Sábado, Julho 19, 2008

Predomínio da imagem e pobreza do símbolo

Um texto de Anselmo Borges

 
No Diário de Notícias

"No século VIII, no quadro da ameaça militar e religiosa do islão a Bizâncio, a tradição cristã viu-se confrontada com a pureza radical do monoteísmo islâmico e a sua proibição das imagens. Os imperadores bizantinos mandaram destruir as imagens e os seus defensores foram perseguidos como idólatras. Embora esta luta dos iconoclastas tenha acabado com a vitória dos iconódulos (veneradores das imagens), pois Jesus Cristo é a imagem visível de Deus, nunca deveria esquecer-se que Deus é infinitamente transcendente e, se o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, Deus não é à imagem do Homem.

Diz-se perante certas imagens: vale mais uma imagem que milhares de palavras. Pense-se, por exemplo, naquelas imagens televisivas das crianças esfomeadas na Etiópia -- pequenos andaimes de ossos a soçobrar, num olhar suplicante e quase morto -, e o soco que nos dão no estômago e na alma.

Aqui, porém, do que se trata é da civilização da imagem, daquela civilização que quer a visualização de tudo. Trata-se daquilo para que uma aluna me chamou a atenção. Ela tinha feito um trabalho sobre A Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord, um dos breviários da geração de 68, e disse-me: "Viu a transmissão televisiva do funeral do Papa João Paulo II? Aquilo era espectáculo, donde o mistério da morte foi arredado. Logo a seguir, em sequências vertiginosas, lá estavam imagens publicitárias e futebol: tudo o mesmo." Ah! A alienação com o futebol: "pensar com os pés" (Carlos Fiolhais)!

Há perigos na civilização da imagem?

Nela, por paradoxal que pareça, julga-se que se está perante a hiper-realidade, mas o que se vai impondo é o virtual, com a consequente perda da realidade real.

Depois, é isso: a vertigem de imagens e de informações, em voragem. Mas, então, onde está o tempo da possibilidade de distanciamento e de crítica? Ah!, e a própria crítica, se existe, tem de ser dada em espectáculo, dissolvendo-se então com ele e nele, pois, como escreveu José María Mardones, mais do que permitir a reflexão e a crítica, do que se trata é de "seduzir".

Na civilização da imagem, importante não é ser, mas parecer e aparecer. Quem não aparece existe? Por isso, lá dizem os políticos que decisivo é aparecer, nem que seja para dizer mal.

De novo Mardones: o predomínio da imagem, com a pretensão de mostrar tudo, até a interioridade do sujeito, tem outra consequência perversa: "o esvaziamento da intimidade."

O símbolo, esse, abre para a profundidade do real e para o mistério e vincula à transcendência. Na civilização da imagem, onde a realidade é o que se mostra, vive-se na imediatidade do que há, do mercado das sensações, do empírico-funcional, e, portanto, na in-transcendência.

E uma conclusão, que pode parecer abrupta. O Presidente da República espantou-se com a indiferença e distância dos jovens em relação à política. Seja-me permitido espantar-me com o espanto do Presidente. Razão de fundo - não a única, evidentemente - para esse distanciamento está em que o espectáculo da política e dos políticos é muitas vezes deprimente e pouco recomendável.

Depois, há aquela parábola de Arthur Clarke sobre os nove mil milhões de Nomes de Deus, que li citada por Mardones. Havia uma comunidade de monges tibetanos, que tinha a tarefa de reescrever e contar os nomes de Deus. O seu número ascendia a nove mil milhões, rezando a profecia que, cumprida a tarefa, viria o fim do mundo. Ora, aconteceu que os monges se cansaram com a contagem interminável. Então, recorreram aos peritos da IBM. Eles chegaram armados com computadores de último modelo e rapidamente cumpriram a missão. Os técnicos, que não acreditavam em profecias nem nos nomes de Deus, encaixotaram a maquinaria e iniciaram a viagem de regresso. Mas eis que, quando desciam para o vale, começaram a apagar-se o sol e todas as estrelas, uma a uma.

