixos recursos, privadas de laços familiares ou de vizinhança, aos idosos isolados e entregues a si próprios, sem condições físicas e psíquicas para se providenciarem ou vivendo em residências colectivas sem condições de dignidade humana, às crianças e jovens desenraizados de meio familiar normal. Recentemente os media têm noticiado manifestações de nova pobreza, incluindo dependência de ajuda alimentar e outra, entre pessoas de idade activa e habilitações académicas de nível médio e superior, uma
pobreza escondida e envergonhada.
A incidência da pobreza é particularmente preocupante entre as pessoas
idosas (26% das quais são pobres), as crianças de famílias
desestruturadas e/ou baixos rendimentos (20% dos menores de 16 anos
vivem abaixo do limiar da pobreza), os trabalhadores de baixos salários e
trabalho precário (com 11% e 10%, respectivamente, de pobres), os desempregados
(cuja taxa de pobreza é da ordem dos 31%), as mulheres
(com uma taxa de pobreza de 19%), e as famílias mono parentais e com
filhos a cargo (41% de pobres).
Embora com rostos diversos, os pobres têm em comum uma dignidade
humana ofendida, a humilhação da sua exclusão social, a insegurança
face ao dia de amanhã e a um projecto de futuro, a perda de autonomia
na sua realização pessoal e, não raro, o justo sentimento de serem vítimas
da injustiça social. Acresce, em muitos casos, a angústia psicológica de se
sentirem, primeiro inúteis e depois descartáveis pela sociedade, pelos
amigos e vizinhos, quando não pela própria família.
Vista a realidade do empobrecimento por outro prisma, sobressaem
os recursos e as potencialidades humanas subaproveitados ou desperdiçadas,
a engenhosidade posta em acção para fazer face à sobrevivência
e, muitas vezes, a abnegação e a solidariedade vividas entre os próprios
pobres.

