Segunda-feira, Abril 28, 2008

Nacionalismo, Religião e Política

O Mestrado em Filosofia - Área de especialização em Ética e Filosofia Política, da Universidade do Minho, promove nos próximos dias um Seminário Aberto subordinado ao tema Nacionalismo, Religião e Política, orientado por Angel Rivero (Universidad Autónoma de Madrid).
A iniciativa, qe decorre na sala de mestrados do Instituto de Letras e Ciências Humanas, no Campus de Gualtar, em Braga, desdobra-se em três sessões:
  • - Terça, 6 de Maio, 17h, 1) As identidades nacionais;
  • - Quarta, 7 de Maio, 14h30m, 2) Os ícones sagrados da nação moderna;
  • - Quarta, 7 de Maio, 17h, 3) Religião e política no autoritarismo católico do século XX.
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Domingo, Abril 27, 2008

Laços

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Quinta-feira, Abril 24, 2008

Ouvindo Bach

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Quarta-feira, Abril 23, 2008

Um memorial para recordar o massacre de 1506 em Lisboa

Três textos retirados do Público sobre a inauguração do memorial ao massacre de judeus na capital em 1506. Os dois primeiros são as notícias de António Marujo (antes e depois da inauguração do memorial) e o terceiro a crónica de Rui Tavares sobre o mesmo tema. 

 

Memorial judaico e católico evoca a partir de hoje em Lisboa o massacre de judeus de 1506

Patriarca e presidentes da câmara e da comunidade judaica juntos para recordar pior massacre na capital

São três memoriais num só, três peças para afirmar Lisboa como cidade cosmopolita e multicultural, evocando o pior massacre que aconteceu na capital, em 1506, e que vitimou entre dois mil e quatro mil judeus. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), o cardeal-patriarca e o presidente da Comunidade Israelita inauguram hoje, às 11h00, no Largo de São Domingos, um conjunto escultórico que pretende fazer memória do massacre de judeus em 1506, iniciado precisamente naquele lugar.

A proposta da comunidade judaica, secundada pelo patriarcado, foi aprovada pela CML em 30 de Janeiro, depois de uma primeira iniciativa, em 2006, não ter tido resposta.

As três peças que hoje serão desveladas evocam diferentes facetas relacionadas com o massacre de há 500 anos. A escultura proposta pela Comunidade Israelita, da autoria da arquitecta Graça Bachmann, é composta por uma semiesfera inclinada. Numa das legendas, lê-se uma frase bíblica, retirada do livro de Job: "Ó terra, não ocultes o meu sangue e não sufoques o meu clamor!" Uma frase evocativa do massacre completa o texto, escrito sobre uma Estrela de David, símbolo judaico.

Já a parte proposta pelo Patriarcado de Lisboa, da autoria do escultor Carlos Ramos, consta de duas colunas de pedra unidas por uma faixa em metal. Nesta, está inscrito o texto do pedido de perdão público que no mesmo lugar foi pronunciado pelo patriarca, em nome da Igreja Católica, em Setembro de 2000.

No final do encontro Oceanos de Paz, promovido em Lisboa pela Comunidade de Santo Egídio, o cardeal José Policarpo afirmou: "Como comunidade maioritária nesta cidade, há perto de mil anos, a Igreja Católica reconhece profundamente manchada a sua memória por esses gestos e palavras, tantas vezes praticados em seu nome, indignos da pessoa humana e do Evangelho que ela anuncia."

Na terceira peça, um mural proposto pela CML, afirma-se Lisboa como "cidade cosmopolita, multiétnica e multicultural", de acordo com a proposta aprovada na reunião do executivo camarário de 30 de Janeiro.

A chamada Matança da Páscoa ocorreu em 1506. O país vivia uma seca prolongada e surtos de peste. A 19 de Abril, na Igreja de São Domingos, alguém afirmou que vira o rosto de Cristo iluminado num dos altares, ao que outra pessoa terá dito que seria um reflexo do sol. Identificado como cristão-novo, foi imediatamente agredido e espancado até à morte.

O rastilho estava pronto: um frade dominicano prometeu indulgências a quem matasse os hereges. Durante três dias, em plena Semana Santa cristã, Lisboa assistiu a pilhagens, violações, mortes e duas fogueiras improvisadas no Rossio e na Ribeira, com o rei e a corte fora da capital. Com o regresso do rei D. Manuel a Lisboa, os bens dos responsáveis foram confiscados, o frade instigador foi condenado à morte e o convento fechado durante alguns anos. Mas o massacre estava consumado.

