Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Festival de cinema reflecte relação entre religião e homossexualidade

No Público de sábado, 20, apresenta-se o ciclo acerca de religião de homossexualidade, incluído no Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. O texto é de Jorge Mourinha:

É possível reconciliar a fé (católica, evangélica, islâmica, judia) com a homossexualidade? É possível acreditar em Deus e professar uma fé que, levada aos seus limites fundamentalistas, exclui da sua confissão aqueles que são gays? É a propósito desse dilema que o Queer Lisboa - 12º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa, inaugurado na última 6.ª feira (19 de Setembro) no cinema São Jorge e que se prolonga até ao próximo domingo (27), apresenta cinco documentários que questionam a relação conflituosa e complicada entre a religião e a homossexualidade.

Integrados igualmente na competição oficial de documentários, estes cinco filmes funcionam como um olhar atento sobre uma questão que entra a fundo na própria essência da personalidade de cada um. Assumir publicamente uma identidade que os outros querem negar ou ignorar é ainda hoje uma das lutas centrais da condição homossexual, afectando a identidade individual (social, afectiva, profissional, política) - mas quando a religião entra ao barulho, a volatilidade da combinação é violentamente potenciada. Como fica explicado nesta escolha de filmes que tem como ponta-de-lança o aclamado documentário de Parvez Sharma

 

A Jihad for Love - Amor no islão

Ironicamente, A Jihad for Love, (3.ª feira, 23) que tem causado sensação ao longo dos últimos meses em festivais como Toronto ou Berlim, é também o único dos cinco filmes apresentados que o “Público” não pôde visionar antecipadamente, devido ao estrito controle da produção sobre as suas apresentações, perfeitamente compreensível na sequência das célebres fatwas sobre os Versículos Satânicos de Salman Rushdie ou os cartoons dinamarqueses sobre o profeta Maomé. E não é caso para menos, porque o realizador, formado no jornalismo televisivo na sua Índia natal, passou seis anos a investigar, recolher e entrevistar para fazer este documentário sobre a homossexualidade e o Islão, contando na primeira pessoa as histórias daqueles que, sendo muçulmanos devotos e homossexuais, se recusam a renunciar à sua fé, mesmo sabendo que isso pode significar a vigilância, a prisão, a tortura, até mesmo a morte. O tema é de tal modo tabu no mundo islâmico que Sharma filmou a maior parte do material em segredo e define nas notas de produção o título do filme como uma tentativa de reclamar o verdadeiro significado original da palavra jihad - entendida não como "guerra santa" mas como uma espécie de "via sacra", de percurso de aprendizagem e de luta em nome da fé e do amor.

 

A Itália real

Volatilidade, embora a outro nível, é também a palavra que define os acontecimentos contados em Suddenly Last Winter (a exibir dias 24 e 27), documentário simultaneamente aéreo e sério onde Gustav Hofer e Luca Ragazzi acompanham o conturbadíssimo processo da negociação dos pactos de uniões de facto em Itália ao longo de dois anos. O que começou como uma esperança de igualdade social erguida pela ascensão ao poder da esquerda italiana com a eleição de Romano Prodi é lentamente sabotado pelo envolvimento da Igreja Católica no boicote à igualdade de direitos para os homossexuais.

Hofer e Ragazzi, ambos jornalistas na área do entretenimento, e um casal há oito anos, pegam numa câmara de video e vão para a rua. E descobrem um país onde o peso da tradição católica é tal que a mera ideia da legalização das uniões homossexuais é suficiente para movimentar o protesto de milhões de católicos, alguns dos quais fundamentalistas com uma perturbante mentalidade de extrema-direita.

O confronto de Gustav e Luca com a "Itália real", longe do "casulo protector" em que viviam até aí, convencidos de fazerem parte do melhor dos mundos tolerantes, vem abrir brechas na sua relação. E afecta o que começa de maneira leve e divertida, ganhando progressivamente gravidade à medida que compreendem as consequências muito reais de toda esta guerra surda para a sua própria sobrevivência enquanto casal e para a sua identidade homossexual. Isso acaba por dar um tom falso à nota optimista do final, sugerindo uma opção pela alienação escapista (pouco ajudada pela imagem estereotipada do gay cosmopolita e frívolo que Hofer e Ragazzi dão de si mesmos) que não se dá bem com a seriedade do verdadeiro tema do filme.

 

A fé que os separa

Alienação escapista é exactamente o que não há de todo em Born Again (exibido no sábado), onde a cineasta americana Markie Hancock documenta na primeira pessoa, recorrendo a filmes de família super-8, fotografias de época e aos seus diários pessoais, o seu percurso identitário. Nascida no seio de uma família cristã evangélica devota e fundamentalista, Hancock aspirava a ser missionária e viver a sua vida em paz servindo diariamente a Deus, compreendendo lentamente a sua diferente identidade sexual e reconhecendo o fosso intransponível que essa identidade criava para com a sua família e a sua religião.

