Domingo, Setembro 21, 2008

O sermão do cónego laico e republicano

No Público deste domingo, 21, frei Bento Domingues comenta a recente viagem do Papa Bento XVI a França.

1. Os dias que o romano pontífice passou em França serviram, além do mais, para mudar o olhar de muitos franceses sobre o Papa e para alterar a ideia de Bento XVI sobre o papel da Igreja na sociedade francesa. Reunir 260 mil pessoas em Lourdes e cerca do mesmo número em Paris revela capacidade de convocação. Tornou-se evidente, para a opinião pública, que o catolicismo é uma dimensão bem presente na paisagem social e religiosa de França.

O Papa teve várias intervenções, mas o grande sermão foi proferido pelo presidente do Estado mais laico da Europa, Nicolas Sarkozy. Uma surpresa oportunista? Talvez nem tanto. Já quando era o encarregado dos cultos, no governo anterior, deu a entender que a prática da laicidade não podia evitar novas interpretações e evoluções, tendo em conta as mudanças da sociedade francesa.

Como presidente da República, foi-lhe conferido, no dia 20 de Dezembro de 2007, o estranho título de cónego honorário do cabido da basílica de S. João de Latrão, sede do Papa, Patriarca do Ocidente, bispo de Roma. Henrique IV, rei de França, doou, em 1604, uma abadia francesa a esse cabido. Em reconhecimento, este atribuiu-lhe, e aos seus sucessores, o título de cónego honorário. Entre os últimos presidentes franceses, De Gaulle e Valéry Giscard d’Estaing foram a Roma receber esse título. Pompidou e Mitterrand abstiveram-se. Nicolas Sarkozy justificou a decisão de o acolher: «Ao vir esta noite a S. João de Latrão e aceitando o título de cónego honorário desta basílica, assumo plenamente, na minha pessoa, o passado da França e o laço particular que, desde há muito tempo, une a nossa nação à Igreja».

2. Podia ter ficado por aqui que já não era pouco, mas foi mais longe. Sabendo que já ninguém põe em causa a separação da Igreja e do Estado, que a tradição laica perdeu a sua irritante agressividade, que a tradição católica já não exerce uma posição dominante ou hegemónica, como no passado, aproveitou para enunciar e desenvolver, com brilho, o conceito de «laicidade positiva», que leva o Estado a reconhecer e a valorizar o papel das religiões na sociedade, destacando as raízes essencialmente cristãs da França. País que, entretanto, conta com uma presença significativa do Islão, com diversas formas de descrença, de agnosticismo ou indiferença religiosa que também fazem parte da cultura ambiente, sem esquecer a sedução que exercem certas espiritualidades mais ou menos esotéricas ou místicas. Ao reconhecer aquilo que ele chama «aspiração espiritual», a necessidade de espiritualidade numa sociedade bastante secularizada, afirma, também, que a França precisa de católicos convictos que não receiem afirmar-se como tais e mostrar aquilo em que acreditam.

Em suma, o Estado deve garantir o exercício de liberdade de consciência a todos os cidadãos, sejam eles laicos, agnósticos ou crentes, mas é preciso compreender que as religiões nasceram para satisfazer necessidades que o Estado não pode desconhecer nem satisfazer. Importa, no entanto, que as religiões e as Igrejas sejam reconhecidas como referências de vida e não como forças políticas ou grupos de pressão, suas tentações permanentes.

3. Com este cónego, presidente da República, o Papa não tinha nada a temer da laicidade «à francesa». Pelo contrário. A «laicidade positiva» já tinha sido proclamada em Roma, na sede da cristandade, por Sarkozy que, agora, recebia Bento XVI com palavras que ninguém podia contestar: «na República laica que é a França, todos vos acolhem com respeito enquanto chefe de uma família espiritual».

Assumiu, do pensamento do Papa, não só a defesa da compatibilidade entre fé e razão, como o reconhecimento de que a especificidade e a fecundidade do cristianismo não são dissociáveis do seu encontro com os fundamentos do pensamento grego. Também a democracia é mais do que a adição aritmética dos votos e dos movimentos passionais dos indivíduos. Precisa das luzes da razão, de argumentar, de procurar honestamente o que é bom e necessário, de respeitar os princípios essenciais reconhecidos por aquilo que se chama o entendimento comum. Não receou acrescentar: também é legítimo para a democracia e é uma forma de respeitar a laicidade dialogar com as religiões. Estas, e nomeadamente a cristã com a qual a França partilha uma longa história, são patrimónios vivos de reflexão e de pensamento, não só sobre Deus, mas também sobre o ser humano, sobre a sociedade e mesmo sobre as preocupações, hoje centrais, como é a natureza e a defesa do meio ambiente. Privar-se desse património, seria uma loucura e um pecado contra a cultura e contra o pensamento. É por isso que apela, novamente, a uma laicidade positiva, que respeita, que reúne, que dialoga e não a uma laicidade que exclui e denuncia. A laicidade positiva oferece às consciências, para lá das crenças e dos ritos, a partilha de uma busca de sentido a dar às nossas existências.

A posição de N. Sarkozy é discutível. Ainda bem. Já se perdeu demasiado tempo a repetir dogmas laicos e eclesiásticos.