 

 Memorial do massacre de judeus afirma tolerância de Lisboa

Um mural em 34 línguas evoca o massacre que, em 1506, matou entre 2000
e 4000 judeus

Pode dizer-se "Lisabona, Orasul Tolerantei"? A frase significa "Lisboa, Cidade da Tolerância" e, desde ontem, é uma das 34 com o mesmo significado, em outras tantas línguas, que se lêem num mural no Largo de São Domingos, na capital. Português, hebraico, árabe, creoulo, tétum ou mandarim são algumas das línguas inscritas para evocar o massacre que, em 1506, matou entre 2000 e 4000 judeus. Foi a Matança da Páscoa, ocorrida em plena Semana Santa cristã, entre 19 e 21 de Abril, com pilhagens, roubos e pessoas queimadas em fogueiras improvisadas no Rossio e na Ribeira.

O mural é uma das três peças do memorial que inclui uma escultura judaica e uma outra católica, e que ontem foi inaugurado na presença de centenas de pessoas. A presidir, António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, e Eliezer Shai Di Martino, rabino judaico.

Os três responsáveis coincidiram na ideia de que este é um memorial que evoca o passado mas se vira para o futuro. "Memória e reconciliação", disse Di Martino. O memorial não pretende restaurar a "controvérsia entre judeus e católicos", aliás já terminada e resolvida "há muito tempo". Antes procura manifestar que há "presença judaica em Portugal e na Europa", com "impacto na cultura" e nos valores "éticos e morais".

Eliezer Shai Di Martino disse ainda que a reconciliação significa que cristãos e judeus devem, hoje, "juntar as forças" em prol de valores comuns e contra a pretensão de "exilar a religião do diálogo social e cultural". Uma ideia sublinhada depois pela vice-presidente da comunidade israelita, Esther Mucznick, em declarações aos jornalistas: "As religiões devem poder participar no espaço público, no debate sobre questões do quotidiano, pois a prática religiosa faz parte do exercício da cidadania."

O cardeal-patriarca falou do massacre e da perseguição aos judeus como "um dos casos mais chocantes e dramáticos" do Ocidente. Os judeus são, hoje, os "irmãos mais velhos" dos cristãos. Ambos partilham a "mesma memória", escutam a "mesma palavra" e rezam "as mesmas orações" e acreditam no Deus "do mesmo projecto de aliança". O memorial evoca uma intolerância ainda não completamente erradicada, acrescentou.

António Costa disse que, contra a "tentação dos negacionismos", se deve a assumir a história "memória viva, crítica, activa e vigilante", sublinhando o valor "simbólico" e "pedagógico" do memorial. E neste início do século XXI, Lisboa deve primar pela tolerância, porque "uma cidade é tanto mais criativa e atractiva quanto mais for tolerante", o que é demonstrado mesmo em "recentes estudos sobre crescimento, desenvolvimento e competitividade urbana".


Lembrar em conjunto

Rui Tavares

Ontem não se corrigiu uma injustiça. Mas fez-se uma coisa bela e digna na cidade. Foram lembrados os lisboetas assassinados por outros lisboetas no massacre de 1506, também conhecido por Matança da Pascoela, por ter ocorrido naquele ano nessa data do calendário litúrgico. Os primeiros destes lisboetas eram tidos por judeus, e os outros tinham-se na conta de bons cristãos. O número de vítimas é incerto, mas pode ter ido até quatro milhares. Foi o pior momento da história da Lisboa portuguesa (talvez apenas superado pela própria conquista da cidade, quando os cruzados passaram a fio de espada muçulmanos, judeus e cristãos que viviam dentro da cerca moura).

Durante séculos, a matança de 1506 foi esquecida, apesar de ter sido cruamente relatada pelos cronistas da época. Mas foi enterrada sob as camadas de vergonha, indiferença e mentira que compõem o mito português dos brandos costumes. De tal forma que, de cada vez que alguém referia a matança de 1506, quase era preciso voltar aos livros e documentos para confirmar que, sim, tinha ocorrido.

A partir de ontem, será mais difícil fingir que não aconteceu. Foi inaugurado no Largo de São Domingos o monumento evocativo da matança de 1506. Ao invés de ocultar, a cidade mostra, dá a ver, o lado mau do seu passado. E isso é uma coisa corajosa.