Com o fim do trabalho simbólico e o império da imagem e da técnica, o mundo humano vai definhando. Sem o símbolo, também não há lugar para a religião na sua autenticidade e verdade. Só para a idolatria".
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Quinta-feira, Julho 17, 2008

Católicos e bem comum

No último fim de semana, um numeroso grupo de pessoas, sobretudo ligadas a grupos católicos, reuniu-se numa Convenção em Filadélfia para reflectir e pensar a acção em prol do bem comum.
Na ocasião, foi aprovada uma plataforma de entendimento que se pretende venha a marcar a agenda política, nestes meses que antecedem a eleição do novo presidente dos Estados Unidos da América.
O texto da Plataforma para o Bem Comum foi disponibilizado pelo National Catholic Reporter.
Existe igualmente um blog ligado a estas movimentações: Catolics in Alliance for the Common Good.
Mais informação: aqui.
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Sexta-feira, Julho 11, 2008

A possibilidade de reencontrar a vida


 «Silêncio!
Uma rã mergulha
dentro de si».

(Matsuo Bashô)
 
Este vaivém que Julho e Agosto introduzem (com viagens mais próximas ou longas, tráfegos de vária ordem, alterações ao quadro de vida corrente…) constitui, para lá de tudo o mais, uma espécie de coreografia interior. Dir-se-ia que a própria vida solicita que a escutemos de outra forma. De facto é disso que se trata, mesmo que se não diga. É com esse imperativo que cada um de nós, mais explícita ou implicitamente, luta: a necessidade irresistível de reencontrar a vida na sua forma pura.
Se a linha azul do mar tanto nos seduz é também porque essa imensidão nos lembra o nosso verdadeiro horizonte. Se subimos aos altos montes é porque na visão clara que aí se alcança do real, nessa visão resplandecente e sem cesuras, reconhecemos parte importante de um apelo mais íntimo. Se buscamos outras cidades (e nessas cidades uma catedral, um museu, um testemunho de beleza, um não sei quê…) é também perseguindo uma geografia interior. Se simplesmente investimos numa dilatada experiência do tempo (refeições demoradas, conversas que se alongam, visitas e encontros) é porque a gratuidade, e só ela, nos dá o sabor adiado da própria existência.
Entendemos bem aquele verso de Rilke que diz: «Espero pelo Verão como quem espera por uma outra vida». Na verdade, não é por uma vida estranha e fantasiosa que esperamos, mas por uma vida que realmente nos pertença. Por isso é tão decisivo que as férias, tempo aberto às múltiplas errâncias, não se torne um período errático e vago; tempo plástico e criativo e não se enrede nas derivas consumistas; tempo propício à humanização não se perca na fuga a si mesmo e no ruído do mundo. Em toda a tradição bíblica o repouso é uma oportunidade privilegiada para mergulhar mais fundo, mais dentro, mais alto. É aceitar o risco de sentir a vida integralmente e de maravilhar-se com ela: na escassez e na plenitude, na imprevisibilidade dolorosa e na sabedoria confiante.

José Tolentino Mendonça
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"Laicidade e laicismo não são a mesma coisa"

Cardeal Bertone: «Laicidade e laicismo não são a mesma coisa»Em um discurso por ocasião do 60º aniversário da Constituição Italiana

Por Inmaculada Álvarez

ROMA, sexta-feira, 11 de julho de 2008 (ZENIT.org).- É necessário diferenciar o laicismo, como privatização do religioso e exclusão da vida pública, da laicidade, que supõe a separação necessária entre a Igreja e o Estado, assumindo o religioso como parte da esfera social.Assim afirmou ontem o secretário de Estado vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, durante um congresso no Campidoglio, por ocasião do 60º aniversário da aprovação da constituição italiana. No ato estiveram presentes personalidades de todas as tendências, como Mario Cutrufo, Giulio Andreotti, Massimo D'Alema e Gianni Alemanno, prefeito de Roma. 

Em seu discurso, o cardeal Bertone recordou que a Constituição da Itália «está baseada no princípio da laicidade». Mas laicidade entendida no sentido anglo-saxônico e não no francês, «que fez da França da terceira República um modelo de comportamento anti-religioso». 

«Este princípio precisa ser aprofundado», afirmou o purpurado. «Há elementos que auguram uma evolução daquela rígida laicité. Junto ao modelo francês de laicidade, está o anglo-saxão, que mostra outra aproximação do fato religioso.»