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Segunda-feira, Maio 12, 2008

Questões sobre a laicidade no YouTube

A primeira das Conferências de Maio deste ano, já aqui antes referidas, e promovidas pelo Centro de Reflexão Cristã, está disponível no YouTube, aqui. São vários pequenos filmes, com as intervenções completas de frei Bento Domingues, José Vera Jardim e Lúcia Amaral. A próxima conferência é na quarta-feira, às 18h30, no Centro de Estudos da Ordem do Carmo (R. Santa Isabel), com Esther Mucznik, José Carlos Calazans e José Tolentino Mendonça.
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Domingo, Maio 11, 2008

O espírito do cristianismo

Na sua crónica no Público deste domingo, frei Bento Domingues escreve sobre a laicidade e o cristianismo.

 

1. O conhecido aforismo de Marcel Gauchet – "o cristianismo é a religião da saída da religião" – provocou, paradoxalmente, um outro: "o cristianismo é a religião do futuro da religião", cujo sentido é explicitado por Jean-Paul Willaime (1).

Nas análises sociológicas, acerca da evolução do cristianismo, este sociólogo distingue, de forma esquemática, três momentos que não são estritamente cronológicos. Um primeiro momento é marcado pelo choque entre religião e modernidade e, empiricamente, alimentado pelo conflito entre o catolicismo intransigente e os ideais do mundo moderno. Foi dominado por um paradigma interpretativo da secularização: quanta mais modernidade, menos religião e menos cristianismo. Numa modernidade em expansão, como poder racionalizador e dessacralizante, o futuro do cristianismo parecia ameaçado.

Num segundo momento, o interesse pela sociologia de Max Weber e de Ernst Troelstch – caracterizada pela atenção às génesis religiosas da modernidade ocidental – descobria que esta modernidade desmitificadora tinha algumas das suas raízes no judaísmo e no cristianismo, sobretudo nas suas expressões protestantes.

Num terceiro momento, aberto com o debate internacional sobre a pós-modernidade, o cristianismo já não aparece como anti-moderno ou pré-moderno, mas como ultra-moderno, no sentido que J.-P. Willaime dará a este termo. Ao ser a religião da saída da religião, o cristianismo torna-se a religião do futuro da religião. Integra na sua auto-compreensão não só o carácter laico e pluralista da sociedade, mas também o princípio fundamental da liberdade do indivíduo e da sua autonomia. Neste terceiro momento, o cristianismo é uma oferta de sentido, aponta para Deus e para o próximo, tem exigências éticas, mas sem impor normas. Inscreve-se numa sociedade de debate que procura ajustar constantemente as suas normas às evoluções da vida.

2. Este sociólogo não se demora nas estatísticas nem se preocupa com as notícias derrotistas dos meios de comunicação. Não ignora o enfraquecimento social do cristianismo, em França e na Europa, atestado pela diminuição do número de pessoas que se identificam como cristãs e pela baixa da prática cultual. Hoje, num país como a França, menos de metade dos jovens foram formados no cristianismo e, portanto, mais de 50 por cento dos jovens já não o foi. Esta é uma configuração inédita da qual ainda não se podem medir todas as consequências. Estes jovens, porém, não se reclamam do ateísmo. Situam-se num indiferentismo e num probabilismo, mas a partir da experiência individual, abrem-se a formas alternativas de religiosidade, a algo espiritual, embora não forçosamente cristão. Isto significa que as Igrejas cristãs perderam poder sobre os indivíduos e a sociedade. No entanto, como observa Jean Delumeau, não se trata do fim do cristianismo, mas do fim do cristianismo como poder.

Esta perda de poder corresponde a uma "saída da religião", se for entendida como "saída de um mundo onde a religião era estruturante, onde comandava a forma política das sociedades e no qual definia as regras do laço social". Isto não é o fim do cristianismo, antes pelo contrário. O próprio cristianismo não é estranho a este fim do religioso como poder englobante e estruturante. Integra, cada vez mais, na sua auto compreensão, a saída desse tipo de religião, como mostrou Marcel Gauchet. É a esta luz que Willaime defende a seguinte tese paradoxal: "é precisamente porque o cristianismo é a religião da saída da religião que pode incarnar, hoje, uma das figuras possíveis do futuro da religião".

A guerra de duas Franças – católica e laica – e o choque frontal que se produziu nesse país, entre o catolicismo intransigente e a modernidade secularizadora, não devem ocultar a genealogia judaico-cristã da modernidade ocidental. O cristianismo contribuiu, de forma decisiva, para a emergência desta modernidade. A incarnação confirma, efectivamente, tanto a dignidade do mundo como a sua diferença com Deus.

3. O famoso aforismo, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22, 21) e a declaração de Jesus, diante de Pilatos, o meu Reino não é deste mundo (Jo 18, 36), pertencem às origens do cristianismo. É o princípio da separação do poder político e das instituições religiosas. Apesar de todas as interferências e confusões político-religiosas, no regime de Cristandade, este princípio criou, desde o começo, uma tensão propícia à eclosão do Estado moderno emancipado de toda a tutela religiosa.

Seria um exagero circunscrever o espírito do cristianismo – o Espírito plural do Pentecostes – às expressões do seu devir ocidental. Foram e são muitas expressões do cristianismo. O devir das sociedades, das religiões e do cristianismo não está limitado pelas nossas previsões. O cristianismo tem a missão de ajudar a descobrir, a revelar o segredo e a graça da transformação da vida em novas criações de fraternidade. Deixemos o Espírito Santo à solta, tanto nas Igrejas como nas sociedades. 

(1) Jean-Paul Willaime, Le christianisme: une religion de l'avenir de la religion?, in René Rémond (dir.), Les grandes inventions du christianisme, Paris, Bayard, 1999.
Escrito por RELIGIONLINE em 22:20:12 | Link permanente | Comments (0) |