A pobreza não é uma fatalidade

A reflexão que vimos fazendo leva-nos a afirmar que a pobreza não
é uma fatalidade, mormente naqueles países que, como o nosso, já alcançaram
um patamar razoável de rendimento. A pobreza é, em grande parte,
resultante de um modelo económico que privilegia o lucro do capital
financeiro e favorece a concentração da riqueza, sem que existam ou funcionem
adequadamente mecanismos apropriados que assegurem a participação
equitativa de todos nos frutos do crescimento económico.
O modelo social europeu é uma tentativa ténue de ir ao encontro do
desafio de prevenir a pobreza e a exclusão social, mas a sua implementação
tem deparado com resistências múltiplas porque ocorre em contextos
nacionais estruturalmente caracterizados por uma muito desigual repartição
do poder, económico e político, com desvantagem para os mais em pobrecidos. Acresce que este modelo enfrenta dificuldades sérias com o
aprofundamento da globalização, fenómeno com muitas potencialidades
mas que, por falta de regulação adequada, tem vindo a contribuir para o
desemprego e para o agravamento da desigualdade de rendimentos e salários,
entre países e no interior de cada país.
Por outro lado, tem aumentado a turbulência nos mercados de trabalho,
os quais conhecem transformações que podem pôr em causa a
coesão e integração sociais, por não se estar a verificar a criação de empregos
em número e qualidade suficientes em relação à procura. Relativamente
a este ponto, constitui motivo de preocupação o facto de se ter
vindo a assistir ao esvaziamento do quadro legal ou convencional de protecção
do trabalho, sem que surja, em substituição, um outro quadro
regulamentador que respeite plenamente a dignidade dos trabalhadores.
Vencer a pobreza
Para vencer a pobreza há um caminho a percorrer em várias frentes.
De seguida enumeramos aquelas que se nos afiguram determinantes,
tendo por referência a Doutrina Social da Igreja assente nos seguintes
princípios básicos:
- o primado absoluto da defesa da pessoa humana, de cada pessoa e
dos seus direitos e deveres fundamentais;
- o destino universal dos bens da terra;
- o primado da pessoa sobre o trabalho e deste sobre o capital.
Em primeiro lugar, importa afirmar que não se resolverá o problema
da pobreza sem um quadro de referência ética comummente aceite. Ética
pessoal, com as correspondentes implicações no comportamento dos pobres
e dos não-pobres. Ética social com tradução no modo como se organiza
a vida colectiva e a participação de todos na actividade económica e
na repartição dos respectivos custos e benefícios.
A Doutrina Social da Igreja oferece um quadro de orientações, entre
as quais figura, como afirmou o Concílio Vaticano II, a de que “…todos
têm o direito de uma parte dos bens suficientes para si e suas famílias.
Assim pensaram os Padres e Doutores da Igreja, ensinando que os homens
têm obrigação de auxiliar os pobres e não apenas com os bens supérfluos” (Gaudium et spes, n.19). Disse ainda o mesmo Concílio que: “Sendo tão
numerosos os que no mundo padecem fome, o sagrado Concílio insiste
com todos, indivíduos e autoridades, para que, recordados daquela palavra
dos Padres – “alimenta o que padece fome, porque se não o alimentaste,
mataste-o” – repartam realmente e distribuam os seus bens, procurando
sobretudo prover esses indivíduos e povos daqueles auxílios que lhes
permitam ajudar-se e desenvolver-se a si mesmos” (ibidem).
Na concretização destes princípios orientadores, devemo-nos guiar
pela opção preferencial pelos pobres: “Esta é uma opção, ou uma forma
especial de prioridade, na prática da caridade cristã de que testemunha
toda a tradição da Igreja” (Populorum progressio, n. 45).
Pelo que respeita à propriedade e ao uso dos bens, a Doutrina Social
da Igreja valoriza, de modo especial, a noção de destino universal dos
bens, recordando que: “Deus destinou a terra e tudo o que ela contém ao
uso de todos os homens e de todos os povos, de modo que os bens da
criação devam equitativamente afluir às mãos de todos, segundo a regra
da justiça, inseparável da caridade” (Gaudium et spes, n. 69). A este propósito,
continua actual a observação de Paulo VI: “Todos os outros direitos,
quaisquer que sejam, incluindo os de propriedade e de comércio livre,
estão-lhe subordinados: não devem portanto impedir, mas, pelo contrário,
facilitar a sua realização; e é um dever social grave e urgente conduzi-
-los à sua finalidade primeira. (Populorum progressio, n. 22). Não se trata,
portanto, de negar o direito de propriedade, mas, pelo contrário, de o
tornar acessível a todos.
Um princípio fundamental como este não pode deixar de estar
subjacente e influir no modo como os cristãos se devem relacionar com
os bens, quer a nível individual, quer na avaliação de uma sociedade,
nacional e global, em que a muitos é negado o direito de acesso a esses
bens, em muitos casos com expressões extremas de pobreza.
Para erradicar a pobreza, são necessárias, em primeiro lugar, políticas