Um acto corajoso de todos os intervenientes. Da Câmara Municipal de Lisboa, através do presidente da Câmara, António Costa, e do vereador Sá Fernandes, que tinha proposto este monumento nos quinhentos anos do massacre, em 2006, sem sucesso junto da vereação anterior. Um acto corajoso do cardeal-patriarca de Lisboa, José Policarpo, cujas palavras de perdão público ficam agora ali gravadas: "A Igreja Católica reconhece profundamente manchada a sua memória" pelo massacre. Um acto corajoso da Comunidade Israelita de Lisboa, a quem só séculos depois foi permitido voltar a ter presença pública no nosso país, e que agora pede: "Ó terra, não ocultes o meu sangue e não sufoques o meu clamor!", usando palavras do livro de Job. Não ocultes o sangue: um pedido à terra daqueles que morreram que temos obrigação de honrar.

Seria mais cómodo continuar a esquecer. Se não fosse tão cómodo, não teríamos esquecido durante mais de quinhentos anos. Seria cómodo dizer que um monumento não muda nada. Seria cómodo dizer que é "só" simbolismo ou politicamente correcto, e passar ao lado deste dever.

Lembrar em conjunto ("comemorar") a matança de 1506 é incómodo mas faz de nós melhores cidadãos. Em primeiro lugar, porque nos lembra das coisas terríveis que nós humanos somos capazes de fazer, e assim serve de aviso para que não voltem a ocorrer. Em segundo lugar, porque ficamos a conhecer melhor o lugar onde vivemos, e isso nos ajuda a entendê-lo e melhorá-lo. E em terceiro lugar, porque os nossos antepassados nos passaram isto: corre misturada nas veias de muitos lisboetas a memória genética dos lisboetas de 1506, do lado das vítimas e dos assassinos. E quanto àqueles que não descendem desses lisboetas antigos: são hoje novos lisboetas a quem devemos hospitalidade, se aprendermos com os nossos erros.

Escrito por RELIGIONLINE em 23:34:46 | Link permanente | Comments (0) |

Um balanço da viagem do Papa aos EUA e ONU

Sob o título “Ainda melhor que o esperado”, este é o balanço de António Marujo, no Público de dia 21, sobre a visita do Papa aos EUA e ONU.

Correu bem ao Papa Bento XVI a sua visita aos Estados Unidos e à sede da ONU. Não era de esperar que corresse mal, mas os resultados são melhores do que se poderia pensar no início.
Há três factores que para isso contribuíram: o encontro com as vítimas de abusos sexuais de membros do clero e as sucessivas declarações de Bento XVI sobre o tema; o discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, peça que sintetiza alguns princípios fundamentais do Vaticano em política internacional; os encontros com judeus e a mensagem que dirigiu ao judaísmo mundial coincidindo com o início da Páscoa judaica. Claro, há ainda o emotivo e silencioso instante no Ground Zero, mas esse é o momento que fica de recordação mediática.
Há uma decepção: o discurso sobre o ecumenismo, no encontro com os representantes das diferentes igrejas cristãs presentes nos Estados Unidos. Bento XVI afirmou, no início do seu pontificado, que o diálogo ecuménico seria a sua prioridade. E sublinhou várias vezes que não bastam já declarações, sendo necessários "passos concretos" - a expressão é dele.
Quem faz tal afirmação terá alguma ideia concreta a propor - não pode apenas esperar que outros avancem. E para quem fez desse processo a sua bandeira, tarda em perceber o que o Papa pretende nesta área, para além das boas relações com protestantes e ortodoxos. O discurso de sexta à noite, perante 300 responsáveis de diferentes igrejas cristãs, desiludiu, porque nem sequer havia qualquer alusão à prioridade. Ficou ela já pelo caminho?
Há também um tema a que o Papa passou ao lado: ao referir por diversas vezes a defesa da vida, foi pena Bento XVI não ter referido nunca a violência que marca alguns aspectos da sociedade norte-americana e a permanência da pena de morte em muitos estados do país. Claro, não vinha muito a propósito nos diferentes encontros e iniciativas previstas no programa. Mas um Papa não precisa de pretextos.
A questão dos abusos sexuais do clero pode vir a ser a mais forte consequência desta viagem de Bento XVI para a Igreja Católica nos Estados Unidos. O Papa escolheu cada momento e cada interlocutor: em pleno voo, disse aos jornalistas que se sentia "profundamente envergonhado". Tratava-se de dizer ao que ia.
Aos bispos, recordou depois que o problema foi muitas vezes "mal gerido" - por eles ou por colegas que entretanto deixaram o lugar. Aos padres que permanecem, manifestou-lhes solidariedade e compreensão com as dificuldades. E, mais que tudo, ouviu as vítimas. Muitas vezes, muitos católicos sofrem em silêncio porque sentem que não são escutados por aqueles cujo ministério é, em primeiro lugar, um ministério de escuta. O facto de um Papa ter ouvido aqueles que têm profundas queixas de actos de membros da instituição (actos com consequências para a vida inteira) é duplamente importante.
O discurso da ONU merece leitura atenta. Sem se referir expressamente a nenhum caso concreto da agenda internacional - nem isso seria de esperar -, o Papa falou das questões mais importantes. Insistiu na universalidade dos direitos humanos, disse que a pobreza tem que ser resolvida, que os conflitos devem ser ultrapassados pela diplomacia, falou do direito de ingerência e contestou que possa haver um qualquer directório mundial.
Uma nota final: nas diferentes iniciativas do programa, a diversidade étnica, cultural e religiosa esteve sempre presente - nas línguas utilizadas ou na música. Só ontem à noite, na missa do Yankee Stadium, ouviu-se música litúrgica, africana, Schubert, Brahms e a Ode à Alegria de Beethoven, para concluir e dizer adeus.