Na Itália, acrescentou o cardeal Bertone, enquanto muitos pensadores expressam um conceito de laicidade «aberto ao diálogo e à confrontação construtiva», alguns meios de comunicação expressam «uma laicidade cultural definida por oposição ao fato religioso (cristão), assumida como modelo de uma laicidade política que parte do critério de exclusão do religioso». 

O secretário de Estado recordou o diálogo entre o então cardeal Joseph Ratzinger e o filósofo Jurgen Habermas, no qual se concluiu que «uma autêntica democracia leiga permite às instituições religiosas que publiquem suas mensagens para poder oferecer aos cidadãos uma matéria de reflexão de forma equânime». 

Impedir as Igrejas de mostrarem sua postura sobre qualquer tema «não é um ato de laicidade, mas de ostracismo para um sistema de valores, só porque este não encaixa dentro da cultura dominante», acrescentou. 

«Alguns defensores da laicidade crêem que não devem existir valores absolutos, porque sua existência pressuporá automaticamente a falta de laicidade. Habermas, ao contrário, afirma que para salvar-se do risco do relativismo radical e do totalitarismo ideológico, são necessários uns princípios absolutos, segundo, diz ele, o ‘mínimo comum ético’.»

A tarefa de qualquer pessoa que tenha um sistema forte de valores, seja católico ou de outra confissão ou cultura, afirma o cardeal Bertone, é a de «realizar o esforço de traduzir seus próprios valores à ‘linguagem universal’ do debate democrático». (...)
Escrito por RELIGIONLINE em 23:30:56 | Link permanente | Comments (0) |

Quinta-feira, Julho 10, 2008

50 anos da célebre carta a Salazar

Há cinquenta anos, D. António Ferreira Gomes,
escrevia um “Pró-memória” que serviria de
preparação para uma conversa com o Presidente
do Conselho, Oliveira Salazar.
Divulgado que foi, prematura e intencionalmente,
por pessoas alheias, senão mesmo contrárias,
ao pensamento e à acção do Bispo do Porto, esse
Pró-memória levou ao cancelamento do encontro e
conduziu D. António Ferreira Gomes a dez anos de
exílio forçado e doloroso.
Quem hoje relê o documento, não pode ter dúvidas:
o que estava essencialmente em causa era a
doutrina da Igreja, o pensamento social cristão e a
liberdade de o exprimir.
Nas palavras do Bispo do Porto era evidente a preocupação
pela miséria em que viviam muitos portugueses
e a afirmação do direito de participar activamente
na vida social e política, designadamente
através da acção sindical e partidária.
No contexto de um regime autoritário e decadente,
esta intervenção corria o risco de ser lida como uma
intromissão na vida política. Mas a verdade é que,
ao longo da história da Igreja e mesmo na actualidade,
o poder sempre se deu mal com a voz crítica
de bispos, padres ou leigos que procuram ser coerentes
com os critérios do Evangelho; chamando,
corajosamente, as coisas pelos seus nomes.
D. António Ferreira Gomes tinha os seus limites e
fragilidades e tornou-se, inevitavelmente, uma fi -
gura controversa. Mas muito se deve a ele que a
Igreja em Portugal não fosse simplesmente vista
como aliada conivente do antigo regime.
E se dúvidas houvesse, a coerência do seu modo
de pensar e agir como homem de Igreja ficou bem
demonstrada após o 25 de Abril, ao denunciar as
pretensões totalitárias de uma revolução que ameaçava
violar direitos humanos fundamentais.
Cinquenta anos depois, quem conheceu de perto D.
António Ferreira Gomes ou leu as suas “Cartas ao
Papa” não pode deixar de recordar a clarividência
de alguém que sabia ler o presente, com um olhar
bem aberto ao futuro.

Nota de Abertura, RR, in Página 1, 10.7.08
Escrito por RELIGIONLINE em 22:48:57 | Link permanente | Comments (0) |

Quarta-feira, Julho 09, 2008

Leitura

Já tem quase um ano, mas só agora o vimos:

Jurgen Habermas: A Secular Atheist Changes His Mind on Religion in the Public Sphere

Escrito por RELIGIONLINE em 21:41:16 | Link permanente | Comments (0) |

Quinta-feira, Julho 03, 2008

A leveza de Deus

Por José Tolentino Mendonça, teólogo

Para António Alçada Baptista, com saudades.