O interesse de Born Again, o que o transforma em algo mais que um simples "diário filmado", está precisamente no modo como a realizadora expõe publicamente as suas dúvidas e debate com a sua família os problemas de relacionamento levantados pela fé; uma fé cujo fundamentalismo coloca todos aqueles que a questionam, independentemente do motivo, como seres irredimíveis, condenados a errar para toda a eternidade num purgatório ateu. Particularmente comoventes são os momentos em que Markie e o seu irmão Nathan discutem as diferenças que os separam - comoventes porque se percebe como existe um verdadeiro amor fraternal entre ambos e como a fé é aqui um factor de separação.

 

Em tournée

É esta capacidade de particularizar o conflito para melhor o generalizar, por exemplo, que falta a We're All Angels (exibido ontem, dia 21), onde o americano Robert Nuñez acompanha um ano na vida e na carreira de Jason e DeMarco, cantores pop que assumem publicamente a sua homossexualidade e a sua fé cristã. O filme não foge a abordar as questões, nomeadamente o facto do mainstream da poderosa comunidade da música cristã americana rejeitar a tentativa de Jason e DeMarco se erguerem como exemplos da possibilidade da reconciliação da fé e da homossexualidade. Mas, na sua tentativa de equilibrar o fiel da balança, reduz-se demasiadas vezes apenas a um banal documentário sobre músicos em tournée, músicos em estúdio, músicos em ensaios.

 

A peça que falta

Sobra a divertida e intrigante surpresa de The Quest for the Missing Piece (a exibir nos dias 25 e 26), filme onde a homossexualidade é menos importante do que possa parecer e onde o que se questiona verdadeiramente é a identidade judia, independentemente da orientação sexual ou da nacionalidade. A investigação do israelita Oded Lotan equivale ao filme mais "abrangente" do lote e usa como ponto de partida uma pequena história do ritual da circuncisão, que está longe de ser um exclusivo judeu para ser praticado por muitas outras culturas, em quase todas transportando uma forte carga identitária mas de conotação significativamente mais tribal ou colectiva do que religiosa. E de certa maneira acaba por funcionar como uma peculiar síntese dos restantes filmes do programa, ao combinar a abordagem documental sociológica, o carácter histórico e a experiência pessoal do seu autor num todo a um tempo estimulante e atento.

A «missing piece» do título é o prepúcio masculino retirado na circuncisão, usado por Lotan como uma metáfora de um qualquer atavismo cultural cujas raízes se perdem no tempo e cujo porquê já ninguém recorda ao certo. A pergunta, claro, é saber se esse atavismo é uma identidade forçada ou desejada - e a resposta depende, afinal, de cada indivíduo que se depara com ela.  

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Quinta-feira, Maio 29, 2008

O lugar ético da religião

O bispo Carlos Azevedo escreve hoje, no Página 1, jornal digital da Renascença, o texto seguinte:

As comunidades religiosas têm lugar numa sociedade democrática e plural. O seu lugar é no campo da esfera pública, com separação da instituição estatal, lugar distinto da sociedade civil, ainda que no seu interior.
As convicções morais não pautam apenas a religiosidade da pessoa. As religiões, pela critica e pela legitimação da democracia que desenvolvem, prestam um serviço de participação sócio-politica. Servir cada País como consciência crítica, com voz forte, fora dos poderes é lugar da religião. É saudável que a ética religiosa saia do privado e sustente concepções alternativas de justiça, bem comum, solidariedade, interesse público.
As Igrejas e comunidades e suas hierarquias têm direito e dever de exprimir e organizar-se publicamente para dizer o que do seu ponto de vista é justo e errado, o que é eticamente importante ou não é, quais são os valores e quais não são.
Todos devem contribuir com a sua ideia de vida feliz como proposta à liberdade do outro, de modo a que o povo decida a via melhor, em dinamismo dialogal entre todos, na recíproca narração da própria subjectividade pessoal e social.
O Estado beneficiará da vitalidade das religiões, reconhecendo a presença de visões várias, entre as quais assume importante lugar a religião. São um espaço cultural profundo, no qual renovar a base moral da própria identidade, os valores fundantes, os signifi cados últimos do próprio agir.
O historiador Paolo Prodi previne: “ou a Europa possui a capacidade revolucionária de projectar sobre esta base um pacto constitucional que seja capaz de manter e reinventar os princípios da responsabilidade pessoal, da liberdade e da democracia na era da globalização, ou terminou o seu ciclo vital e está destinada, também defendendo ou conquistando um seu espaço geo-politico, a ser absorvida nos novos blocos politico-sacrais em que se entrevê o choque das civilizações.”(La storia dell’Europa come rivoluzione permanente. In Il Mulino 3 (2007).
Cancelar a fé em Deus acaba por retirar fundamento à ética. Há um património ético-moral que a democracia deve à religião. Não basta a razão. O mal ou o bem são reais. As escolhas morais não se podem justificar a nível racional. Há necessidade de acreditar, de confi ar. A Europa, onde se vive mais o secularismo, não terá futuro se deixar que as regras de comportamento sejam pensadas ou justifi cadas com base na utilidade.
(Crédito da foto: Nuno Ferreira Santos / Público)
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