Escrito por RELIGIONLINE em 23:18:53 | Link permanente | Comments (0) |

"Monstro" nazi esconjurado pelo Papa numa festa com mais de 20 mil jovens

O relato do Público de dia 21 sobre o encontro, sábado à noite, do Papa com os jovens, é o seguinte:

Desde João Paulo II, os encontros de jovens com o Papa transformaram-se em festas animadas e espontâneas. Foi assim sábado à noite (hora de Lisboa), quando Bento XVI se encontrou com cerca de 20 mil (diz a AFP) ou 30 mil jovens (versão da Reuters). Canções, gritos hispânicos de "viva el Papa" e os "parabéns" cantados em alemão - cumpriam-se três anos sobre a eleição de Ratzinger. Em troca, Bento XVI recordou a juventude sob um regime que era um "monstro".

No campus do Seminário de São José, os jovens ofereceram ao Papa vários presentes simbólicos. Entre eles, retratos de seis missionários oriundos de várias zonas do mundo - incluindo uma índia e um escravo - que viveram nos Estados Unidos e hoje estão canonizados ou em processo de beatificação (vídeo disponível em http://www.uspapalvisit.org/video_audio.htm)

"Os meus anos de adolescente foram arruinados por um regime funesto que pensava ter todas as respostas. A sua influência cresceu, infiltrou-se nas escolas e organismos civis, assim como na política e mesmo na religião - antes que se pudesse perceber claramente que era um monstro."

Esse mesmo regime, acrescentou, "baniu Deus e tornou-se cego a tudo o que era bom e verdadeiro". E, dirigindo-se aos jovens: "Muitos dos vossos pais e avós terão contado o horror da destruição que se seguiu. Alguns deles vieram para a América precisamente para escapar a esse terror."

Joseph Ratzinger, desde 2005 Papa Bento XVI, nasceu na Alemanha em 1927 e foi incorporado à força num corpo de defesa durante os últimos meses da II Guerra Mundial.

O "poder de destruição" não morreu, avisou o Papa. E continua na droga, na pobreza, no racismo, na violência, nas humilhações infligidas às mulheres ou ainda na "manipulação da verdade". Antes, o Papa encontrara-se com crianças e jovens deficientes.

António Marujo

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A oração de Bento XVI com as vítimas de abusos sexuais do clero

O relato  do Público de dia 19 sobre o encontro do Papa com as vítimas de abusos sexuais fica aqui também registado.

Rita Siza, Washington

O encontro, absolutamente inédito, foi mantido de fora da agenda oficial e só foi confirmado já depois de ter decorrido: na quinta-feira, o Papa Bento XVI reuniu-se em privado com um grupo de homens e mulheres vítimas de abusos sexuais por membros do clero norte-americano.

A reunião foi mediada pelo cardeal Sean O"Malley, arcebispo de Boston, e aconteceu a pedido de Bento XVI. Antes da chegada aos Estados Unidos, tinha sido muito criticada a opção de Bento XVI de não visitar Boston, a cidade onde há seis anos rebentou o escândalo de pedofilia e abusos que manchou a Igreja Católica dos Estados Unidos.