económicas que gerem empregos dignos, democratizem o acesso à
propriedade por parte das famílias de rendimentos médios e médios-baixos,
e promovam uma distribuição menos desigual do rendimento criado
em cada ano pela actividade económica. Para além disso, é igualmente
indispensável um programa eficaz de combate à pobreza, que tenha em
conta, nomeadamente, os grupos mais vulneráveis.
Para vencer a pobreza há, por outro lado, que desmontar os preconceitos
que impedem uma visão clara sobre o empobrecimento, a começar pela ideia de que em Portugal não existe pobreza (nega-se a um só tempo
a evidência estatística e a própria experiência empírica) ou a de que só é
pobre quem quer. Para alguns, a pobreza é consequência de vícios dos
pobres, em especial a preguiça (“não querem trabalhar, diz-se”), o alcoolismo,
a toxicodependência, ou o pendor para o desrespeito pelas normas
de convivência social. Há quem vá mais longe e admita que a pobreza está
associada à delinquência ou a um mau viver. Para outros, a pobreza é
fruto de má sorte e uma realidade inevitável. São explicações que, além
de serem incorrectas, desresponsabilizam a sociedade.
No domínio técnico-científico, não faltam ideias que, se bem que
não sejam de todo erradas, enfermam de uma compreensão superficial da
pobreza e/ou de tomarem como suficientes medidas e objectivos necessários
mas que, só por si, não bastam para combater a pobreza. Segundo
alguns, a pobreza resolve-se com mais crescimento económico; é uma
questão de tempo. Para outros, trata-se de mera questão residual que se
resolve com acções específicas de assistência social. Para outros, ainda, a
redução da desigualdade iria comprometer o crescimento económico, uma
vez que são as poupanças dos que mais têm que permitem financiar o
investimento, sem o qual não há crescimento.
Como acima se disse, nem todo o tipo de crescimento económico
contribui para reduzir a pobreza, e até pode conduzir ao seu agravamento.
É por isso indispensável que a política económica saiba conciliar o
crescimento com uma melhor distribuição dos rendimentos.
A distribuição de rendimentos de que falamos não tem de afectar
necessariamente a poupança, como por vezes se receia, para o que bastará
que sejam desincentivados os consumos sumptuosos ou simplesmente
supérfluos. Isto pressupõe que a sociedade em geral reconheça a necessidade
de abandonar os critérios da cultura consumista e de uma felicidade
dependente de ter mais, para adoptar um estilo de vida mais sóbrio e
mais solidário.
Estes e outros preconceitos acima mencionados barram o caminho a
uma acção colectiva determinada a erradicar a pobreza e, por isso, deve
merecer particular atenção o seu discernimento crítico, para o que muito
pode contribuir o melhor conhecimento do fenómeno da pobreza e a
maior proximidade com os empobrecidos bem como a escuta dos seus
respectivos percursos de vida.
Como atrás referimos, a pobreza tem muitos rostos e decorre de
múltiplas causas, pessoais umas e sociais outras. Por isso, é fundamental promover os estudos científicos acerca da pobreza enquanto problema
nacional grave e dar a conhecer a situação à opinião pública. É esta uma
tarefa que os cristãos deveriam abraçar com particular dedicação e empenho.
Em particular, do mesmo modo que o País fica a conhecer com regularidade
os indicadores do crescimento económico e demais índices que
revelam o grau de saúde da economia nacional, assim também é desejável
que todos saibamos como se reparte este crescimento e em particular,
como está a contribuir para erradicar a pobreza. Esta a razão que nos
levou a incluir na petição dirigida à Assembleia da República uma tríplice
proposta: a definição de um limiar oficial de pobreza em Portugal, a constituição
de uma entidade de âmbito parlamentar destinada a recolher dados
de acompanhamento da evolução do fenómeno da pobreza no nosso
país e a apresentação anual no parlamento dos resultados das políticas
públicas contra a exclusão social.
O Governo dispõe de um Plano Nacional de Acção para a Inclusão
(PNAI) de cuja filosofia faz parte um princípio básico de transversalidade.
Por outras palavras, a prevenção e o combate à pobreza devem atravessar
todas as políticas públicas, desde a saúde e a educação, aos transportes, à
habitação, ao emprego e formação profissional, à segurança social, à justiça,
à cultura, ao investimento público e, de modo geral, à política macroeconómica.
Saudamos este instrumento de política pública, mas temos de
reconhecer um conjunto de falhas que importa corrigir, em especial as
seguintes: falta de visibilidade, défice de articulação com as autarquias,
reduzida influência nas decisões dos diferentes departamentos da Administração,
ausência de uma verdadeira avaliação dos efeitos das políticas
prosseguidas e de modo particular a insuficiente participação de todos os
intervenientes aos diversos níveis. Daí que sejam, por ora, bastante
insatisfatórios os seus resultados. Mais do que a aplicação de uma série de