Baudelaire recorda que, no relato dos Evangelhos, não há lugar para o riso, retomando um dito de São João Crisóstomo acerca de Jesus: «Ele chorou algumas vezes, mas jamais se riu». E Nietzsche parte daí para uma espécie de suspeição generalizada sobre o cristianismo contemporâneo: “o cristianismo surgiria mais credível se os cristãos parecessem satisfeitos”. Encontra-se, de facto, culturalmente difundida a ideia de uma extinta alegria nos textos sagrados, na teologia e no viver dos cristãos, que sublinhariam antes o estreito caminho da exigência e do sacrifício (sorumbáticos!) como prova da Salvação. Bastaria olhar para essa pintura magnífi ca de Frei Angélico, “A Ronda dos Eleitos”, que representa a eternidade como uma dança, ou ouvir o riso de Deus no “Messias” de Haendel para perceber que tudo é mais complexo. O que não quer dizer que Nietzsche tenha inventado que há práticas cristãs pesarosas.
Já tinham lançado o alerta os monges Rabelais e Erasmo que, pela via da sátira e do riso, tentaram iluminar a alma do seu tempo, acreditando que o cristianismo conspira, desde a sua essência, para a alegria. Hoje há cada vez mais teólogos a revolver a tradição para aprofundar esse motivo. E um dos méritos é, precisamente, reintroduzirem o humor como apelo (e termómetro) da existência cristã.
As leituras narrativas dos Evangelhos mostramnos como o humor irónico é uma estratégia de relação (e de persuasão) que Jesus usa. Só a ironia, por exemplo, ajuda a esclarecer algumas das suas palavras, que de outro modo arriscam-se a passar ilegíveis. Em Lucas 10, 24-28, que tomado assim é puro “non-sense”, Jesus responde a um homem de leis que lhe pergunta “que hei-de fazer para herdar a vida eterna?” com uma questão sobre o ponto de vista da Lei sobre o assunto. E no fi nal remata: «Faz isso e viverás». O que Jesus está a dizer é que basta outra vez a Lei para se ser salvo? A mesma ironia no «Dai, pois, a César o que é de César…» (Lc 20,25) ou na expressão com que introduz a corrosiva imagem do camelo a passar pelo fundo duma agulha (Lc 19,24). Jesus afi rma: «é mais fácil um camelo passar…», esperando que todos reconheçam que tal situação é, se não desesperada, pelo menos desesperante. Nas voltas do humor abre-se espaço para a sabedoria.

in Página 1, 3.7.2008
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Terça-feira, Julho 01, 2008

“Combater a pobreza, construir a paz”


“Combater a pobreza, construir a paz” é o tema que o Papa escolheu para a próxima Jornada Mundial da
Paz, que se celebra a 1 de Janeiro de 2009.
 Bento XVI considera que a pobreza é um problema grave, não apenas do ponto de vista material mas também moral e espiritual e que exige uma resposta urgente por parte de todos. Ainda recentemente, na mensagem que enviou aos participantes na Assembleia da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Papa denunciou o escândalo da pobreza no mundo.
“Como podemos permanecer insensíveis aos apelos dos que, nos vários continentes, não conseguem alimentar-se com o sufi ciente para viver? Pobreza e subalimentação não são uma mera fatalidade provocada por situações ambientais adversas ou por calamidades naturais… As considerações do tipo exclusivamente técnico ou económico não devem prevalecer sobre os deveres de justiça a favor dos que sofrem a fome”, afirmou Bento XVI.
O escândalo da pobreza manifesta, por isso, a falta de adequação dos actuais sistemas de convivência humana
para a promoção e realização do bem comum.
É neste contexto que o Papa propõe uma refl exão aprofundada não só sobre as verdadeiras raízes da pobreza material, como também da miséria espiritual que afecta tantos milhares de pessoas e que põe em causa a paz no mundo.

Aura Miguel
Página 1, 1.7.2008
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