As investigações que se sucederam expuseram uma longa "tradição" de comportamentos imorais e ilegais por parte de clérigos e outros membros da comunidade católica, sucessivamente escondidos ou ignorados pelas mais altas hierarquias da Igreja: desde 1950, pelo menos 12 mil crianças sofreram abusos. A Conferência de Bispos admitiu que mais de 5000 padres estiveram envolvidos nesses actos. A Igreja já despendeu mais de dois mil milhões de dólares em indemnizações judiciais às vítimas.

Segundo os serviços de imprensa do Vaticano, o encontro de quinta-feira, que durou cerca de meia hora, decorreu a meio da tarde na capela da Nunciatura Apostólica de Washington. De manhã, Bento XVI tinha celebrado missa no estádio dos
Nationals - onde, mais uma vez, apresentara as desculpas da Igreja pelo terrível comportamento dos seus membros.

O comunicado do Vaticano diz que o Papa ouviu as histórias das vítimas de abuso e "transmitiu-lhes palavras de alento e esperança". "Foi uma experiência muito positiva e importante para a recuperação destas pessoas. Todos rezaram juntos, foi muito bonito e emocionante", resumiu o cardeal O"Malley no final do encontro.

A Igreja procurou manter em segredo a identidade dos participantes no encontro - um grupo de homens e mulheres de meia idade, todos da região de Boston -, bem como as suas histórias. Mas ontem, alguns deles aceitaram falar à comunicação social, relatando uma experiência que todos descreveram como "muito comovente".

Cada um teve oportunidade de estar a sós com o Papa por breves minutos, o tempo para contar o que lhes tinha acontecido e realizar uma breve oração. Segundo Olan Horne, um dos homens presentes, foi difícil recordar os "factos traumatizantes do passado", mas ao mesmo tempo "muito reconfortante" receber a compreensão e bênção" de Bento XVI.

"O Papa ouviu tudo com atenção. Conversou comigo, deu-me os parabéns pelo meu futuro casamento, e depois rezámos. O meu coração derreteu", relatou uma das vítimas. O grupo não deixou, contudo, de aconselhar ao Papa que "fizesse mais" pela reparação das vítimas e reconstrução da Igreja. "Eu disse-lhe: Santo Padre, quero que saiba que há um cancro no seu rebanho, e precisa de corrigir essa situação. Tenho muita esperança em que o faça", contou Bernie McDaid, à rádio pública NPR.

No final da reunião, Bento XVI convidou todos os participantes a juntarem-se em oração por todas as vítimas dos abusos da Igreja - de acordo com o cardeal O"Malley, o Papa tinha na mão uma lista com mais de mil nomes de pessoas que sofreram os ataques do clero. "Foi a primeira vez em sete anos que o líder da Igreja Católica disse inequivocamente que estes comportamentos do passado não são aceitáveis. Foi um grande avanço", concluiu Gary Bergeron, uma das vítimas que, depois do escândalo rebentar, bateu à porta do Vaticano durante cinco dias seguidos e nunca foi recebido.

Escrito por RELIGIONLINE em 23:08:45 | Link permanente | Comments (0) |

O discurso do Papa na ONU em defesa dos direitos humanos

Vale a pena reter ainda alguns pormenores da visita do Papa aos Estados Unidos e à ONU. Aqui, a notícia do Público de dia 19 sobre o discurso na assembleia geral das Nações Unidas.

 

Papa vigoroso a favor da ONU e de direitos humanos universais

António Marujo

Bento XVI não se referiu a temas concretos da agenda internacional, mas deixou recados em todas as direcções, no discurso na ONU

Defesa do direito de ingerência em situações de tragédia. Crítica à subordinação das decisões a "uns poucos". Afirmação do papel da ONU na redução das desigualdades. Apologia da universalidade dos direitos humanos, contra perspectivas minimalistas. E lembrança de que os Estados devem, em primeiro lugar, proteger os seus cidadãos. A intervenção do Papa Bento XVI, ontem, na Assembleia Geral das Nações Unidas, não citou temas concretos da actualidade, mas referiu vigorosamente princípios que devem regular as relações entre os povos. E deu recados em várias direcções.