medidas avulsas, importa avançar para a elaboração de uma verdadeira
estratégia de erradicação da pobreza, formulada em termos mais coerentes
e operacionais do que os existentes.
Outro passo em direcção à erradicação da pobreza tem a ver com a
qualidade e a perspectiva de funcionamento dos serviços públicos básicos
em matéria de educação, saúde, habitação e equipamento social, transportes,
emprego e qualificação profissional. Não basta que tais serviços
existam e se limitem a acolher os seus utentes com propostas padronizadas.
Para prevenir a pobreza é indispensável ir ao encontro dos pobres e,
em cada caso, providenciar as respostas adequadas à sua respectiva situação. Sem uma atitude pró activa que discrimine positivamente os mais
carenciados não se garante o princípio da igualdade de acesso aos serviços
públicos.
Outra das frentes de combate à pobreza consiste em dar (ou restituir)
o poder aos pobres, para que expressem as suas necessidades e sejam
os verdadeiros agentes da sua libertação. Só se sai da pobreza quando se
adquire a autonomia bastante para gerir a própria vida e exercer plenamente
a cidadania, o que supõe, em primeiro lugar, o fácil acesso à informação
sobre os recursos disponíveis, mas também capacitação verbal e
escrita para os aproveitar. Só um serviço de proximidade poderá contribuir
para levar a informação acerca dos recursos junto dos pobres e funcionar
como uma “provedoria” específica para a defesa dos seus direitos.
A sociedade civil através das suas múltiplas organizações e, de modo
especial, as comunidades paroquiais, que estão presentes nos lugares mais
remotos assim como junto das populações urbanas mais empobrecidas,
poderiam desempenhar uma missão relevante neste domínio. 3
É, ainda, da sociedade civil, incluindo os organismos eclesiais de acção
social que se podem esperar contributos decisivos para fazer face a
novas necessidades, identificando-as atempadamente e procurando para
elas novas respostas. Pensamos, de modo particular, na promoção da economia
social como meio de responder a necessidades locais e promover o
emprego, no acesso ao micro crédito e ao empreendorismo, no comércio
justo, etc. A ideia subjacente a todas estas acções - sem prejuízo das situações
de emergência a que é preciso ocorrer para evitar situações de carência
muito graves - deverá ser a de contribuir para a auto-suficiência e a
capacitação daqueles que se pretende apoiar. Importa que os pobres sejam
os protagonistas da luta contra a pobreza, fornecendo-lhe os instrumentos
para que tal possa acontecer.
A aposta num trabalho digno para todos é uma forma de prevenir a
pobreza. De acordo com a OIT, o trabalho digno é a ligação que falta
entre o crescimento económico e a redução da pobreza, e constitui o
objectivo estratégico para se alcançar uma globalização justa. Pressupõe a
criação de oportunidades de emprego produtivo - de que o empreendorismo,
o acesso ao crédito, e as condições de escoamento dos produtos constituem instrumentos a desenvolver - níveis de remuneração decente,
máximo respeito pelos princípios e direitos fundamentais dos trabalhadores,
protecção social e cobertura médica, higiene e segurança nos locais
de trabalho, diálogo social, abolição da discriminação no acesso aos empregos
e defesa dos imigrantes. Uma tal via permitirá alcançar ganhos de
produtividade e eficiência, sem os custos sociais de sistemática redução
dos empregos e das remunerações.
A correcção das desigualdades é também uma condição necessária
para vencer a pobreza. A presente situação de desigualdade social no nosso
País é uma afronta e um escândalo que importa denunciar e combater.
Para vencer a pobreza, há que definir salários mínimos acima do limiar da
pobreza e o mesmo se diga das pensões de reforma e das prestações sociais.
Queremos também sublinhar a importância de que se reveste uma
política de dignificação da família e de conciliação entre vida familiar e
profissional, que confira particular atenção às famílias em situação de
precariedade económica ou em risco de desestruturação, facultando-lhes
meios de aconselhamento e ajuda. Em situações de pobreza, é difícil esperar
que a família desempenhe cabalmente o seu papel, o que se reflectirá
em múltiplas disfunções sociais (abandono dos idosos, insucesso escolar,
comportamentos desviantes dos jovens, etc.).
Por último, é ainda de salientar o impacto da questão ambiental, nas
suas múltiplas incidências sobre a pobreza. Por exemplo, as catástrofes
ditas naturais decorrentes das alterações climáticas afectam com maior
severidade as populações pobres que vivem em habitações menos seguras
e em locais menos protegidos. Também elevados níveis de contaminação
dos solos agrícolas se repercutem negativamente nas condições de vida
dos pobres em meio rural. E, porque têm menor capacidade para fazerem
ouvir a sua voz junto dos poderes públicos, não raro os pobres sofrem as
consequências negativas de certas decisões camarárias e outras em matéria
de localizações de risco.