Bento XVI confirmou as expectativas criadas sobre a "importante" intervenção na ONU. Entrou a dizer ao que vinha: as Nações Unidas são exemplo de como os "problemas e conflitos relativos à comunidade mundial podem estar sujeitos a uma regulamentação comum". Esse "grau superior de ordenamento internacional", citando uma frase de João Paulo II, deve "responder às demandas da família humana, mediante regras vinculadoras e estruturas capazes de harmonizar o desenvolvimento quotidiano da vida dos povos".

Mais necessário ainda se torna, disse o Papa Ratzinger, quando se vive o "paradoxo" de um "consenso multilateral que padece uma crise por causa da sua subordinação às decisões de uns poucos, enquanto os problemas do mundo exigem intervenções conjuntas da comunidade internacional". No início da visita, perante o Presidente George W. Bush, Bento XVI pedira que os Estados Unidos apoiassem a ONU.

O Papa referiu aspectos que exigem a intervenção colectiva: segurança, desenvolvimento, redução das desigualdades, protecção do ambiente, atenção particular à África e outras regiões que "correm o risco de só sentir os efeitos negativos da globalização". E lançou um alerta aos cientistas: alguns aspectos da investigação científica podem representar uma "clara violação da ordem da criação". Adivinha-se o aviso sobre manipulação genética. E alertou ainda contra a destruição da vida na Terra.
O "princípio da responsabilidade de proteger", definido recentemente, levou o Papa a afirmar que o papel primário dos Estados é "proteger a própria população de violações graves e contínuas dos direitos humanos, como também das crises humanitárias". E, caso os Estados não sejam capazes de o fazer, "a comunidade internacional deve intervir", respeitada a Carta das Nações Unidas.

Contra quem hesita, avisou Ratzinger: "A indiferença ou a falta de intervenção é que causam um dano real." Tornam-se necessários "meios para prevenir e controlar os conflitos", devem esgotar-se as vias diplomáticas e estar atento "a todos os sinais de diálogo".

 

Um "substrato ético"

Era o pretexto para entrar no quinhão mais importante do texto (na íntegra em www.vatican.va), aproveitando os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em Dezembro de 1948. A ONU surgiu porque se abandonara "a referência ao sentido da transcendência e da razão natural", uma referência ao nazismo e à II Guerra Mundial. Por isso, perante os "novos e insistentes desafios, é um erro retroceder para uma atitude pragmática, limitada a determinar "um terreno comum", minimalista nos conteúdos e débil na sua efectividade".

A declaração surgiu de "uma convergência de tradições religiosas e culturais" que colocavam a pessoa humana no centro. Por isso, os direitos humanos são cada vez mais "a linguagem comum e o substrato ético das relações internacionais". Retirar essa carga aos direitos humanos seria "restringir o seu âmbito e ceder a uma concepção relativista" e negaria a sua "universalidade em nome dos diferentes contextos culturais, políticos, sociais e religiosos".

Ratzinger disse ainda que a promoção dos direitos humanos é o modo "mais eficaz" de "extirpar desigualdades", aumentar a segurança. E devem redobrar-se os esforços para que não se coloque em causa a "íntima unidade" da declaração. Esta reflecte um "ideal comum" e não pode ser aplicada em "partes separadas".

A terminar, pediu que a ONU apoie o diálogo inter-religioso e recordou a relação da liberdade religiosa com os direitos humanos: "É inconcebível que os crentes tenham que suprimir uma parte de si mesmos - a sua fé - para ser cidadãos activos."

Escrito por RELIGIONLINE em 23:02:40 | Link permanente | Comments (0) |

Sexta-feira, Abril 18, 2008

Oração de Bento XVI no Ground Zero

Quando, no domingo, visitar o Ground Zero, o local onde se localizavam as Torres Gémeas, Bento XVI recordará assim as vítimas dos atentados de 11 de Setembro:


Oh, Deus de amor, compaixão e cura,

olhai para nós, pessoas de muitos credos e de diferentes tradições,

que se reúnem hoje neste lugar,

cenário de incrível violência e dor.
pedimos-Te que a tua bondade
conceda luz eterna e paz
a todos os que morreram aqui,
começando pelos que o fizeram heroicamente:
bombeiros, polícias,
trabalhadores dos serviços de emergência,
e todos os homens e mulheres inocentes
que foram vítimas desta tragédia,
simplesmente porque o seu trabalho ou serviço
os conduziu aqui a 11 de Setembro de 2001.
pedimos-Te que a tua compaixão,
outorgue a cura àqueles que, devido a sua presença aqui, naquele dia,
ficaram feridos e enfermos.
Cura, também, a dor das famílias que ainda estão na dor
e todos aqueles que perderam entes queridos nesta tragédia.
Concede-lhes força para continuar as suas vidas
com valor e esperança
Recordamos também aqueles que sofreram morte, feridas e perdas
no mesmo dia no Pentágono e em Shanksville, na Pensilvânia,
enquanto nossa oração abraça a sua dor e sofrimento.
Deus de paz concede tua paz ao nosso mundo violento:
paz aos corações de todos os homens e mulheres
e paz entre as nações da terra.
Orienta para o teu caminho de amor
aqueles cujos corações e mentes
estão consumidos pelo ódio.
Deus de compreensão,
Constrangido pela magnitude desta tragédia,
buscamos tua luz e guia
para enfrentar tão terríveis eventos.
Concede que aqueles cujas vidas se perderam

possam viver de maneira que as vidas aqui perdidas

não se tenham perdido em vão.
Conforta-nos e consola-nos,
fortalece-nos na esperança,
e dai-nos a sabedoria e valor
para trabalhar sem descanso por um mundo
onde a verdadeira paz e amor reinem
entre as nações e nos corações de todos.

Escrito por RELIGIONLINE em 03:07:36 | Link permanente | Comments (0) |

Quarta-feira, Abril 16, 2008

Diplomacia ao pequeno-almoço

Antecipando o que poderia ser o tom do discurso de Bento XVI, o Público dá conta da visão da diplomacia entre Vaticano e Estados Unidos. O discurso está entretanto disponível no site oficial do Vaticano.

 

Será uma conversa à procura dos pontos comuns de entendimento em matérias como o aborto ou a contracepção ou, antes, uma chamada de atenção do Papa para os aspectos da política externa norte-americana que mais desagradam ao Vaticano?
O encontro entre Bento XVI e George W. Bush, às 10h30 de hoje (15h30 em Lisboa), na Casa Branca, deverá incluir ambos os ingredientes. A Time notava esta semana que não há discursos ou textos do então cardeal Ratzinger sobre a invasão do Iraque. Mas conta a história de uma conversa com outros dois cardeais, em que Ratzinger, poucos dias depois das primeiras bombas sobre Bagdad, terá dito, sacudindo as mãos: "Basta, basta!" João Paulo II gritara, pouco tempo antes: "A guerra nunca mais!"
Já eleito Papa, Bento XVI nunca falou directamente sobre o tema maior da agenda internacional, mas referiu muitas vezes o sofrimento dos iraquianos. O estilo é menos interventivo do que o de João Paulo II - ou os acontecimentos ainda não lhe proporcionaram ocasião de intervenção?
Citado pela Time, Andrea Riccardi, historiador e líder do grupo católico Comunidade de Santo Egídio, dizia: "Bento XVI tem um desígnio "geocultural", pretendendo desafiar a sociedade contemporânea. Antes de tudo, ele quer provocar um abalo de consciência no Ocidente que cresceu próximo da fé."
O presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz (CPJP) e ex-representante do Vaticano na ONU, cardeal Renato Martino, avisou que a visita ontem iniciada não deve ser interpretada como apoio à política de Bush filho. "É evidente que o principal erro foi começar uma segunda guerra" no Golfo, disse. Agora, a avaliação sobre a eventual saída das tropas "é muito difícil", mas o Vaticano continua a repudiar "a guerra".
No encontro à hora do café, o Papa irá levantar a questão da imigração, disse o próprio ontem, aos jornalistas, no voo entre Roma e Washington. Mas haverá, até domingo, outros dois momentos politicamente importantes, com a guerra, o terrorismo e os direitos humanos como temas de fundo: um discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas (onde o Papa Paulo VI clamou, em 1965, "nunca mais a guerra, nunca mais a guerra") e uma oração no Ground Zero, o lugar do impacto dos atentados de 11 de Setembro.
Esta semana, Bento XVI enviara uma mensagem a um seminário do CPJP, em que defendia que os gastos com armamento - que vão "contra a Carta das Nações Unidas" - fossem desviados para o desenvolvimento dos povos.
Bush tentou há dias explicar as convergências com o Papa e a admiração que tem por ele. Ontem, a porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, disse que a conversa de hoje seria "franca" e que as divergências sobre o Iraque pertenciam ao passado.

António Marujo

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