Em conclusão

A pobreza é uma negação de direitos humanos. Ofende a dignidade
da pessoa humana, atenta contra o seu direito à vida, impede o exercício
desse outro direito fundamental que é a liberdade e constitui um obstáculo
à participação, condição essencial de uma democracia autêntica. Por outro lado, a pobreza é terreno fértil para o surgimento da violência
e da anomia social, sendo, por isso, do interesse de todos os cidadãos
e cidadãs promover o mais alto nível de inclusão social de todos os
grupos sociais, com o que isso supõe de reconhecimento das diferentes
identidades e de não discriminação.
Assim sendo, vencer a pobreza e proporcionar condições de vida
digna para todos é uma condição necessária para uma cidadania
aprofundada e uma democracia sustentável. É factor de crescimento económico
e de progresso social geral. É caminho para uma vida mais saudável
e mais feliz.
Se queremos vencer o desafio da erradicação da pobreza no nosso
País, há que olhar para o futuro e fomentar em toda a sociedade uma
cultura de justiça, de solidariedade e de amor, que se traduza numa praxis
de inovação e criatividade na economia e na organização social, por parte
dos poderes públicos, dos actores económicos, dos parceiros sociais e da
sociedade civil, em geral.
Em particular, as comunidades cristãs têm o dever de praticar a “fantasia
do amor” e de fazer surgir novas iniciativas que permitam ir ao
encontro das necessidades dos irmãos de modo a corresponder à interpelação
exigente do Papa Bento XVI: “no seio da comunidade de crentes
não deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a alguns os
bens necessários para uma vida condigna” (Deus caritas est, n. 20).
Os jovens devem merecer a maior atenção da comunidade cristã no
sentido de os incentivar a empenhar-se, desde cedo e fazendo jus à sua
generosidade, no desenvolvimento da comunidade a que pertencem e a
praticar modalidades de solidariedade com os grupos mais vulneráveis,
incluindo a participação em formas de denúncia das injustiças e pressão
para fazer valer os direitos de quem não tem voz.
Por outro lado, todos os esforços têm de ser feitos com vista a bem
aproveitar as novas potencialidades das tecnologias da informação e da
economia do conhecimento para a criação de novas oportunidades de
emprego e sua orientação para a satisfação de necessidades pessoais e
colectivas.
As redes sociais, cuja existência está prevista em todos os concelhos,
merecem ser melhor conhecidas e apoiadas nas suas atribuições, de molde
a envolver toda a comunidade e os diferentes serviços públicos na
definição de estratégias e elaboração de planos conjuntos de erradicação
da pobreza na respectiva área de influência. Em particular, as instituições sociais da igreja devem interessar-se pelo bom funcionamento destas redes
sociais e prestar-lhes a devida cooperação.
A pobreza não é um fenómeno recente no nosso País. Aliás, dir-se-á
que com ela temos convivido com demasiada tolerância e excessiva resignação.
Presentemente, existem condições objectivas que permitem inverter
esta situação se conseguirmos vencer preconceitos e representações
sociais inadequadas e se formos capazes de mobilizar os necessários recursos
humanos, económicos e políticos fazendo-os convergir para a
erradicação da pobreza num horizonte temporal razoável.
O combate à pobreza não é apenas tarefa dos políticos. Trata-se de
uma questão de justiça, é certo, e nela como cristãos nos devemos empenhar,
mas, como lembra o Papa Bento XVI: “o amor será sempre necessário,
mesmo na sociedade mais justa. (Deus caritas est, n. 28, b).
Nesta Quaresma, convidamos todos os cristãos, comunidades e movimentos
eclesiais a assumirem a sua parte de responsabilidade na prossecução
deste objectivo onde quer que se encontrem e quaisquer que sejam
as funções sociais que desempenhem
Gostaríamos de concluir esta nossa reflexão com uma frase de Bento
XVI: A vida não é um simples produto das leis e da casualidade da matéria,
mas em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo há uma vontade
pessoal, há um Espírito que em Jesus Se revelou como Amor (Spe salvi,
n.5).

Quaresma 2008

Nota: A temática desta reflexão quaresmal foi também abordada na última
Conferência da CNJP realizada em Maio último cujos textos
estão agora editados no livro “Pobreza, direitos humanos e cidadania”.
Cidade Nova, 2007.

......

Notas

1 Neste documento, debruçamo-nos sobre a erradicação da pobreza em Portugal. Quanto à
pobreza no Mundo, cabe assinalar e saudar o Pacto do Milénio assinado no âmbito das
Nações Unidas em 2000, segundo o qual os estados signatários se comprometeram com a
consecução de objectivos e metas de redução substancial da pobreza até 2015. Sobre a
solidariedade no combate à pobreza no Mundo, a CNJP associa-se às suas congéneres
europeias na divulgação do documento “Justiça e não migalhas”, a publicar dentro em
breve. Este documento constitui uma tomada de posição sobre as condições que devem ser
seguidas pelos países europeus nas suas relações com os países em desenvolvimento,
particularmente no que se refere à luta contra a pobreza.
2 É corrente usarem-se vários limiares de pobreza. Neste caso, o limiar de pobreza é definido
como 60% do rendimento mediano do nosso País, ou seja 365.5 euros por pessoa e por
mês, em 2006.
3 As reflexões e orientações contidas na encíclica Deus caritas est, do Papa Bento XVI, lançam
uma luz nova sobre a acção da Igreja enquanto comunidade de crentes, a qual certamente
contribuirá para aprofundar a dimensão humana e eclesial da promoção da justiça e do
exercício da caridade.
Escrito por RELIGIONLINE em 14:28:46 | Link permanente | Comments (0) |

Sexta-feira, Março 07, 2008

A Igreja é misógina?

A pergunta foi colocada num forum de discussão, a propósito do dia internacional da Mulher, que amanhã se celebra, pela revista francesa Croire.
Algumas respostas:

Pour Cécilia, oui, l'Eglise est un peu mysogine!

Ce matin je lis dans le mot du Carême que je dois apprendre à devenir un "fils". Et dans certaines préfaces on demande à Dieu de faire de nous des "fils" de lumière. Pourquoi ne pas y ajouter aussi les "filles"?

Bretonne est du même avis!

L'église devrait être plus accueillante à l'égard des femmes ... Ce sont elles qui transmettent les préceptes éducatifs à leurs enfants, qui animent et assurent l'entretien des églises...

annie: c'est une question de "juste place"!

l'Institution souffre justement du fait que les "places" paraissent attribuées à l'avance : les femmes ici et les hommes là... (et peut-être aussi les divorcés, les homos, les...)sans tenir compte des dons, des compétences, des charismes, des goûts et des élans de chacun.Peu de souplesse, beaucoup de frustration...

des3: c'est la faute à eve!

.Ah! le péché de notre mère Eve...(associé à la naïveté" crocquignolesque"de son cher Adam) et voilà la femme impliquée à tout jamais dans la suspicion de tentatrice "mortelle"Sauvez-vous pauvres hommes, enfin après que vous ayez pu l'approcher si vous désirez assurer votre descendance..pour l'instant on a pas trouvé mieux, pour ce faire.et l'Eglise, enfin à travers ses membres ordonnés,a établi un barrage subtil, entre ce que les femmes peuvent faire en Eglise et ce qui leur est inaccessible de part leur féminité, justement.

azpeita: c'est une question de chromosone!

La femme rest toujours celle par qui arrive le péché. C'est inscrit dans l'inconscient des prêtres les plus ouverts et les mieux accompagnés spirituellement comme dans celui des moins intelligents.
Je crois que l'on peut tenir tous les discours du monde, ça fait partie de l'irrationnel et c'est presque devenu un chromosome supplémentaire.

Marie-cécile: pourquoi refuser parfois des filles servantes d'autel?

Je viens d'un village où il y eut un prêtre alcoolique et un autre qui fut condamné pour pédophylie. Un peu plus loin , il y avait un prêtre qui vivait en concubinage . Il a quitté le sacerdoce et s'est marié plus tard.Personne ne les a éloigné de l'autel, mais être une fille (fut-elle courageuse) semble être un tare abominable et un péché impardonnable.

Benny: en Suisse, pas de problème!

habitant personnellement en Suisse et baignant dans le milieu paroissial genevois depuis presque 7 ans, je n'ai jamais entendu de vive voix quelque paroissien tenir un discours disant que les filles devraient pouvoir être servantes d'autel, que les femmes ne sont pas suffisamment reconnues, etc
Escrito por RELIGIONLINE em 14:21:27 | Link permanente | Comments (0) |

Quinta-feira, Março 06, 2008

Memória

O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
            Mais adiante, o texto falar-nos-á de uma rapariga.
            Ele entra, e diz-me:
            – Sim – diz-me ela, pousando as mãos nos meus joelhos: – Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e que seja um homem.
            – Alguém que queira ressuscitar para ti?
­            – Sim. Alguém que tenha comigo essa memória.

Maria Gabriela Llansol
O jogo da liberdade da alma (Lisboa: Relógio d'Água, 2003)
[Teresa é Thérèse de Lisieux, de quem Maria Gabriela Llansol traduziu O alto voo da cotovia]


Escrito por RELIGIONLINE em 00:13:29 | Link permanente | Comments (0) |

Segunda-feira, Março 03, 2008

Já não se ouvirá o som dos choros e o ruído dos gritos

17. Car je vais créer de nouveaux cieux et une nouvelle terre; On ne se rappellera plus les choses passées, Elles ne reviendront plus à l`esprit.
18. Réjouissez-vous plutôt et soyez à toujours dans l`allégresse, A cause de ce que je vais créer; Car je vais créer Jérusalem pour l`allégresse, Et son peuple pour la joie.
19. Je ferai de Jérusalem mon allégresse, Et de mon peuple ma joie; On n`y entendra plus Le bruit des pleurs et le bruit des cris.

Is. 65
Escrito por RELIGIONLINE em 06:30:48 | Link permanente | Comments (0) |
1 2